Juntas recebem mais competências mas continuam sem dinheiro para lhes dar resposta
Um ano depois dos anúncios de reforço do financiamento às freguesias, os autarcas reconhecem que as câmaras municipais têm cumprido as transferências, mas avisam que o dinheiro continua muito aquém das necessidades. O aumento das competências, dos salários, dos serviços e dos custos de manutenção está a consumir as verbas disponíveis, deixando pouco ou nenhum espaço para novos investimentos.
Um ano depois de vários municípios terem anunciado o reforço das verbas destinadas às juntas de freguesia, o balanço dos autarcas ouvidos por O MIRANTE aponta para um problema que permanece por resolver: o dinheiro é transferido com regularidade, mas continua a não chegar para responder às responsabilidades assumidas e às crescentes exigências das populações. As realidades de Vale de Cavalos, no concelho da Chamusca, da União de Freguesias de Casével e Vaqueiros, no concelho de Santarém, e da União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e Sobralinho, em Vila Franca de Xira, são diferentes, mas o diagnóstico é semelhante. As relações institucionais com os municípios são consideradas positivas e não são apontados atrasos significativos nas transferências. O problema está no montante das verbas, que os presidentes de junta consideram desajustado face ao aumento dos custos e das competências delegadas.
Na União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e Sobralinho, o presidente da junta, Carlos Gonçalves, considera que o compromisso assumido pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira foi cumprido. No entanto, sublinha que o aumento das transferências “está longe de acompanhar o crescimento real dos custos do trabalho e do custo de vida”. A união de freguesias tem mais de 36 mil habitantes, ocupa cerca de 24 quilómetros quadrados e integra três agrupamentos de escolas e um dos mais importantes interfaces rodoferroviários da região. Uma dimensão que, segundo o autarca, não é devidamente considerada no actual modelo de financiamento. Carlos Gonçalves explica que as verbas recebidas são absorvidas pelas competências delegadas e pelas despesas correntes, sem margem para avançar com investimentos estruturantes. “Não houve qualquer obra ou investimento que só tenha sido possível graças a esse reforço financeiro”, afirma. O presidente da junta identifica necessidades na limpeza urbana, na manutenção dos espaços verdes e na requalificação do espaço público, mas diz que a freguesia não dispõe dos meios necessários para responder como gostaria. A crítica estende-se ao próprio processo de descentralização de competências. Carlos Gonçalves considera que muitas juntas passaram a executar tarefas que anteriormente pertenciam às câmaras municipais, sem receberem o financiamento adequado. “As juntas passaram a ser tarefeiros do que as câmaras não querem fazer”, acusa. Para o autarca, é necessária uma revisão da Lei das Finanças Locais, uma maior participação das freguesias nas receitas fiscais e a adopção de critérios que tenham em consideração a população, a dimensão da área urbana e os custos efectivos dos serviços prestados. “Somos o parente mais pobre, o enteado”, resume.
Vale de Cavalos espera actualização das verbas
Na freguesia de Vale de Cavalos, a presidente da junta, Joana Gonçalves, esclarece que o actual executivo da Câmara da Chamusca não anunciou um reforço generalizado das transferências para as freguesias. O compromisso assumido pelo município passa pela revisão do financiamento das universidades seniores a partir de Setembro e pela actualização das verbas associadas às transferências de competências, com efeitos previstos para Janeiro de 2027. Até lá, as verbas municipais continuam a ser aplicadas de acordo com os contratos e protocolos em vigor. Joana Gonçalves confirma que o dinheiro tem chegado dentro dos prazos estabelecidos, permitindo à junta assegurar uma gestão regular da sua actividade. A autarca considera, porém, que os recursos financeiros continuam desajustados face às responsabilidades que recaem sobre as freguesias. O aumento dos custos dos serviços prestados à população não foi acompanhado por uma evolução equivalente das verbas provenientes do Estado e das transferências de competências. Joana Gonçalves defende, por isso, uma revisão do modelo de financiamento que permita reforçar a capacidade de resposta das juntas e garantir uma gestão mais sustentável, sobretudo em territórios onde a proximidade é determinante para resolver os problemas quotidianos das populações.
Freguesias rurais obrigadas a gerir “tudo ao cêntimo”
Na União de Freguesias de Casével e Vaqueiros, o presidente da junta, Miguel Tomás, reconhece que a Câmara de Santarém tem procurado aumentar algumas verbas através dos protocolos de delegação de competências. Considera, no entanto, que “há ainda um longo caminho a percorrer” para garantir uma verdadeira autonomia financeira às freguesias rurais. O autarca elogia a regularidade das transferências feitas pelo município, mas lembra que as juntas continuam a ser “o parente pobre do poder local”, acumulando responsabilidades e sendo obrigadas a gerir “tudo ao cêntimo”. A falta de capacidade financeira reflecte-se também na concretização de investimentos há muito reivindicados pela população. Entre eles está a construção do Multiusos de Casével, uma obra superior a 600 mil euros para a qual a freguesia aguarda o lançamento do concurso público. O projecto prevê a requalificação do actual ringue polidesportivo e de toda a zona envolvente. A junta reclama ainda a requalificação do pavilhão de Vaqueiros e o alcatroamento de várias estradas, intervenções que considera essenciais para melhorar as condições de vida e combater o sentimento de abandono das populações rurais. Miguel Tomás defende que a distribuição das verbas não pode continuar a assentar quase exclusivamente no número de habitantes. Na sua opinião, o financiamento deve também ter em conta a área geográfica, a dispersão populacional, a ruralidade e as necessidades específicas de cada território.
As três juntas ouvidas por O MIRANTE não colocam em causa a regularidade das transferências nem a relação institucional com as respectivas câmaras municipais. A contestação dirige-se sobretudo a um modelo que lhes atribui cada vez mais responsabilidades sem garantir os recursos necessários para as executar. Os aumentos anunciados têm servido, na prática, para absorver a subida dos salários, dos combustíveis, dos materiais, das prestações de serviços e das despesas de manutenção. O resultado é uma margem financeira cada vez mais reduzida para avançar com obras, renovar equipamentos ou responder a novas necessidades.


