A ciência que o país ignora: o diagnóstico dos especialistas para salvar o território dos fogos e do problema da eucaliptização
Para compreender o que falha na gestão do território e quais as soluções viáveis, entrevistamos presencialmente alguns dos maiores especialistas nacionais na matéria. O diagnóstico conjunto destes investigadores é um murro no estômago da burocracia estatal: a floresta portuguesa não precisa de mais leis cegas; precisa de gestão de paisagem, descontinuidade de combustível e pragmatismo económico.
Há décadas que Portugal assiste, impotente, ao mesmo ciclo de destruição. No verão, o país chora sobre as cinzas e as vidas perdidas; no inverno, debate as leis e as reformas que tardam em sair do papel. Para lá da bruma dos dias e do ruído político, a ciência tem produzido respostas sólidas, sustentadas em anos de investigação aplicada e monitorização de campo.
Para compreender o que falha na gestão do território e quais as soluções viáveis, entrevistamos presencialmente alguns dos maiores dos maiores especialistas nacionais na matéria: o professor Jacob Keizer (Universidade de Aveiro), o professor Filipe Catry (ecólogo e investigador em sistemas florestais, Instituto Superior de Agronomia) e o professor Akli Benali (especialista em modelação e dinâmica do fogo, Instituto Superior de Agronomia).
O diagnóstico conjunto destes investigadores é um murro no estômago da burocracia estatal: a floresta portuguesa não precisa de mais leis cegas; precisa de gestão de paisagem, descontinuidade de combustível e pragmatismo económico.
Jacob Keizer: a urgência da gestão pós-fogo e o ceticismo das AIGP
Coordenador de projetos de referência como o “Live Reforest” (focado no controlo da erosão através de soluções inovadoras como os “geotubes” com micélio de cogumelos) e o “Terra Safe” (dedicado à desertificação), o professor Jacob Keizer traz para o debate a perspetiva crucial da conservação do solo e da água.
O erro das limpezas mecânicas radicais: Keizer alerta que, após um incêndio, a remoção total da vegetação e o uso de maquinaria pesada em zonas com declives acentuados é "o pior que se pode fazer". Esta prática destrói a coesão do solo, acelerando drasticamente a erosão e a perda de nutrientes essenciais (carbono, azoto e fósforo). O solo precisa de cobertura para reter a água e evitar que as cinzas poluam as linhas de água.
O bloqueio do minifúndio: sobre as Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP), o investigador reconhece o mérito teórico de gerir em conjunto, mas aponta as barreiras práticas do minifúndio e do abandono. Muitos proprietários que limpam os seus terrenos acabam prejudicados por vizinhos ausentes ou herdeiros desconhecidos. Para Keizer, a gestão tem de ser feita à escala da paisagem, envolvendo ativamente as comunidades e dando-lhes ferramentas para se organizarem, em vez de aplicar modelos puramente “top-down”.
Gestão adaptativa face às alterações climáticas: com a escassez de água e o aumento de eventos extremos, Keizer defende que o país tem de aceitar que certos solos que no passado produziam pinheiro ou eucalipto já não o conseguirão fazer. A solução passa pela diversificação e por uma gestão adaptativa do risco, introduzindo espécies mais resistentes à seca (como a alfarrobeira em certas regiões) para garantir algum retorno financeiro face à incerteza climática.
Filipe Catry: a Ilusão do "jardim asséptico" e a necessidade de descontinuidade
Com mais de duas décadas dedicadas à ecologia do fogo e aos sistemas florestais, o Professor Filipe Catry desconstrói vários mitos sobre a limpeza das florestas e o ordenamento do território.
Contra o "Jardim Asséptico": Catry defende que é um erro pensar que a solução para os incêndios passa por limpar obsessivamente cada palmo de mato do país. Além de ser ecologicamente danoso, é economicamente inviável. O foco deve estar na criação de descontinuidades na paisagem, quebras estratégicas na continuidade do combustível (como cumes de montanhas ou faixas geridas) que permitam aos bombeiros combater o fogo em segurança.
O problema da continuidade e do abandono: o grande motor dos incêndios catastróficos é a acumulação contínua de biomassa resultante do abandono agrícola e florestal. Espécies como o pinheiro-bravo e o eucalipto têm uma capacidade brutal de regeneração pós-fogo. Se essa regeneração não for gerida e desbastada, transforma-se numa "bomba de combustível" intransitável e altamente inflamável.
A racionalidade económica: Catry sublinha que a floresta só será limpa e gerida se houver retorno económico para quem nela trabalha. Onde não há rentabilidade, o território é abandonado ao mato e às espécies invasoras (como as acácias), agravando o risco.
Akli Benali: o fogo controlado, as descontinuidades e o pragmatismo da gestão profissional
Especialista em modelação e dinâmica do fogo, o professor Akli Benali aborda a problemática com um pragmatismo desarmante , focado na eficácia das operações, na viabilidade económica das soluções e na necessidade urgente de redesenhar a estrutura do território.
A criação de zonas de redução de combustível e descontinuidade: para Benali, o combate eficaz aos incêndios exige a criação de zonas de redução de continuidade do combustível que funcionem como áreas estanques. O investigador defende que estas descontinuidades não têm de ser exclusivamente florestais; podem e devem ser desenhadas através de mosaicos que incluam áreas limpas (zonas sem carga de combustível), a plantação de árvores autóctones ou a introdução de outras atividades agrícolas, como fruteiras ou medronheiros. Contudo, deixa o alerta: criar uma zona estanque entre um eucaliptal com medronheiros de nada serve se estes últimos não forem devidamente limpos e geridos, pois qualquer espaço abandonado acumula combustível e propaga o fogo.
O fogo como aliado (fogo controlado): Benali desmistifica o impacto do fogo controlado. Quando executado por técnicos credenciados, em condições de baixa intensidade e humidade controlada (típicas do inverno), esta técnica elimina o excesso de mato sem danificar o solo, funcionando inclusive como um regenerador que "cria novos nutrientes". Contudo, aponta limitações regionais: no Algarve, por exemplo, o mato local exige condições demasiado secas para arder, o que impede a aplicação segura do fogo controlado no inverno, obrigando a recorrer a limpezas mecânicas.
O ceticismo crítico sobre as AIGP: o modelo atual das Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP) merece duras críticas por parte do investigador: "Não vai funcionar porque depende da boa vontade e iniciativa das pessoas." Num país sem espírito associativo e dominado pelo minifúndio, Benali considera irrealista esperar que os pequenos proprietários e as cooperativas se organizem voluntariamente. O Estado deve, por isso, assumir um papel muito mais ativo e musculado na criação de zonas de redução de combustível permanentes, que não fiquem reféns da anuência ou da iniciativa individual.
A defesa da floresta gerida profissionalmente: sem preconceitos ideológicos, Benali prefere claramente uma floresta controlada e gerida de forma profissional a um mato abandonado à sua sorte. Embora reconheça que as grandes empresas de celulose geram riqueza para as populações locais e gerem os seus ativos com rigor, a sua defesa foca-se na rentabilidade e na sustentabilidade da gestão. O investigador aponta que, para muitos proprietários destes terrenos, o eucalipto surge como o único investimento viável para obter rendimento. O problema central não é a espécie em si, mas sim a ausência de gestão profissional que garanta a limpeza e a resiliência do território.
As vozes de Keizer, Catry e Benali convergem num ponto fundamental: o território não se gere com voluntarismo ou decretos de gabinete.
Para travar o flagelo dos incêndios, Portugal precisa de:
1. Abandonar a ilusão de que se pode limpar todo o país mecanicamente, apostando antes na criação de descontinuidades estratégicas na paisagem (usando, inclusive, o fogo controlado como ferramenta de limpeza natural).
2. Superar o bloqueio do minifúndio através de uma intervenção pública direta e musculada na gestão do combustível, deixando de esperar por uma auto-organização utópica dos proprietários.
3. Garantir a viabilidade económica da floresta, apoiando os produtores na transição para modelos de gestão conjunta e reconhecendo que o abandono é o verdadeiro inimigo do território.
A ciência já fez o seu trabalho e apresentou o mapa do caminho. Resta saber quando é que os decisores políticos terão a coragem de escutar os especialistas e começar, finalmente, a governar a floresta com base na evidência científica.
À Margem
A conversa com os três especialistas que publicamos nesta reportagem tem muitos pontos em comum e, a certa altura, parece que o discurso é circular. Entendemos que nunca é demais publicar aquilo que pode ajudar os governantes a orientarem-se na defesa do território, apoiados em ideias e soluções que, embora não sejam surpreendentes, têm a vantagem de serem coincidentes, e em alguns casos vão de encontro à opinião das populações e dos responsáveis políticos e associativos de cada concelho do país.
Há, no entanto, um ponto que fica por explorar mais por culpa dos entrevistados do que do jornalista: a realidade que o país vive ao nível da eucaliptização e do tamanho da mancha florestal do eucalipto é criticada muitas vezes mas de forma suave, é difícil encontrar no meio científico quem fale “a matar”, o que se compreende num país pequeno onde todos nos conhecemos e cruzamos nestas e noutras actividades profissionais.
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


