Projecto Eucalipto | 23-09-2026 07:26

Eucalipto: a árvore que divide um país

Eucalipto: a árvore que divide um país
foto Antonio J.M. Montez

O eucalipto não incendeia Portugal sozinho. O que arde é um território sem ninguém que o cuide. Mas há uma realidade que se repete: Portugal tem um território fragmentado, envelhecido e cada vez mais difícil de gerir. O eucalipto faz parte dessa história. O abandono também. E talvez seja este o problema que o país continua a não querer discutir.

Há uma árvore que atravessa Portugal de norte a sul e que, há décadas, divide opiniões, interesses e visões sobre o futuro da floresta. Para uns é uma das principais riquezas florestais do país, uma cultura produtiva que alimenta uma indústria exportadora e dá rendimento a milhares de proprietários; para outros tornou-se o símbolo de uma floresta desequilibrada, demasiado dependente de uma espécie e incapaz de responder ao desafio dos grandes incêndios.

Durante meses, O MIRANTE percorreu diferentes regiões do país e ouviu bombeiros, autarcas, investigadores, engenheiros, especialistas ambientais, produtores florestais e responsáveis pela fiscalização. De Arouca ao Gavião, de Vouzela à Chamusca, de Sardoal a Figueiró dos Vinhos, passando pela academia e pelas forças de segurança, as vozes são diferentes e nem sempre concordam sobre o eucalipto.

O que emerge desse conjunto de testemunhos é menos uma acusação contra uma árvore do que um retrato de um território que mudou profundamente e cuja gestão não acompanhou essa transformação. O eucalipto ganhou espaço porque tem valor económico, cresce rapidamente e encontra condições favoráveis em grande parte do país, mas também porque surgiu num momento em que Portugal perdeu população rural, abandonou terrenos agrícolas, fragmentou a propriedade e deixou de ter pessoas suficientes para cuidar de uma paisagem que continua a ser enorme. É por isso que a pergunta mais importante talvez não seja apenas quanto eucalipto temos, mas quem gere aquilo que está à volta dele.

Miguel Jerónimo. foto DR

Uma floresta que não cabe numa única explicação

Miguel Jerónimo, arquitecto paisagista e técnico do GEOTA, coloca a questão no campo das escolhas que o país foi fazendo ao longo de décadas. A expansão das monoculturas, o abandono do interior e a repetição dos grandes incêndios não são fenómenos isolados e, na sua leitura, continuar a plantar eucaliptos sem alterar a forma como o território é gerido significa adiar um problema que acabará por ser pago mais tarde.

Mas a realidade encontrada pelo O MIRANTE também mostra que o eucalipto não pode ser transformado no culpado universal. Margarida Belém, presidente da Câmara de Arouca, conhece um território onde cerca de 85% da área é ocupada por floresta de eucalipto e onde o problema da interioridade, da fragmentação da propriedade e do risco de incêndio se cruzam diariamente. A sua posição é mais complexa do que uma simples oposição à espécie: o eucalipto não deve ser demonizado, mas integrado numa floresta mais diversa e resiliente.

É uma diferença importante, porque obriga a separar a árvore do modelo de território em que ela cresce.

Uma floresta pode ser produtiva e, simultaneamente, vulnerável. Pode ter proprietários responsáveis e terrenos abandonados a poucos metros. Pode existir uma grande exploração com gestão profissional e, ao lado, pequenas parcelas onde ninguém sabe exactamente quem manda, quem deve limpar ou quem tem capacidade financeira para o fazer.

Na Chamusca, Kevin Monteiro, bombeiro e coordenador municipal da Protecção Civil, descreve precisamente essa contradição: há grandes explorações de eucalipto que são bem geridas, mas o risco aumenta onde se acumulam terrenos abandonados, propriedade fragmentada, falta de mão-de-obra e proximidade das manchas florestais às povoações. A floresta, afinal, não é apenas aquilo que está plantado. É aquilo que se consegue gerir.

Kevin Monteiro

Quando o abandono passa a ser combustível

É neste ponto que a discussão sobre o incêndio começa a ganhar outra dimensão. Um fogo não precisa apenas de uma ignição. Precisa de combustível, continuidade, condições meteorológicas e tempo para crescer. A espécie presente no terreno é apenas uma parte de uma equação muito maior. O problema surge quando a vegetação se acumula, os caminhos deixam de estar transitáveis, os terrenos ficam sem intervenção e as manchas florestais se aproximam das povoações sem que existam descontinuidades suficientes para travar a progressão das chamas.

Os autarcas e responsáveis pela Protecção Civil repetem esta preocupação com palavras diferentes, mas com um denominador comum: há demasiado território para as pessoas e meios disponíveis. No distrito de Santarém, por exemplo, o eucalipto representa cerca de 52% da área florestal, chegando a valores superiores a 70% e, em alguns concelhos, perto dos 85%. Ao mesmo tempo, são apontados caminhos bloqueados, árvores caídas, combustível acumulado e falta de meios para uma intervenção eficaz.

A questão deixa então de ser saber se o eucalipto arde e passa a ser perceber em que condições uma floresta dominada por uma espécie, abandonada em partes significativas e rodeada por povoações, se transforma num território particularmente difícil de proteger. É uma diferença que pode parecer semântica, mas muda completamente o diagnóstico.

Joao Joanaz de Melo - foto Antonio J.M. Montez

O problema começa muito antes do fogo

João Joanaz de Melo resume uma das ideias mais repetidas ao longo deste projecto que juntou dois jornais da Galiza e de Portugal num trabalho editorial que está a chegar ao fim: Portugal precisa de uma gestão florestal adaptada a cada região e de um verdadeiro ordenamento do território. O problema não está apenas na floresta, mas na forma como o país decidiu ocupar, valorizar e abandonar determinadas zonas rurais.

Não existe a mesma floresta em todo o território, nem existem as mesmas condições económicas, sociais ou físicas no Norte, no Centro, no litoral ou no interior. As soluções uniformes podem parecer simples quando são escritas numa lei, mas tornam-se muito mais difíceis quando chegam ao terreno.

Pedro Amadeu Lobo, presidente da Camara Municipal de Sever do Vouga, eleito pelo PSD e licenciado em Engenharia Civil e empresario. Natural de Sever do Vouga, defende uma estrategia assente no desenvolvimento sustentavel, na inovacao, na valorizacao do territorio e na promocao da qualidade de vida da populacao. foto Antonio J.M. Montez

Pedro Amadeu Lobo, presidente da Câmara de Sever do Vouga, chama precisamente a atenção para essa distância entre a lei e o território, defendendo regras que tenham em conta a realidade física e social de cada região.

É também aqui que surge uma das maiores contradições da floresta portuguesa: o Estado quer que o território seja gerido, mas nem sempre dispõe da informação, dos instrumentos ou dos meios necessários para saber quem são os proprietários e onde estão exactamente as parcelas.

Jorge Sousa

Sem cadastro não há floresta que se governe

Jorge Sousa coloca o problema de forma particularmente directa: gerir o território sem conhecer os seus proprietários é um obstáculo intransponível à estratégia de ordenamento. A frase atravessa praticamente todo o debate sobre a floresta portuguesa.

Portugal tem milhares de pequenas propriedades, muitas delas fragmentadas, algumas abandonadas e outras pertencentes a pessoas que vivem longe dos terrenos que herdaram. Sem cadastro e sem informação rigorosa, qualquer política de gestão começa com uma dificuldade básica: saber quem pode decidir.

O cadastro não resolve tudo, mas sem ele quase tudo fica mais difícil. A localização dos terrenos, a identificação dos proprietários, a criação de estruturas colectivas de gestão, a responsabilização pelo abandono e até a atribuição de apoios dependem de uma informação que continua incompleta.

Jorge Sousa defende, por isso, não apenas o cadastro, mas também apoio técnico gratuito aos pequenos proprietários e uma forma de remunerar os serviços ambientais prestados pela floresta. A ideia é simples: se a sociedade beneficia de uma floresta cuidada, protegida contra a erosão, capaz de conservar biodiversidade e de armazenar carbono, então não pode exigir que todos esses serviços sejam assegurados gratuitamente pelos proprietários.

Júlio Catarino - foto Antonio J.M. Montez

O pequeno proprietário que não consegue gerir sozinho

O minifúndio é uma das peças centrais deste problema. Júlio Catarino conhece-o através da realidade do Gavião, um território com cerca de 24 mil prédios rústicos, onde a dimensão e a dispersão das propriedades tornam particularmente difícil criar uma gestão florestal coerente. As Zonas de Intervenção Florestal trouxeram esperança, mas continuam a existir fragilidades e dificuldades em organizar proprietários que, muitas vezes, têm pouco contacto entre si e poucos incentivos económicos para investir na terra.

João Baeta - foto Antonio J.M. Montez

João Baeta acrescenta outra dimensão: o voluntariado e a boa vontade não chegam para resolver uma realidade desta escala. A floresta precisa de economia, de máquinas e, em alguns casos, de decisões políticas que não serão populares entre todos os proprietários. Entre as propostas que defende está a criação de mecanismos fiscais capazes de penalizar quem mantém terrenos sem qualquer decisão ou gestão. Não se trata apenas de obrigar a limpar. Trata-se de criar condições para que limpar, produzir e gerir passem a fazer sentido económico.

Porque exigir a um proprietário que mantenha uma parcela de reduzida dimensão, muitas vezes sem rendimento, sem acesso adequado e sem apoio técnico, pode produzir uma obrigação legal, mas não necessariamente uma floresta melhor gerida

Jael Palhas - foto DR

A floresta também é economia

Jael Palhas introduz no debate uma questão que raramente aparece quando a discussão se resume ao eucalipto: aquilo que não tem preço também tem valor.

A floresta não produz apenas madeira, cortiça ou pasta de papel. Produz água, biodiversidade, proteção do solo, paisagem, recreio, turismo e outros serviços dos ecossistemas que raramente entram na conta de quem decide o que plantar.

Enquanto esses valores não forem reconhecidos economicamente, o proprietário continuará a tomar decisões sobretudo em função daquilo que consegue rentabilizar directamente. E o eucalipto tem precisamente essa vantagem: tem mercado.

É por isso que o debate sobre a espécie não pode ignorar a economia. Se o país quer uma floresta mais diversificada, precisa de criar condições para que outras utilizações do território sejam também economicamente possíveis. Caso contrário, a simples proibição ou limitação de uma cultura pode deixar como alternativa aquilo que já existe em muitas zonas: o abandono.

A árvore não é inocente, mas também não está sozinha

É neste ponto que talvez seja possível juntar posições que habitualmente aparecem como incompatíveis. O eucalipto não é inocente no sentido de que a sua expansão altera a paisagem, influencia a estrutura da floresta e, quando associado a uma gestão deficiente e a grandes continuidades de combustível, pode contribuir para condições particularmente difíceis em caso de incêndio.

Mas também não é o responsável isolado pela dimensão dos fogos. Transformar uma espécie em explicação para tudo significa ignorar aquilo que acontece antes e depois da plantação: o abandono agrícola, a fragmentação da propriedade, a falta de gestão, a ausência de cadastro, a escassez de mão-de-obra, as alterações climáticas, a acumulação de combustível e a falta de uma estratégia territorial adaptada às diferentes regiões. O fogo não conhece a espécie que está a arder. Conhece apenas o combustível que encontra.

foto Antonio J.M. Montez

A prevenção começa muito antes do 112

No terreno, a resposta ao incêndio é hoje incomparavelmente mais rápida e sofisticada do que há décadas. A fiscalização e o sistema de resposta acompanhados pelo O MIRANTE no SEPNA da GNR de Coimbra mostram uma estrutura onde a informação é partilhada digitalmente, as ocorrências são encaminhadas rapidamente e os meios podem ser mobilizados em poucos minutos. Um helicóptero pode descolar num minuto e chegar a um ponto crítico do distrito em cerca de 10 a 15 minutos. Mas a rapidez da resposta não elimina o problema que a antecede.

Quando o fogo começa, já é tarde para resolver o abandono de uma propriedade, abrir um caminho que esteve anos bloqueado, identificar um proprietário desconhecido ou criar uma faixa de descontinuidade que nunca existiu.

A prevenção faz-se muito antes da chamada para o 112. Faz-se no inverno, quando não há câmaras de televisão apontadas para as chamas. Faz-se quando se decide quem limpa, quem paga, quem planta, quem corta, quem fiscaliza e quem é responsabilizado. Faz-se quando ainda não há fumo no horizonte.

O país que plantou árvores e esqueceu o território

Talvez esta seja a principal conclusão de todo o trabalho desenvolvido nesta reportagem de O MIRANTE: Portugal não tem apenas um problema de floresta. Tem um problema de território.

O país plantou árvores, criou indústria, gerou riqueza e construiu uma importante fileira económica em torno da floresta. Mas, ao mesmo tempo, deixou envelhecer e desaparecer grande parte da população rural que durante décadas assegurou a gestão quotidiana da paisagem.

Hoje temos mais tecnologia para detectar incêndios, mais capacidade para mobilizar meios e mais conhecimento científico sobre o comportamento do fogo. Temos também mais legislação, mais planos e mais obrigações. O que continua a faltar, em muitos territórios, é aquilo que parece mais simples e é talvez o mais difícil: pessoas, economia e organização suficientes para cuidar do território antes de ele precisar de ser salvo.

É por isso que o debate sobre o eucalipto não pode terminar numa pergunta sobre plantar ou não plantar. A verdadeira pergunta é outra: que floresta queremos e quem está disposto a geri-la?

Norte e Centro, duas geografias de um mesmo problema

Do Norte ao Centro, apesar das diferenças de paisagem, propriedade, relevo e economia, repetem-se sinais de uma mesma transformação. Há territórios onde a floresta produtiva continua a ser uma fonte importante de rendimento, outros onde o abandono avança, e muitos onde as duas realidades coexistem na mesma encosta.

A paisagem não obedece às divisões administrativas. O incêndio também não. Uma parcela abandonada no Norte pode colocar em risco uma povoação; uma mancha contínua de eucalipto no Centro pode ser perfeitamente gerida numa propriedade e representar um problema noutra; uma floresta produtiva pode coexistir com biodiversidade se houver planeamento e intervenção, enquanto uma área aparentemente natural pode acumular combustível suficiente para alimentar um incêndio de grande intensidade. O território obriga, por isso, a abandonar respostas simples.

Não é preciso escolher entre floresta e eucalipto

O debate português ganhou durante anos uma dimensão quase binária: de um lado, quem vê no eucalipto uma ameaça; do outro, quem o defende como cultura económica. O trabalho desenvolvido ao longo deste projecto mostra que essa divisão é demasiado pequena para explicar a realidade.

Há eucaliptais bem geridos e eucaliptais abandonados. Há proprietários empenhados e proprietários ausentes. Há floresta produtiva que gera emprego e rendimento e há terrenos que não produzem praticamente nada. Há áreas onde o eucalipto domina e outras onde a diversificação é possível. O que não existe é uma solução que funcione da mesma maneira em todo o território.

Uma floresta mais resiliente poderá ter eucalipto, mas terá também outras espécies, áreas agrícolas, zonas de pastagem, galerias ripícolas, espaços de descontinuidade e gestão activa. Terá proprietários identificados, estruturas colectivas capazes de actuar e uma economia que permita pagar o trabalho necessário. E terá, sobretudo, uma política de território que não trate a floresta como uma realidade isolada.

A pergunta que fica depois das entrevistas

Depois de ouvir investigadores, autarcas, técnicos, bombeiros, forças de segurança e pessoas que vivem diariamente com a floresta, a imagem que fica não é a de uma árvore culpada por tudo nem a de uma árvore completamente inocente.

É a imagem de um território que se transformou mais depressa do que a capacidade do país para o acompanhar.

O eucalipto aproveitou essa transformação porque tinha mercado, produtividade e procura. O abandono aproveitou-a porque deixou terrenos sem gestão. A fragmentação da propriedade tornou mais difícil actuar. A falta de cadastro dificultou a responsabilização. A ausência de alternativas económicas tornou algumas decisões quase inevitáveis. E os incêndios encontraram, ano após ano, um território cada vez mais vulnerável.

A floresta portuguesa não precisa apenas de mais árvores. Precisa de gestão, conhecimento, economia, pessoas e coragem para tomar decisões antes de o fogo obrigar a tomá-las.

Porque o incêndio começa nas chamas, mas a história que o explica começa muito antes. E, no Norte e no Centro, essa história já não pode ser contada apenas através do eucalipto. Tem de ser contada através do território que o deixou crescer.

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