O problema não é o eucalipto e a espécie; é a falta de gestão do território e a ausência de faixas de gestão de combustível
Sara Pereira é engenheira florestal e desempenha funções de relevo na BIOND (Associação das Bioindústrias de Base Florestal, que reúne as principais empresas do setor de pasta, papel, cartão e bioenergia em Portugal). Com uma visão humanista e profundamente técnica, Sara foca o seu discurso nas pessoas, na ciência e na gestão ativa do território. Defende que a sustentabilidade da floresta depende diretamente da criação de riqueza e de condições de vida para as populações locais, rejeitando visões preconceituosas e promovendo a modernização tecnológica e a coesão territorial como as verdadeiras ferramentas de salvaguarda do património florestal português.
O MIRANTE: Na sua intervenção referiu que precisamos de mais floresta. O que significa isto na prática para a BIOND e para o território?
Sara Pereira: Significa, acima de tudo, dar sustentabilidade às pessoas que vivem no território, quaisquer que elas sejam. A nossa riqueza é o território, e temos de o aproveitar para gerar riqueza para as pessoas, sem comprometer a nossa vitalidade e a nossa vida. Quando digo que gostava de ter mais floresta, refiro-me a uma floresta gerada e gerida ativamente, que traga riqueza — e a riqueza não é apenas dinheiro.
A floresta não impede outros usos; não é algo radical. O pastoreio pode perfeitamente andar sob coberto florestal, permitindo ao proprietário ter rentabilidade, e a apicultura também. Estamos a falar de árvores que têm flor; o eucalipto, por exemplo, tem flor e as abelhas adoram. Não há qualquer incompatibilidade. Se as pessoas abandonam o território por falta de condições, todos perdemos: aumenta o risco de incêndio e diminui a produtividade do território. A solução passa sempre pela gestão ativa.
O abandono rural e a falta de relevo geracional são evidentes. Como é que se pode inverter esta tendência quando a média de idades dos proprietários florestais é tão elevada e as novas gerações parecem distantes?
Não vamos conseguir reverter o abandono rural se as pessoas não tiverem boas condições para vir para estes territórios. O meu pai é de uma aldeia muito pequenina no Douro. Na altura das campanhas dos cereais aquelas pessoas passaram fome; o meu pai teve tios a morrerem de fome quando eram crianças porque os solos simplesmente não davam para o sustento familiar. Quem desenhou essas políticas na altura pensou que era importante ter cereais para fazer pão, mas o solo não correspondia. Ninguém quer voltar a passar fome.
Para fixar pessoas, precisamos de condições que hoje consideramos mínimas: emprego, escolas, centros de saúde e internet. Nenhum jovem vem para um sítio que não tenha isto.
Quanto à idade dos proprietários, é um facto: a média de idades é impressionante e os filhos e netos (que já são adultos) não estão cá. É por isso que a BIOND atua com o programa *Limpa e Aduba*. Nós não nos substituímos às pessoas que já dão a cara e têm consciência. Trabalhamos diretamente com as Organizações de Produtores Florestais (OPF) que representam estes proprietários, pois um senhor de 80 anos não consegue fazer este trabalho sozinho. Se eles limparem, reduzirem e selecionarem as varas, nós fornecemos o adubo e apoiamos financeiramente. Isto diminui o risco de incêndio e aumenta a produtividade potencial da matéria-prima para as indústrias associadas, sem que haja qualquer compromisso de entrega de madeira por parte do proprietário às nossas associadas. É um investimento privado na gestão ativa, sem qualquer apoio público.
Portugal tem uma forte indústria florestal instalada, mas, surpreendentemente, importa matéria-prima. Como se explica esta situação?
Importamos tudo: importamos cortiça, importamos vinho e importamos eucaliptos. Temos um território que podia ser plenamente aproveitado e três grandes fileiras instaladas com cadeias de valor muito claras que estão a importar matéria-prima. No caso da cortiça, por exemplo, importamos de Marrocos, onde os operadores são obrigados pelo Rei a fazer a primeira transformação lá, devido a acordos comerciais.
Se nós não produzirmos matéria-prima no nosso país, a indústria deixa de ter viabilidade. E se a indústria deixar de ter viabilidade, a matéria-prima deixa de fazer sentido para o proprietário. Isto retira coesão ao país e diminui o rendimento nacional. Estamos a falar de um setor, onde incluo a bioenergia com uma balança comercial altamente positiva. No valor acrescentado nacional (VAN), por cada euro que esta indústria exporta, 73 cêntimos ficam em Portugal. Há pouquíssimas indústrias onde controlamos toda a cadeia: temos a matéria-prima, a tecnologia de transformação e a capacidade de vender o produto final. Todos os elos da fileira têm de ganhar; se estrangularmos um, comprometemos todo o sistema e milhares de empregos.
Existe a percepção de que países como o Brasil ou outros na América Latina e Ásia conseguem produzir muito mais rápido e mais barato, ameaçando a nossa produção. Isso é uma ameaça real?
Na América Latina, Ásia e China, eles conseguem cortar em metade do tempo (cerca de 6 anos, enquanto nós precisamos de cerca de 12) e a produtividade deles é muito maior. No entanto, há uma questão química: a fibra do eucalipto produzido em Portugal tem uma qualidade e um rendimento muito superiores para determinados fins, como o papel de escrita.
Além disso, embora a madeira lá fora possa parecer mais barata na origem, há o custo do frete para atravessar o Oceano Atlântico. Nós também já estamos a diversificar o uso da nossa fibra para além do papel: usamos a mesma fibra para embalagens, combustíveis, nanocircuitos e biomateriais para drones.
Há também uma vantagem física na nossa árvore: com a tempestade Leslie, por exemplo, vimos que o pinheiro partiu muito por ser mais frágil, enquanto o eucalipto não partia tanto, tombava ou vergava, mas resistia. Isto acontece porque, fisicamente, o eucalipto tem um fio espiralado dentro do tronco que lhe confere uma enorme resistência. Temos uma sorte tremenda com esta espécie, e a verdade é que não a estamos a aproveitar devido a questões emocionais de "amor ou ódio".
Muitos produtores queixam-se de que os preços pagos pelos madeireiros são muito baixos. Onde é que está a falhar a cadeia de valor? A certificação e os bónus ajudam?
A BIOND, por questões estatutárias, não se envolve na parte comercial ou na definição de preços. Contudo, a informação que tenho do lado industrial é que a madeira à porta da fábrica tem vindo a aumentar de preço. As nossas associadas e as multinacionais estão a pagar mais à porta da fábrica.
O que acontece entre a floresta e a fábrica, os custos de transporte, os combustíveis, a energia e a margem dos intermediários , é o que pode fazer com que o valor que chega ao produtor pareça baixo. Quanto à certificação, sim, o bónus associado à madeira certificada existe e há empresas que o praticam, mas cada uma gere a sua política comercial de forma independente.
No que toca aos incêndios florestais, o eucalipto é frequentemente apontado como o grande culpado.
Fico com muita pena quando se desvia a atenção para o "culpado" em vez de se resolver o problema. O fogo não escolhe espécies, escolhe a paisagem e o abandono. Tivemos recentemente o exemplo do incêndio de Valpaços, onde a paisagem é essencialmente agrícola, ou os incêndios em França e Espanha, em zonas completamente abandonadas e sem um único eucalipto, onde o fogo ganhou uma força tremenda devido ao combustível acumulado.
O problema não é a espécie; é a falta de gestão do território e a ausência de faixas de gestão de combustível. Nas zonas geridas pelas nossas empresas e através dos nossos programas, conseguimos confirmar que a gestão ativa aumenta a resiliência ao fogo, diminui a frente de chama e permite um melhor combate. O fogo só é um problema porque nós somos pessoas e vivemos perto; para a natureza, o fogo é apenas um processo natural de renovação. Mas como há pessoas e aldeias, tem de haver regras e gestão.
Como é que o setor está a lidar com a escassez de mão de obra para os trabalhos florestais?
Há um estigma antigo de que "só vai para a floresta quem não sabe fazer mais nada". Isso acabou. Atualmente, quem opera uma máquina de corte manobra um equipamento altamente tecnológico que custa 800 mil euros. Tem de ser mão de obra especializada que saiba exatamente o que está a fazer.
Nós estamos a trabalhar muito de perto com a estrutura de missão criada pelo governo para ajudar as empresas prestadoras de serviços (que são quem as nossas associadas contratam) a recrutar e formar trabalhadores qualificados.
A Inteligência Artificial e as novas tecnologias podem colmatar essa falta de recursos humanos?
A Inteligência Artificial vai ser um excelente copiloto, mas o piloto continuará a ser o homem. Nós precisamos de evolução técnica: precisamos de drones para monitorizar o estado da floresta e de robôs que consigam entrar em zonas difíceis para criar faixas de proteção onde não temos pessoas para trabalhar.
Já temos projetos inovadores em curso. Na SIF (Subunidade de Gestão Florestal) Aldeia do Mato, gerida pela Gestinvest, conseguimos montar uma operação pioneira com a associação: obtivemos uma autorização especial da autoridade aeronáutica para utilizar um drone de grande porte no tratamento de pragas florestais. Isto demonstra que a tecnologia melhora a eficiência e o rendimento, mas exige operadores qualificados que trabalham confortavelmente protegidos do calor.
O que é que o Estado e a legislação atual podiam fazer melhor para apoiar o setor florestal?
O principal pedido ao Estado e ao governo é: não bloqueiem. Nós não exigimos que nos deixem plantar eucaliptos em todo o lado. A BIOND até já propôs ao Estado que nos permitisse arborizar áreas que atualmente não são florestais (zonas ocupadas por matos ou espécies invasoras), aceitando como contrapartida a obrigação legal de plantar uma determinada percentagem de espécies autóctones nessas áreas ( superior à vigente). Nós aceitaríamos esse critério. O problema é o bloqueio legislativo quase cego ao eucalipto apenas por ser uma "espécie de rápido crescimento", um argumento caricato quando estamos a planear a floresta a horizontes de 12 anos.
Além disso, a excessiva burocracia e a necessidade de autorizações para tudo atrasam imenso o trabalho. O Estado precisa de confiar mais na ciência e na técnica. Nós aprendemos com os erros do passado, como aconteceu com a introdução involuntária de invasoras como as mimosas (que as pessoas plantavam nos jardins por acharem as flores amarelas bonitas) ou os problemas atuais com as canas. Hoje, a indústria faz uma gestão florestal responsável, científica e de excelência.
A inovação tecnológica é a solução para a floresta portuguesa
No âmbito da 15.ª edição do prestigiado seminário "Juntos Fazemos a Floresta", um evento de referência organizado pela OFA (Associação de Produtores Florestais) que reuniu em Cantanhede investigadores, universidades, autarcas, proprietários e decisores políticos, incluindo o Secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, o debate sobre o futuro do nosso património florestal ganhou uma nova urgência. Entre os grandes desafios estruturais discutidos, como o minifúndio, o envelhecimento demográfico e o abandono rural, destacou-se a necessidade premente de criar escala, gerar riqueza e promover uma gestão ativa e sustentável do território
É precisamente nesta interseção entre a ciência, a economia e as pessoas que se posiciona a BIOND (Associação das Bioindústrias de Base Florestal), entidade que reúne as principais empresas do setor de pasta, papel, cartão e bioenergia em Portugal
Representando as indústrias de celulose, a associação tem assumido um papel ativo no apoio direto aos pequenos produtores florestais através de iniciativas privadas e sem apoios públicos, como o programa Limpa e Aduba. Este projeto, desenvolvido em parceria com as Organizações de Produtores Florestais (OPF), fornece adubo e apoio financeiro para que proprietários de idade avançada consigam gerir as suas terras, reduzindo o risco de incêndio e aumentando a produtividade, sem qualquer obrigatoriedade de entrega de madeira à indústria
Para compreender como a tecnologia, a simplificação legislativa e a valorização da floresta podem fixar populações e transformar o interior do país, O MIRANTE aproveitou a iniciativa para conversar com Sara Pereira, engenheira florestal da BIOND. Com uma visão profundamente técnica e humanista, Sara desconstrói mitos sobre o eucalipto, defende a urgência de maior biossegurança nas operações florestais e aponta caminhos para que a inovação tecnológica, desde a inteligência artificial ao uso de drones gigantes.
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


