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A arte de esgrimir em três ferros

ESGRIMA: Na Sala de Armas do Círculo Cultural Scalabitano a esgrima é a palavra de ordem

Na Sala de Armas do Círculo Cultural Scalabitano, em Santarém, impera o gosto pela esgrima artística e de combate, sendo o local onde os apaixonados pela modalidade a tentam “pegar” aos outros. Uma actividade com pouco mais de um ano de existência em Santarém e que levou cerca de seis anos a ser gerada.

Edição de 12.12.2002 | Desporto
Paulo Cruz é instrutor de esgrima, mas também está ligado a actividades teatrais e musicais. Foi durante um espectáculo em que teve de esgrimir que se viu obrigado a treinar e a partir dali ganhou-lhe o gosto. Primeiro a esgrima artística, em que não se pode tocar no adversário e, mais tarde, a esgrima de competição, com o objectivo contrário. “Depois foi só ir aprendendo mais coisas e procurar em Santarém quem quisesse esgrimir comigo. Procurei mais pessoas capazes e juntámos em Santarém três pessoas capazes de ensinar esgrima”, refere. São elas Paulo Cruz (sabre), Pedro Cardoso (florete) e Dércio Guia (espada), instrutores da Sala de Armas. É no ginásio do liceu, na nave do pavilhão gimnodesportivo e num espaço mais exíguo no Círculo Cultural Scalabitano (CCS) que decorrem os treinos e já a partir de 6 de Janeiro irá ser formado um grupo de trabalho com o período de inscrições ainda aberto. A modalidade, que a generalidade das pessoas só conhece da televisão, é praticada e ensinada na Sala de Armas no CCS nas suas três vertentes, Espada, Sabre e Florete. As armas são muito diferentes umas das outras. Como explica Pedro Cardoso, instrutor de Florete. A sua arma de eleição é a mais leve e que representa na maior parte dos casos o início da aprendizagem. “Quem aprende a trabalhar com o florete fica pronto para aprender sabre e espada”, assegura.Além de ser a arma mais leve, tem como base de acção o toque, tentando-se atingir o tronco do adversário, exceptuando os braços, cabeça e costas. Com a espada, o atirador pode alcançar todo o corpo do oponente, da máscara aos pés. É mais pesada que o sabre, uma arma de estoque por pontuação e golpe. Procura-se atingir o adversário com o gume em todo o corpo da cintura para cima.Já durante a época passada a Sala de Armas contou com mais de 30 inscrições, das quais cerca de 15 alunos eram mais assíduos. Estes distribuem-se por três grupos de trabalho separados por faixas etárias, com crianças entre os sete e os 12 anos, jovens dos 12 aos 17anos e adultos, havendo pessoas de todas as idades.Os treinos decorrem de segunda a quinta-feira no espaço do CCS entre as 18.30 horas e as 20.30 horas, enquanto o ginásio do liceu está ocupado às segundas e quintas-feiras no mesmo horário. A nave do pavilhão gimnodesportivo conta com alunos às terças e quintas-feiras, das 22h00 às 23.30 horas.Para que cada aluno tenha a atenção adequada, a equipa de instrutores optou por fazer pequenos grupos de trabalho até seis elementos no sentido de desenvolver as aptidões de cada um. Um trabalho que procura frutos mas tarde com a participação da Sala de Armas em competições oficiais. Segundo refere Paulo Cruz, “ainda este ano estamos a pensar ter dois-três miúdos, jovens e adultos nas provas nacionais a representar a sala de armas”.Uma ideia que o responsável da Sala de Armas pretende desmistificar é que a prática da esgrima seja dispendiosa. “Praticar golfe, futebol ou equitação é seguramente mais caro e estamos mais ou menos ao nível do ténis. A sala de armas tem gillets (fatos próprios) e temos crédito na marca All Star, máscaras, ferros e luvas para as pessoas usarem” revela, acrescentando que basta ao interessado vir equipado com uns ténis e um fato de treino.Quem quer aprender a esgrimir tem de pagar uma mensalidade de 20 euros por trimestre para qualquer arma. Todo o treino é realizado com armas que, mesmo emboladas e com gumes menos aguçados, podem causar ferimentos. Por isso, como refere Pedro Cardoso, instrutor de Florete, “impomos regras, o que não significa que apesar de haver um ambiente de concentração e disciplina não se possa dizer uma piada”.A esgrima é principalmente uma disciplina de combate, mas também envolve o estudo dos clássicos da esgrima dos séculos XVI e XVII ou a fabricação das armas, que podia, em tempos mais remotos, determinar o resultado de um combate. Neste aspecto Paulo Cruz orgulha-se da Sala de Armas do CCS ser das primeiras salas no mundo a ter as duas vertentes da esgrima, a artística (ensina a trabalhar com armas brancas) e de reconstituição histórica e a esgrima de combate, destinada à competição.Pedro Cardoso é de opinião que na esgrima não há segredos nem fórmulas para triunfar. “Não se faz nada que o adversário não conheça mas encadeamentos que o procuram enganar e, ao contrário do que muitos pensarão, o físico não é o mais importante. Primeiro está a técnica, seguida da atitude de querer e, por fim, a condição física” adverte.A esgrima tem também, na sua opinião, duas boas virtudes. Em primeiro lugar, estimula a imaginação potenciada por heróis da televisão e do cinema como Zorro e Errol Flyn, além de “puxar” pelas capacidades físicas do indivíduo. Mas ainda é uma boa escola para aguentarmos os políticos que temos, impondo-nos uma certa dose de paciência, disciplina e rigor.De pequenino se torce o floreteJoana Cruz, de 17 anos, é filha de Paulo Cruz e foi também por sua via que optou por praticar esgrima. A opção inicial recaiu sobre o florete, uma arma que além de ser mais leve é ainda de mais fácil aprendizagem. “Houve alguma influência do meu pai na escolha de esgrima mas também me atraiu o facto de ser um desporto não só físico, que exige uma grande coordenação psico-motora” revela, acrescentando que serve para melhorar os reflexos e tornar os músculos mais “firmes e hirtos”, explica Joana.A estudar no 12.º ano, Joana Cruz nota que a modalidade não é muito divulgada e que ainda soa estranha aos jovens da sua idade, que no fundo até a acham uma modalidade interessante. A atleta refere que “sabe muito bem descarregar as energias negativas desta maneira e aprender as posições, a defesa, o ataque, a parada e a resposta”. Apesar de ainda não competir a nível oficial, durante os treinos Joana tem oportunidade de se “confrontar” com outros alunos, no que considera ser a melhor parte da esgrima, “aquela em que pomos em prática contra um adversário as técnicas que se aprendem”, conclui.O mesmo tipo de motivação tem José Miguel Gervásio, de 14 anos e também de Santarém. O primeiro olhar para a esgrima aguçou-se quando viu os cartazes para a inscrição nas aulas já lá vão quase dois anos. “Achei a ideia interessante e inscrevi-me até porque também porque já cá havia colegas meus e a primeira surpresa que tive é que não contava que se desenvolvesse tanto a técnica e os movimentos quase à perfeição” revela.Hoje treina duas vezes por semana mas não se mostra muito apressado em aprender as técnicas ao máximo. Segundo conta “vou evoluindo a pouco e pouco sem pressas, porque já cá estou há dois anos e nem sequer estou perto de ser um bom atirador”. A primeira experiência como espectador da esgrima de alto nível deu-se o ano passado quando foi ao campeonatos do mundo realizados em Lisboa.

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