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A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe é escoltada por motoqueiros que fazem encher as ruas

Uma procissão pouco católica

Meia centena de motos acompanharam viagem de Nossa Senhora de Guadalupe até Samora Correia

Já começa a fazer parte da tradição. Anualmente em Agosto, a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe viaja da capela do Porto Alto até à igreja de Samora Correia acompanhada por algumas dezenas de motociclistas e pelo roncar das respectivas máquinas. Embora o padre da freguesia não pareça muito convencido das motivações religiosas dos motards, o cortejo já se tornou uma das atracções das festas de Samora.

Edição de 20.08.2003 | Sociedade
Meia centena de motos acompanharam sexta-feira, dia 15 de Agosto, o cortejo religioso que levou a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe da capela do Porto Alto para a igreja de Samora Correia, concelho de Benavente. Apesar de a santa não ser conhecida como padroeira dos motards, este foi o terceiro ano em que os veículos de duas rodas e respectivos passageiros integraram o cortejo, numa viagem ruidosa e com algum “folclore” à mistura. A iniciativa integrou-se nas festas da freguesia de Samora. Os motociclistas começaram a concentrar-se junto à capela do Porto Alto por volta das oito e meia da noite. Altura em que chegou uma viatura dos bombeiros voluntários para transportar a imagem. Enquanto o padre coordenava a montagem do andor em cima da viatura, revestida com um pano azul celeste, uma criança fazia acrobacias com uma mini-moto de quatro rodas no largo de terra da capela. Quando se iniciou o percurso, os motoqueiros ligaram as máquinas e colocaram-se atrás da viatura dos bombeiros. O ambiente de silêncio e introspecção que normalmente acompanha as procissões dá lugar à música ruidosa dos motores. O padre José António Gonçalves segue dentro do carro, pouco convencido das motivações religiosas dos acompanhantes: “Tenho esperança que alguns motards sejam pessoas religiosas”. O sacerdote referiu que esta “não é uma actividade religiosas dirigida aos homens das motos”, mas antes “uma maneira de eles se integrarem nas festas”. As motos seguem a passo lento atrás do carro dos bombeiros. Alguns aproveitam para chamar a atenção buzinando, como se estivessem num desfile de uma concentração motard. A única diferença é que pelo meio das máquinas seguem bicicletas e até trotinetes. CADA VEZ MAIS PÚBLICO A ADORAR AS MÁQUINAS Antigamente as pessoas seguiam o cortejo de carro devido à distância entre Porto Alto e Samora Correia, que não permitia o desfile a pé. A introdução das motos acabou por dar algum folclore à manifestação. A comprová-lo estão as palavras do responsável pelo desfile da comissão das festas de Samora. “Isto torna-se engraçado. Achei piada ao facto de as motos participarem”, justificou Manuel João Pernes. E é pela mesma piada que as ruas se enchem de populares. Mais para ver as “máquinas” do que propriamente a santa. “Antigamente o cortejo tinha muito menos público. Agora muitos enchem os passeios também para ver as motos e a imagem acaba por passar despercebida”, explica Manuel João Pernes. À entrada da vila de Samora, junta-se ao cortejo a banda local que se vai esforçando por fazer ouvir a música no meio de acelerações e buzinas. Os motards chegam com ar triunfal à vila, transportando os capacetes nos braços. Vestem casacos e coletes de cabedal com o símbolo do moto-clube de Samora Correia. Tudo tem cheiro a festa de motoqueiros. “Venho pelo gosto das motos, não por causa do cortejo ou de questões religiosas”, admite Carlos Ferreira ao volante da sua máquina de alta cilindrada. “Estou aqui como se estivesse numa concentração motard. Nunca fui à missa, porque só acredito no que vejo”, reforça. Paulo Henriques garante que acredita em Deus apesar de não ir à missa, mas esclarece que participa no cortejo “mais pelo espírito de ajudar a embelezar a festa”. “A santa não tem nada a ver com motards. Participamos porque fomos convidados pela organização”, reforça o presidente do moto-clube, Edgar Sousa, acrescentando que “alguns elementos identificam-se com as questões religiosas, mas são poucos”.Ao fim de meia hora de cortejo, Nossa Senhora de Guadalupe entra na igreja de Samora Correia, onde vai ficar até ao fim das festas. É uma visita ao templo de onde saiu há cinco anos, para se instalar na capela de Porto Alto, construída nessa altura. Com a santa já na calma e silêncio da igreja, os motards dão um ar da sua graça acelerando os motores no máximo das rotações, o que faz os escapes detonar estrondos como se fossem foguetes. Depois seguem para o refeitório das festas onde, como recompensa pela participação, recebem um jantar.
A imagem de Nossa Senhora de Guadalupe é escoltada por motoqueiros que fazem encher as ruas

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