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A terra que deu nome às grutas

Na Serra de Santo António há sinais de desenvolvimento mas ainda faltam infraestruturas básicas

Às seis da manhã, mais de cem vacas vão-se perfilando para a primeira ordenha do dia, uma missão que voltam a cumprir por volta das cinco da tarde. Todos os dias é assim na vacaria de Dionísio Pires, um dos muitos agricultores ligados à pecuária que residem na Serra de Santo António, freguesia do concelho de Alcanena.

Edição de 26.11.2003 | O poder local aqui tão perto
Os 1500 litros diários que as vacas de Dionísio Pires fornecem vão direitinhos para o tanque climatizado existente no espaço contíguo à sala da ordenha mecânica. Dia sim dia não um carro da empresa Baral vai ali buscar o leite para o transformar no já célebre queijo Saloio.A vida de António Elias é idêntica a muitos outros vizinhos da Serra de Santo António, uma freguesia rural onde a agricultura e a pecuária são a base do seu desenvolvimento.Embrenhada na Serra de Aire, a freguesia, que é composta pela Serra de Santo António e pelo lugar de A-do-Sacho, com apenas quatro habitações, fica a escassos dez quilómetros da auto-estrada Lisboa/Porto (A1) mas poucos são os que por ali circulam que já visitaram a terra. Os que se aventuram na subida à Serra de Aire raramente param na localidade. O seu destino é geralmente as grutas, quatro quilómetros mais acima da Serra de Santo António.Apesar de terem o mesmo nome – Santo António – e de até terem sido descobertas pelos habitantes da aldeia, segundo afirmam os populares, a verdade é que a Serra de Santo António pouco ou nada tira proveito do potencial turístico das grutas. Simplesmente porque elas estão situadas já em outra freguesia (Alvados), em outro concelho (Porto de Mós) e em outro distrito (Leiria). Tão perto e tão longe...O MIRANTE decidiu não fazer como a maioria dos turistas. E por umas horas aventurou-se na descoberta da Serra de Santo António. Deixou-se para trás a A1 em Torres Novas e, logo à entrada da A23 (antigo IP6) virou-se em direcção a Alcanena. Para chegar à freguesia não há muito que enganar, bastar seguir as placas que indicam as grutas.Olha-se para um e outro lado e panorama é o mesmo – pedaços de terra agreste plantados de oliveiras e rodeados por muros de pedra. Aqui e ali, aparecem as “casinas”, uma espécie de iglo montanhês, construído em pedra, onde antigamente os pastores se resguardavam para descansar. Ao longo do trajecto não se vêem pastores mas pequenos rebanhos de ovelhas matam calmamente a fome.É entalada entre muros de pedra que aparece a indicação da localidade. Percorre-se o caminho ladeado de habitações, umas que obedecem à tipicidade do local outras de arquitectura mais arrojada, construídas pelas dezenas de conterrâneos emigrados no Canadá e nos Estados Unidos.Uma pequena rotunda relvada, tendo no centro uma “casina”, monumento típico da terra, indica o ponto central da aldeia. À esquerda está a igreja com o seu adro de calçada, à direita um café e uma pastelaria. Desse lado, a menos de 20 metros, situa-se uma agência do totoloto e logo a seguir as bombas de gasolina da BP, onde a agricultora Dina Maria abastece o tractor que conduz.Virando à direita na rotunda, encontra-se o edifício da junta de freguesia, que alberga também o posto dos Correios. É a própria funcionária da junta que recebe as cartas e as encomendas trazidas pelo distribuidor (que leva o expediente), faz o pagamento das contas de água e luz da população e ainda as pensões dos reformados. A funcionária é paga pela junta de freguesia, que recebe dos CTT uma comissão sobre os selos e os registos.A extensão de saúde fica contíguo ao edifício da junta. O médico vem três vezes por semana, o suficiente para uma população que ronda os mil habitantes.Uma estrada divide a junta da agência da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo onde, às três da tarde, meia dúzia de pessoas faz contas à vida. Mais ou menos as mesmas pessoas que tem o mini-mercado situado em frente. Um jovem chega e dirige-se à caixa do multibanco, encravada numa das paredes exteriores da instituição bancária que ostenta as cores verde e branco.Vindos da hora de almoço, uma vintena de crianças sobe a rua encimada pela rotunda, numa fila indiana comandada por duas educadoras de infância e uma auxiliar. A escola da Serra de Santo António tem cerca de 60 alunos distribuídos por duas salas do primeiro ciclo do ensino básico, uma sala de jardim de infância e um refeitório.O jardim tem um horário alargado para apoiar os pais, que funciona das 7h45 às 9h00, das 12h00 às 13h30 (hora de almoço) e das 15h30 às 17h, altura em que as mães saem das fábricas de malhas de Minde.“Compre-nos um postal de Natal”, pede uma das educadoras, adiantando que é para uma boa causa. O dinheiro conseguido com a venda de postais, calendários e álbuns de fotos feitos pelas mãos dos pequenos tem como destino a compra de um computador para o jardim. Um campo de futebol onde cresce alguma erva e um ringue, utilizados normalmente pelo Grupo Desportivo Unidos da Serra, são outros dos equipamentos que a Serra de Santo António possui. No pequeno parque de merendas construído pela junta, Luísa Agostinho não deixa que as ervas dêem cabo das flores recentemente plantadas. “A minha terra não é melhor nem pior que as outras mas gostamos de a ver limpa e arranjada”, diz a idosa, de canivete em punho, enquanto arranca mais uma erva daninha.Apesar do aparente desenvolvimento, nem tudo é perfeito. A freguesia é a única do concelho a não ter ainda saneamento básico - os residentes continuam a utilizar fossas domésticas - e a rede de transportes é uma ficção.Apenas dois autocarros – um de manhã outro à tarde – fazem o percurso entre Alcanena e Minde, o que pouco serve a população que faz “vaquinhas” com os vizinhos no transporte para o trabalhoO presidente da junta não tem telemóvel “porque comprá-lo seria um desperdício”. É que para fazer qualquer ligação as pessoas têm que subir uns quilómetros até conseguir alguma rede. A junta já pediu aos três operadores que montassem por ali uma antena. Só uma mandou resposta – “não é rentável”.Com uma população envelhecida – há 221 residentes com mais de 65 anos – um centro de dia e/ou um lar é o equipamento mais desejado na freguesia. Um sonho que está prestes a concretizar-se. O terreno foi doado por uma conterrânea e só falta mesmo o protocolo com a Segurança Social para avançar. Na terra já existiu um lar particular, mas foi recentemente fechado pelo Governo por falta de condições.Sai-se da Serra de Santo António pelo crepúsculo, com as primeiras sombras da noite a descerem sobre os montes de oliveiras e pedras. No ar há uma quietude que só é interrompida pela azáfama da auto-estrada. A Serra de Santo António ficou lá em cima. A escassos dez quilómetros.Margarida Cabeleira

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