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Os bons ares da serra

Joaquim Guilherme, com 97 anos, é o homem mais velho da terra

Com um casaco colorido pelas costas, Joaquim Guilherme aponta para uma casota em ruínas – “nasci ali naquele quarto, agora está tudo caído”, diz o homem mais velho da Serra de Santo António.

Edição de 26.11.2003 | O poder local aqui tão perto
Aos 97 anos de idade, quase 98, Joaquim Guilherme pouco trabalhou na terra, mas é ali que quer acabar os seus dias. Andou pelo Entroncamento e conhece Lisboa “de ponta a ponta”. A carpintaria sempre foi o seu ofício, quase sempre por conta dos outros e, “quando calhava”, também fazia uns biscates. Casou em 1930, no dia 3 de Fevereiro. Nesse ano, recorda o homem mais velho da terra, casaram 16 pares de noivos. “Dessa gente toda só eu e outro que está na América é que estamos vivos, o resto morreu tudo”.Joaquim Guilherme teve o privilégio de já ter casado na igreja da freguesia. Até pouco tempo antes, quem quisesse dar o nó tinha que ir a Minde. “Nessa altura não havia estradas, íamos pelos cabeços, pelo meio da serra”.Do matrimónio nasceram três filhos, dois homens e uma mulher. “Tive outra menina mas morreu, coitadinha”. Hoje tem os filhos próximos e é em casa deles que vai ficando. Apesar da idade, Joaquim Guilherme ainda mostra uma memória de elefante. Tem na ponta da língua os nomes dos locais onde trabalhou, de Paço de Arcos a Cascais, da Amadora a Sintra. “Conhece Sintra?”, pergunta para de imediato rematar “aquilo é que é uma terra bonita”.Tira a boina para mostrar um buraco no couro cabeludo onde há apenas meia dúzia de cabelos brancos. “Caí de um prédio e parti a cabeça”, diz enquanto o dedo vai fazendo círculos em volta do local. Resquícios de uma vida dura em que as mãos faziam o papel hoje destinado às máquinas.Nem só de trabalho viveu. Também fez as suas “estroinas” mas não houve um único dia que faltasse ao trabalho por causa disso. Hoje diz já não estar para passeios. Prefere ficar sentado ao sol. “Ou à sombra, consoante a altura do ano”, refere com ar maroto.Aos 97 anos de idade, quase 98, só as pernas é que já fraquejam. Do mais, come e bebe normalmente e há já três anos que nem uma constipação tem. “É do ar da serra”.

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