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O dramaturgo das paixões e devaneios

O dramaturgo das paixões e devaneios

Evocação a Marcelino Mesquita, 150 anos depois do nascimento do autor

Marcelino Mesquita escreveu mais de 40 peças de teatro. Das paixões imorais aos dramas familiares mais violentos. O Cartaxo, onde nasceu há 150 anos, rende-se em sua homenagem.

Edição de 06.09.2006 | Cultura e Lazer
“Encontrei hoje o Marcelino Mesquita: ventas largas, marcas de bexigas, barba com muitas brancas aparada rente, chapéu desabado, capinha curta e olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista e seco”.A descrição do dramaturgo escrita em 1904 por Raul Brandão foi evocada por Duarte Ivo Cruz, crítico e historiador do teatro português, durante a cerimónia de comemoração dos 150 anos do nascimento de Marcelino Mesquita, o dramaturgo natural do Cartaxo.O salão nobre dos paços do concelho encheu-se ao final da tarde de sexta-feira, 1 de Setembro, para recordar o ilustre dramaturgo, médico, jornalista e poeta cartaxeiro. Marcelino Mesquita (1856-1919) compôs peças de cariz naturista com laivos de romantismo levando ao palco temas até então pouco explorados pelos dramaturgos.“A Noite do Calvário”, que se estreou no Brasil em 1902 depois da sua representação ter sido proibida em Portugal, é disso exemplo. É a história de amores e desamores que terminam no suicídio. “Trata temas de grande dureza do ponto de vista patológico e descontrole emocional completo”, analisa Duarte Ivo Cruz.O autor de “Pérola” descreve os amores irregulares de uma prostituta e um estudante, conta as aventuras da virgem seduzida e abandonada em “Sinhá”, dramatiza em “Os Castros” um caso de rivalidade amorosa entre dois irmãos e atinge o grau máximo de naturalidade na tragédia com “Dor Suprema”. É o relato de um suicídio de um casal de pequenos burgueses, a quem a morte de uma filha precipita na miséria e na loucura. “Antes de avançarem para o suicídio vendem a roupa do bebé porque já não é precisa”, pormenoriza o professor universitário.A profissão de médico conferiu-lhe uma visão modernista e um rigor científico que o dramaturgo utilizou nas peças que compôs. Para Duarte Ivo Cruz, Marcelino Mesquita foi um autor arrojado. “Sim, Eça fê-lo na literatura, mas ninguém o tinha feito daquela forma para o teatro”, resume o crítico.As comemorações dos 150 anos de Marcelino Mesquita arrancaram com o lançamento de um livro sobre o autor que contou com a colaboração de investigadores locais: António Filipe Rato, Aurélio Marques, Miguel Leal e Zelinda Pêgo. Mas os eventos não ficam por aqui e prolongam-se até ao próximo ano.Além da edição da obra completa do autor (ver caixa), a Câmara do Cartaxo quer negociar com os serviços educativos do Museu Nacional de Teatro visitas que incidam sobre o autor. Para o vice-presidente da Câmara do Cartaxo, Pedro Ribeiro (PS), não existe a pretensão de esgotar os temas da vida e obra do dramaturgo, mas de “avançar para um ponto de convergência que reúna vozes e promova o debate de ideias sobre uma das grandes figuras do teatro português”.O secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, que presidiu à sessão, lembrou que “não há desenvolvimento regional sem oferta cultural”. Ao contrário do século XIX, altura em que o teatro não era visto com muito bons olhos, hoje a arte é valorizada e apreciada em muitos equipamentos culturais municipais espalhados pelo país e pela região.Ana Santiago
O dramaturgo das paixões e devaneios

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