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Uma jornalista que andou na propaganda contra o regime

Uma jornalista que andou na propaganda contra o regime

Edição de 06.09.2006 | Entrevista
Foi jornalista num tempo em que não havia mulheres nas redacções. Essa situação não a intimidou?Não. Nada. Era muito bem recebida. No jornal República estive três anos e não tive problemas. Era muito respeitada. Depois fui para chefe de redacção da Vida Mundial e passou-se o mesmo, tal como no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias. Mas alguma coisa deve ter mudado nas redacções.Quando entrei para o Diário de Lisboa, em 1945, havia eleições em Portugal e tinha sido levantada a censura, pelo menos oficialmente. Então dizia o chefe dos repórteres fotográficos do Diário de Lisboa: “Ora agora que acabou a censura lá fora temos a censura cá dentro”.Que era a senhora…Sim. Quando cheguei disse-lhes que podiam estar à vontade e que fizessem de conta que estavam a falar ao pé das suas mães ou das suas filhas. Tiveram de travar a língua...Os constrangimentos eram mais da parte dos homens do que da sua parte.Da minha parte estava à vontade. Respeitaram-me sempre. Nunca me senti marginalizada por ser mulher. O Joaquim Manso, quando entrei para o Diário de Lisboa, disse-me: “Minha senhora, tem a responsabilidade máxima e a liberdade máxima”. E nunca desmereci esse conceito com que ele me recebeu.Nunca foi apertada pela censura?Muito, muito.E pela PIDE?Como jornalista não. Mas fui chamada lá porque assinei as listas da oposição e tomei atitudes defendendo a democratização do regime. Estive lá umas horas.Deu a cara pela oposição ao regime?Apoiei as campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado à Presidência da República. Lembro-me da noite da eleição, de ter ouvido os resultados pela rádio aqui nesta casa com a irmã do Álvaro Cunhal e com uma amiga dos tempos do liceu em Viseu que estava ligada ao comunismo. Até chorámos.Era uma mulher de esquerda?Sempre. Sou militante do Partido Socialista há muitos anos. E agnóstica. Fizeram-me católica, mas não creio em Deus.De onde bebeu essa influência?O meu pai foi propagandista da República. Foi declarado benemérito da pátria em plena Assembleia da República. O 28 de Maio de 1926 apanhou-me no liceu em Viseu, e quiseram-me converter ao Estado Novo. Mas aparece em Mangualde um brasileiro poeta, que vem pela mão do meu pai e que conversa muito comigo. Mostrou-me certas coisas do regime de que eu não tinha conhecimento.Foi uma espectadora privilegiada do seu tempo. Acompanhou algumas mudanças e convulsões. Nunca se deixou arrastar para a política?Só não quis cargos. Mas andei na propaganda com o Mário Soares e a Maria Barroso, antes do 25 de Abril. Lembro-me de ir com o Mário Soares, que era um rapazinho bem mais novo do que eu, a Santa Cruz e a Sintra recolher as assinaturas do João de Barros e do Ferreira de Castro para uma exposição que a oposição entregou ao presidente do Brasil, Kubitschek de Oliveira, quando ele por cá passou. E fui eu quem a entregou.Esse alinhamento com a oposição não colidia com a sua imparcialidade enquanto jornalista? Não mexia com o seu trabalho?Não mexia e tinham muita consideração por mim. Uma vez, quando trabalhava no Diário de Notícias, houve uma reunião no Palácio Foz onde Salazar ia anunciar o lançamento dos certificados de aforro. Eu perguntei se esse dinheiro era para fazer a guerra em Angola. Quando cheguei ao Diário de Notícias já sabiam que eu tinha feito essa pergunta. Diziam ao director que tinha metido lá uma comunistazinha.Nunca chegou a militar no PCP?Nunca.Mas foi convidada?Com certeza. Muitas vezes. E dava-me muito bem com pessoas do Partido Comunista. Pertencia à oposição e ao Movimento de Unidade Democrática.Era uma pessoa marcada pelo regime?Sim estava marcada e era uma activista. Uma vez fui com outros jornalistas aos países do Benelux, a convite da NATO. Ao ouvi-los falar tanto em democracia perguntei-lhes se sabiam o que era a democracia em Portugal. Disse-lhes que não tínhamos democracia. Nessa altura tive muito medo quando regressámos. Felizmente aquilo não teve repercussão, mas no beberete que se seguiu a essa reunião eu fui a estrela. Souberam tudo quanto eu quis dizer sobre o que não era a democracia portuguesa.Como é que viveu o 25 de Abril?Estava deitada e recebi um telefonema do subchefe de redacção a dizer que as tropas estavam a caminho de Lisboa. E disse-me para me dirigir para a redacção. Participei activamente no noticiário sobre a revolução. Curiosamente, na altura um primo meu era o comandante da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, o coronel Augusto Lage. Era um homem muito da situação mas muito humano e que tinha grande ascendente sobre os soldados. Mas tinha vindo a Lisboa passar uns dias para tratar de assuntos de família e os seus homens acabaram por fazer a marcha sobre Lisboa.Deixou o jornalismo para se dedicar a Camões. Nunca sentiu saudades do frenesim das redacções?Um pouco. Mas era muito compensada por esse sentimento de realização. Estava a fazer uma coisa que mais ninguém faria.Como vê o jornalismo de hoje?Os jornalistas estão muito mais bem preparados do que no meu tempo, mas estão muito menos independentes. Estão dependentes de sectores que às vezes não sabemos quais são, que deformam as notícias de uma maneira que não me dá crédito. Terá menos crédito mas tem a força política que não tinha. Quais eram as suas áreas preferidas no jornalismo?Quando vim para o jornalismo era para fazer economia e sociedade. Mas como a censura não me deixou passei para a área cultural.
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