
Director da Casa Lopes-Graça fala do compositor que queria que a sua obra servisse o povo
António de Sousa é um estudioso da obra do ilustre tomarense com quem privou durante anos
Ao fim de dez anos de trabalho foi inaugurada a Casa Memória Lopes-Graça, em Tomar, terra natal do compositor. António de Sousa, director científico da Casa e estudioso da obra conta como foi o seu encontro com o homem que não escrevia coisas “bonitinhas” e se recusava a ser “rouxinol”.
Privou de perto com Fernando Lopes-Graça. O que recorda mais desse contacto?Recordo tertúlias, serões de conversa na minha casa, à volta da lareira. Normalmente sobre ou ao redor de música. Lopes-Graça era um bom conversador e, como vivia sozinho, tinha alguma necessidade de estar com amigos e de conversar. Então eram noites, até às duas ou três da manhã, a comer castanhas assadas e a conversar.Quando estabeleceu o primeiro contacto com ele?Foi por carta (risos). Já conhecia Lopes-Graça como compositor mas pessoalmente não. Em 1980 fizemos um coro e começámos a ensaiar na Nabantina, uma casa à qual ele esteve sempre muito ligado desde a infância, uma vez que era a colectividade da família. Mandei-lhe uma carta, quase anónima, a dizer: “Somos da sua terra, estamos na Nabantina e começámos a cantar. Se, por acaso, quiser vir ouvir-nos ficávamos muito contentes”. E então ele respondeu que já não tinha idade nem posses para hotéis e grandes viagens mas que se o fossemos buscar a casa (na Parede, Cascais), aceitava com todo o gosto. E assim foi…Foi lá buscá-lo?Fui. Peguei no meu carro, fui à Parede e regressámos a Tomar. Fizemos um concerto, ele assistiu e depois ficou connosco a dar-nos conselhos. Já tinha perto de 70 anos de idade, de modo que o problema dele em vir a Tomar era onde é que ficava. Ofereci-lhe estadia. A partir daí, sempre que vinha cá, até à morte dele, ficava na minha casa. Como é que recebeu a notícia da morte dele?Recebi a notícia por telefone às duas da manhã de um domingo. Foi um choque e, obviamente, uma surpresa para mim. Por acaso, tinha estado com ele no domingo anterior e era para regressar no domingo seguinte com amigos. Costumava trazer os seus verdadeiros amigos a Tomar e fazia-lhes uma visita guiada. Tinha-se ido muito abaixo fisicamente, nos últimos tempos. Mas mantinha a sua extraordinária capacidade de trabalho e era muito vivo. Era daquelas pessoas que achávamos que nunca ia morrer.Foi muito influenciado por ele?Toda a gente que privava com ele o foi. Lopes-Graça não era uma personalidade neutra. Marcava tudo aquilo que tocava.Que ligação efectiva existe nesta altura entre a cidade e a obra de Lopes Graça. Os músicos da cidade, as escolas de música da cidade, dedicam-se mais a este compositor do que a outros?O coro que dirijo (Canto Firme) sim, por razões óbvias. Gosto muito da obra de Lopes-Graça. Os outros coros também sei que cantam, por vezes. Cantar Lopes-Graça não é tarefa fácil. É preciso muita força de vontade e ter espírito aberto. Não são coisas “bonitinhas”… de êxito fácil, digamos assim. Não é aquele tipo de música que pomos em fundo enquanto estamos a ler. São músicas que incomodam e foram feitas para isso. Incomodam em que sentido?Eu costumo dizer que somos um país de poetas mas ninguém conhece bem os Lusíadas. O mesmo acontece com Lopes-Graça. São obras demasiado profundas e que exigem de quem as ouve uma entrega total. E o pessoal, hoje em dia, gosta é de curtir. Nada que obrigue a pensar. Considera, portanto, que a obra de Lopes-Graça é encarada pelos tomarenses como uma música de “elite” e por isso não existe a ligação afectiva que devia existir?São coisas diferentes. Em termos afectivos, considero que existe uma ligação porque é rara a pessoa de Tomar que não tenha uma história com referências ao Lopes-Graça, ou à mãe ou o pai dele… porque era uma família daqui. Com a obra, é outra conversa. Lopes-Graça nasceu no número 25 da rua Joaquim Jacinto, aquela que é a sua actual Casa Memória… Nasceu e aqui viveu até aos 11 anos de idade. Depois o pai comprou uma casa, onde é hoje o edifício das Finanças (rua Everard), onde fez a Pensão Nabão. Penso que aquela era muito mais a sua casa do que esta. Esta tem significado porque foi aqui que ele nasceu e onde os amigos lhe fizeram uma primeira homenagem, em 1977.Como surgiu a ideia de erguer a Casa Memória Lopes-Graça?Quando Lopes-Graça morreu (em 1984) não tinha casa própria, nem filhos. Tinha um dos espólios mais valiosos do mundo da música em casa dele, muito bem organizado. O perigo era este espólio ser todo desperdiçado. Discutiu-se se aquele espólio deveria vir da Parede para Tomar. Foi também nessa altura que se percebeu que a Biblioteca Municipal através de muita doação, tinha um acervo interessante de Lopes-Graça. Mais tarde, o senhorio desta casa, o senhor Rui Costa, ouvindo toda esta discussão comunicou à autarquia que a cedia a título gracioso para que a Câmara fizesse dela o que bem entendesse. Foi um conjunto de circunstâncias que espoletaram esta Casa.Há Casas Memória a ganhar pó e teias de aranha, um pouco por todo o país. O que vai ser feito para evitar que isso aconteça com esta? Esta vai ter muita dificuldade em ganhar pó porque é muito pequenina (risos). Há uma grande carga simbólica numa Casa-Memória. Esta acaba por ser um símbolo do qual vamos irradiar as mais diversas actividades. Tencionamos fazer acções com os miúdos das escolas da cidade e vamos ter suportes audiovisuais para que, didacticamente, se possa comunicar com eles. A outro nível, vamos também dedicar-nos às escolas de música da zona. Aqui as actividades já são a outro nível, como a leitura e distribuição de partituras. E para os visitantes em geral?O visitante ou turista pode estar aqui tranquilo a ouvir música e a ler um livro sobre Lopes-Graça. Também vamos ter um suporte informático com informação, não só sobre a música do compositor como sobre música em geral. Finalmente, em termos de História de Tomar, vamos reunir aqui espólio da vida tomarense entre o século XIX e XX. Porque a importância desta Casa Memória é o reconhecimento de que um artista acaba por ser sempre também uma relação do meio que o criou. Esta é uma aposta de Tomar. O que pode ser visto aqui? Temos, por exemplo, milhares de recortes de imprensa feitos por amigos de infância de Lopes-Graça e que os foram oferecendo à Biblioteca. São memórias, essencialmente. Há livros que estão expostos que são raríssimos. Livros que ele ofereceu a amigos e que os amigos, por sua vez, ofereceram à Biblioteca. Temos fotografias, gravações e outros documentos importantes. O trabalho do último ano residiu em catalogar tudo e trazer para aqui. O maestro António Sousa António Luís Linhares Corvêlo de Sousa, 58 anos, nasceu no coração da Serra de Leomil, Moimenta da Beira, mas sempre viveu em Tomar. Diplomado em piano e composição, licenciado em ciências musicais, mestre em musicologia, é maestro e director artístico da Associação Canto Firme. Foi professor de educação musical e está reformado do ensino oficial. Tem vários discos editados desde 1970 e foi elemento fundador da Filarmónica Fraude, um agrupamento musical de finais dos anos sessenta que teve sucesso com músicas de crítica social. Como compositor de música para teatro participou em vários festivais na França, Bélgica, Canadá e Japão, tendo ganho o prémio de música do Festival Internacional de Teatro de Toyama, Japão, em 1991. Tem vários trabalhos de investigação editados, especialmente sobre Lopes-Graça, compositor de vulto da música contemporânea portuguesa com quem privou entre 1980 e 1984 e sobre o qual incidiu a sua segunda tese de mestrado (que incluiu uma entrevista com o compositor) tendo obtido um “Bom” por unanimidade. Em 2006, foi membro da comissão coordenadora da Secretaria de Estado da Cultura para o centenário do compositor Fernando Lopes-Graça. Foi nomeado em Janeiro de 2008 como director científico da Casa Memória Lopes-Graça, sedeada no n.º 25 da rua Joaquim Jacinto, em Tomar.“O Lopes-Graça não era domesticável”O senhor é, reconhecidamente, um especialista em Lopes-Graça. Isso tem sido suficiente para impedir que alguns usem o facto de ser irmão do actual presidente da câmara para fazer política? Como foi a sua nomeação para este cargo? É remunerado? Teve algum problema em aceitá-lo?Há uma coisa que tem que ficar bem clara. O meu irmão (Fernando Corvêlo de Sousa) é presidente da Câmara de Tomar há um ano. Eu fui nomeado pelo presidente António Paiva (Nota. António Paiva (PSD) renunciou ao mandato em 31 de Janeiro de 2008 para passar a ser gestor do Programa Operacional da Região Centro). Neste período de dez anos eu não renego que fui o motor desta Casa. Insisti que a fizessem, escrevi artigos em jornais. O meu irmão era um pacífico advogado e nada tinha a ver com política autárquica. A minha nomeação acontece em Janeiro deste ano quando o Eng. Paiva me pediu o regulamento da Casa e a própria Câmara decidiu que, para levar aquilo a bom porto, necessitava de alguém para gerir. De Janeiro para cá comecei a reunir o espólio todo e a catalogar o mesmo. Não sou remunerado, recebo ajudas de custo na ordem dos 150 euros mensais, uma vez que necessito de me deslocar com frequência a Cascais. A minha família até me diz que estou mais pobre desde que sou Director desta Casa (risos).O que lhe foi pedido pelo município? Que autonomia tem para desenvolver o seu trabalho? E que meios?Eu proponho que se façam coisas. As actividades com as escolas são feitas em conjugação com a Divisão de Cultura da autarquia. Também já contactei com a Secção de Turismo. Esta Casa vai ter que trabalhar em rede com a autarquia. Nem orçamento próprio tem. No fundo, a autarquia aproveita o meu “know-how” para dinamizar este projecto. Sente que a ligação de Lopes-Graça ao Partido Comunista possa ter limitado uma divulgação maior da sua obra?Claro, mas isso, a pouco e pouco, vai-se diluindo. Com o passar dos anos ninguém vai analisar a obra de uma pessoa através do partido político a que pertenceu. Reconheço que há muito preconceito mas que fique claro, Lopes-Graça foi comunista de 1948 a 1952 e de 1975 para cá. Quando dizem que ele já nasceu e foi sempre comunista não é verdade. Lopes-Graça era, de facto, uma pessoa de esquerda e um anti-fascista convicto. Era uma pessoa muito solidária e esteve sempre ao lado de comunistas mas teve questões muito graves com o Partido Comunista (PC) e rupturas. O seu posicionamento era mais ético e mais humano do que propriamente político. Depois do 25 de Abril, houve muito aproveitamento do nome e da personalidade dele para actividade política mas se for aos textos do PCP o nome de Lopes-Graça está quase apagado. Porque houve sempre aquela ideia que ele não era domesticável. Lopes-Graça era muito mais do que comunista.Escreveu um livro em que aborda a influência de Tomar na obra de Lopes-Graça. E que influência teve em Lopes Graça a ideologia comunista?Há dois tipos de artista. O que entende que a sua obra deve reflectir a Sociedade onde está inserido e os que, como ele dizia, gostam mais de ser rouxinóis, fazem arte pela arte. O Lopes-Graça foi um neo-realista na música porque queria que a sua obra servisse as causas do povo e isso cruza com o percurso de anti-fascismo do Partido Comunista Português. Nesse caso, houve uma influência mútua. O que segnifica para si a inauguração (sábado, 13 de Dezembro) da Casa Memória Lopes-Graça?Acho que é um ponto de chegada e um ponto de partida. Muita àgua passou pelas pontes até se chegar aqui. Mas chegar aqui, só por si, não serve para nada. Agora começam novas responsabilidades. Conseguir que esta casa tenha uma função incontornável na vida cultural de Tomar. Que os tomarenses a venham visitar não porque é uma casa bonita mas que façam dela a sua sala de estar e aqui respirem a sua História.

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