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Os sobreviventes do campo da morte lenta

Os sobreviventes do campo da morte lenta

Vila Franca de Xira recebeu ilustres na inauguração da exposição sobre o Tarrafal

Se há sítio simbólico para mostrar uma exposição sobre o Tarrafal é Vila Franca de Xira pela luta anti-fascista que desenvolveu, disse Mário Soares. No átrio do Museu do Neo-Realismo, no sábado à tarde, ergueu-se um dos dois últimos sobreviventes do campo da morte lenta, Edmundo Pedro. E a voz de Celina Pereira (ver página 3) cantou as ondas sagradas do Tejo e a paixão por Cabo Verde na língua que une um povo que em tempo de ditadura partilhou o mesmo cárcere.

Edição de 21.04.2010 | Sociedade
Edmundo Pedro chega ao Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, ao som da percussão das batucadeiras de Vialonga. O carro estaciona a alguns metros da porta e a presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha, ajuda-o a alcançar um lugar especial no átrio do museu, transformado em pequeno auditório, que haveria de encher mais tarde, deixando muitos curiosos de fora. É um dos dois últimos sobreviventes da prisão da Ilha de Santiago, em Cabo Verde. Convidado especial do momento de inauguração da exposição “Memória do Campo de Concentração do Tarrafal”.Tem 91 anos e bem fresca a memória dos dez anos que o cárcere lhe roubou. “Quando vou lá sozinho tenho muita dificuldade em evitar chorar”, confessa o homem que nasceu na outra banda, a ver Lisboa, no Samouco.Chegou ao Tarrafal aos 17 anos. Para sair apenas aos 27. Partiu no dia 17 de Outubro de 1936. A viagem demorou 10 dias. Foi difícil. “Era um cargueiro que servia para transportar os bois e não as pessoas”. Edmundo Pedro ia eufórico como quase todos os outros. “Estava convencido de que era uma espécie de visita. Achávamos que dentro de pouco tempo voltávamos”. A viagem de regresso só aconteceu dez anos depois. “Imagine o que é ver a juventude desaparecer e estar numa situação perfeitamente indefinida. Pensar que se lá vai passar o resto da vida”, sugere. Esteve dez anos à espera de julgamento. Ao fim desse tempo condenaram-no a 22 meses de prisão correccional.Como sobreviveu, pergunta-se-lhe? “Eu e os outros estávamos animados de uma esperança extraordinária, de uma moral enorme. Acreditávamos que estávamos ao serviço da transformação do mundo para melhor, de uma sociedade mais justa e mais equilibrada e isso dava-nos força para transpor todas as dificuldades”. Bateu o recorde da frigideira, uma espécie de solitária. 70 dias. “Em algumas alturas pura e simplesmente deixávamos de comer”, conta. Começou por ser preso aos 15 pelo tribunal militar. Depois saiu um ano em liberdade e foi eleito para a direcção da juventude comunista com Álvaro Cunhal e outros. Foi isso que o levou ao Tarrafal. “Quando voltei a ser preso lá consideraram que o meu caso era irrecuperável. Mandaram-me para o Tarrafal sem julgamento”. Não se arrepende de nada. “Perdi os meus anos de juventude, mas tive consciência de ter cumprido o meu dever. E consequentemente suportei o resto do tempo com esse sentimento. De tal maneira que nunca parei de conspirar e estive preso mais vezes. Fui dos que combati lá dentro. Não fui morto por uma sorte extraordinária”. No Tarrafal estiveram presos 357 deportados na primeira fase e 227 na segunda. Ao contrário de Edmundo Pedro trinta e dois portugueses não resistiram ao campo da morte lenta e morreram na primeira fase. Na segunda fase do campo, quando a prisão passou a acolher apenas africanos, morreram dois angolanos e dois guineenses, lembra Alfredo Caldeira, comissário da exposição, administrador do arquivo e biblioteca da Fundação Mário Soares. “Entendemos que o velho campo de concentração do tarrafal, onde estiveram portugueses, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, espanhóis, polacos e alemães, deve ser preservado enquanto memória histórica e por outro lado servir o desenvolvimento daquela área”, ajudando a sair da pobreza os populares que habitam na zona. Para Alfredo Caldeira a memória deve ser a pátria comum dos dois países já que em condições diferentes os dois povos lutaram e sofreram uma história partilhada. O comissário da exposição lembra que este ano faz 75 anos que por seu punho António de Oliveira Salazar ordenou a construção do Tarrafal. “Se há algum sítio onde pode ser sentida esta exposição é em Vila Franca pela actividade anti-fascista que esta terra sempre teve e que foi o berço do neo-realismo”, sublinha Mário Soares. Para o ex-presidente da República é importante não apagar a memória. Todos os partidos políticos e as pessoas têm uma ideia do que foi o Tarrafal e todos, à sua medida, lutaram para acabar com essa ignomínia que era o campo da morte lenta, continua. “Estiveram lá anarquistas, comunistas e republicanos. Eu próprio não fui parar ao Tarrafal porque na altura era já só para os nacionalistas africanos. Fui parar, como se sabe, de uma maneira muito mais doce a S. Tomé”.A exposição “Memórias do Campo de Concentração do Tarrafal”, que pode ser vista até 29 de Agosto de 2010 no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, é uma parceria do Museu do Neo-Realismo com a Fundação Mário Soares e Fundação Amílcar Cabral. Marinheiro que passou 18 anos no Tarrafal viveu em AlvercaO jovem marinheiro Josué Martins Romão, 18 anos, foi um dos protagonistas da revolta do navio “Dão”, em 1936, condenado ao desterro na prisão do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. Lá permaneceu durante 18 anos. Regressou a Portugal aos 36 anos e foi viver para Alverca. “Era um jovem que tinha entrado para a Marinha como voluntário. Já estava a prestar serviço. Foi apanhado naquela onda. Não tinha nenhuma ideia política. Aguentou-se por que era um jovem. Tinha uma compleição física robusta”.Quem conta a história é o sobrinho, José António Carmo, presidente da Fundação Cebi, em Alverca, que percorre a exposição “Memórias do Campo de Concentração do Tarrafal”, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no sábado, dia da inauguração. A fotografia do tio está entre o espólio da exposição (que pode ser vista até 29 de Agosto).“Toda a vida foi um militante comunista firme”, garante o sobrinho. A passagem pela prisão também serviu como escola. “Ensinavam-se uns aos outros. Entre aqueles primeiros deportados havia gente licenciada e com cursos superiores. O meu tio aprendeu francês, inglês e matemática. Teve uma formação não académica dentro da própria prisão”.Quando regressou à Metrópole teve muita dificuldade em arranjar emprego por causa do estigma de ter sido preso político. Acabou por encontrar emprego como operário na Covina, onde trabalhou até se reformar. Pouco tempo antes da reforma abriu um pequeno comércio em Alverca. Josué Martins Romão era natural de Vila Nova da Barquinha. “Felizmente teve uma vida longa. Foi reintegrado na Marinha para efeitos de reforma como sargento-mor. Teve a sorte de ver o 25 de Abril”, conclui. O contra-torpedeiro “Dão” foi um dos navios protagonistas da “triste aventura de alguns marinheiros insubordinados”, escreve o Diário de Lisboa, na edição de 9 de Setembro.Henrique Tenreiro, delegado do governo no Grémio do bacalhau e ajudante-de-ordens do ministro, distinguiu-se, tal como Américo Tomás (que na altura exercia funções de chefe de gabinete do ministro da Marinha), na repressão da Revolta dos Marinheiros (8 e 9 de Setembro de 1936) e no envio dos primeiros deportados para o Tarrafal, lê-se o catálogo da exposição. Tenreiro, de pistola em punho, tentará abordar os navios revoltados, sendo posteriormente, em estreita colaboração com a PIDE, o principal executor da perseguição movida contra os marinheiros sublevados. Tomás por seu turno assinará as instruções do ministério da Marinha para o comandante do vapor “Loanda”, da Companhia Colonial de Navegação, armado em transporte de guerra, que transportará os primeiros presos para o Tarrafal.Entretanto Salazar emite uma nota oficiosa contra a revolta dos marinheiros e, no mesmo dia, manda publicar o decreto “contra o comunismo e as ideias subversivas”, cortando também relações diplomáticas com a Espanha Republicana.Como o Tarrafal chegou a Vila Franca de Xira“Estiveram no Tarrafal mais de 350 presos que cumpriram no conjunto dois mil anos, cinco meses e doze dias de cativeiro. Pretendemos que não se apague a memória e da memória tempos em que a liberdade e democracia estavam vedados e em que mulheres e homens precisaram de sair à rua e, tal era o seu espírito de elevação, não pegaram em armas como os seus opressores, mas em cravos para o 25 de Abril que chegava”. As palavras são da presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha, que no dia de inauguração da exposição quis lembrar como a história do Tarrafal chegou a Vila Franca de Xira, cidade geminada com o município de Santa Catarina, na ilha de Santiago, Cabo Verde. Ao longo de 12 anos de mandato Maria da Luz Rosinha deslocou-se por seis vezes a Santa Catarina. “Sempre que o fiz fui ao Tarrafal. A primeira vez por curiosidade. Nas seguintes por um apelo que não sei explicar, mas que se prendia com o abandono a que o espaço estava votado. Sempre que voltava e falava com os membros do Governo que entendia terem a possibilidade de dar uma ajuda para que não se apague a memória”. Quando em Abril de 2009 se realizou o primeiro simpósio internacional sobre o campo de concentração do Tarrafal graças à fundação Mário Soares a autarca revela que ficou esmagada. “Porque a história estava ali. Contada muitas vezes na primeira pessoa”.A exposição viajou do Tarrafal à cidade irmã de Vila Franca de Xira e o que está patente até 29 de Agosto no Museu do Neo-Realismo é um bilhete postal dos tempos de cárcere ainda mais rico.
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