Especial 25 de Abril | 20-04-2011 14:13

As estórias à volta de uma canção que ajudou a mudar a História

As estórias à volta de uma canção que ajudou a mudar a História

Depois de ouvir na rádio “E Depois do Adeus”, Salgueiro Maia começou a preparar a sua coluna para avançar rumo a Lisboa, apesar do receio de ficar sozinho na rua com os seus homens. Correia Bernardo tranquilizou-o: “Saindo a Cavalaria, o resto vai tudo atrás”. E foi.

Se Otelo Saraiva de Carvalho está arrependido por ter feito o 25 de Abril, devido ao estado a que o país chegou, não o demonstrou na noite de sábado quando contou com entusiasmo alguns episódios ligados à Revolução dos Cravos e salientou a importância que as canções “E Depois do Adeus” e “Grândola Vila Morena”, que serviram como senhas via rádio, tiveram no sucesso da operação militar. A noite era dedicada à canção “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, com letra do médico, compositor, escritor e político de Santarém José Niza e música de José Calvário. Mas a conversa depressa se ramificou por outros caminhos. Ou não estivessem na mesa, moderada pelo jornalista Joaquim Furtado, dois militares de Abril: Otelo, um dos estrategas, e Correia Bernardo, que ficou a comandar a Escola Prática de Cavalaria (EPC) após a saída da coluna de Salgueiro Maia rumo a Lisboa.E foi Correia Bernardo quem deu conta dos temores de Salgueiro Maia nessa madrugada. Poucas semanas antes, a 16 de Março, o golpe das Caldas tinha fracassado por deficiente organização e falta de comunicação entre as várias unidades dispostas a sublevarem-se. Os militares das Caldas acabaram por sair sozinhos a uma sexta-feira à noite e foram facilmente neutralizados. Quando ouviu na rádio “E Depois do Adeus”, e antes de arrancar, o jovem capitão Maia confessou o receio de ficar “sozinho na rua” e perguntou se estava tudo a correr bem. Correia Bernardo tranquilizou-o: “Saindo a Cavalaria, o resto vai tudo atrás”.Otelo havia dito dias antes a Salgueiro Maia que a coluna de Santarém tinha como missão servir de “isco” no centro de Lisboa, atrair as atenções das tropas leais ao regime, enquanto outras unidades tomavam pontos estratégicos como o aeroporto, a RTP e a Região Militar de Lisboa. “Disse ao Maia que a missão era vir por aí fora com o maior alarido possível até ao Terreiro do Paço e montar aí o circo todo”. As coisas correram tão bem que os militares da EPC acabaram por ser os grandes protagonistas do golpe e as suas imagens correram mundo.A importância das duas canções que serviram de senha foi fundamental, reconheceu Otelo, referindo que o 25 de Abril também podia ficar conhecido como a revolução das canções e reconhecendo que a canção foi mesmo uma arma. Foi com “E Depois do Adeus”, anunciada por João Paulo Diniz às 22h55 de 24 de Abril de 1974 aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa, que todas as unidades ficaram em sintonia e com a certeza que o golpe estava em marcha e não iam avançar sozinhas. Porque o fantasma do golpe das Caldas ainda pairava.Uma canção escolhida por acasoDesse fracasso de 16 de Março de 1974 nasceu a necessidade de se encontrar uma senha via rádio que chegasse a todo o país ou pelo menos às principais unidades militares em torno de Lisboa. João Paulo Dinis, então um jovem radialista dos Emissores Associados de Lisboa que Otelo conhecia de uma comissão na Guiné, ficou incumbido de passar a primeira canção senha. Otelo queria que fosse de Zeca Afonso. Dinis demoveu-o referindo que as canções do Zeca estavam “proibidíssimas pela censura” e sugeriu, a pedido dos militares, que a canção a marcar o arranque das operações fosse “E Depois do Adeus”, que havia representado poucos dias antes Portugal no Festival da Eurovisão e que “toda a gente conhecia”. E foi assim que entrou na história.José Niza e Paulo de Carvalho, também presentes no colóquio promovido pela Câmara de Santarém, admitem que só dias mais tarde notaram a importância que a canção teve. “Só me apercebi que tinha sido a senha uns dias depois. Porque a canção emblemática era a ‘Grândola’, que foi uma excelente escolha em termos de simbolismo. ‘E Depois do Adeus’ era uma canção romântica que nada tinha de revolucionário”, diz Niza.Mas para muitos dos homens que fizeram a revolução, essa foi a canção marcante porque foi o sinal primordial. “Para nós a canção do 25 de Abril foi ‘E Depois do Adeus’. Duvido que depois Salgueiro Maia tenha ouvido o ‘Grândola’. Porque havia muita coisa para fazer e era impossível estar agarrado ao rádio”, afirmou o coronel Correia Bernardo, confessando que se emociona sempre que ouve essa música.Letra com início igual a poema dedicado a Ho Chi MinSó há pouco tempo José Niza se apercebeu que a letra de “E Depois do Adeus” contém excertos de um poema dedicado a Ho Chi Min, escrito em Setembro de 1969, e de cartas que escreveu à esposa quando estava na guerra colonial em Angola. O início do poema – “Quis saber quem sou/o que faço aqui”, abria também o poema dedicado ao recém-falecido líder do Partido Comunista do Vietname, país então empenhado numa guerra sangrenta com os Estados Unidos da América.Da consulta das cartas escritas à mulher – “mais de sete mil folhas” – descobriu expressões que estavam também na letra da canção. “Constatei ao fim destes anos todos que parte da letra já estava nessas cartas”, afirma.

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