uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
As histórias de um antigo contrabandista que se apaixonou pela pintura

As histórias de um antigo contrabandista que se apaixonou pela pintura

Carlos Gonçalves começou a fazer retratos aos 65 anos, para ensinar a arte às suas netas. Seis anos mais tarde, apresenta uma colectânea de trabalhos marcados por traços rigorosos que levam o espectador a pensar que são fotografias. Antes da pintura trabalhou em desenho industrial e de construção civil, fez contrabando e vendas porta a porta, entre outras coisas. Não gostava de ter a mesma ocupação muito tempo e teve de começar algumas vezes do zero, mas nunca se importou com isso.

Optou por assinar as suas obras apenas com o apelido. O rigor dos traços e a escala das pinturas a óleo de Carlos Gonçalves, tomarense de gema, denuncia que estamos na presença de um entendido em desenho geométrico. E o currículo não engana uma vez que, antes de ingressar na hotelaria, foi desenhador na Força Aérea, desenhador de construção civil em gabinetes de arquitectura e desenhador projectista na Câmara do Seixal. O regresso a Tomar dá-se a convite do arquitecto Mota Lima, seu conterrâneo com quem travou conhecimento em Lisboa. Tudo isto no tempo em que mandava o estirador, a caneta, o esquadro e o papel. “Afastei-me do desenho quando apareceram os computadores”, confessa a poucos metros da estátua de D. Gualdim Pais, na Praça da República em Tomar.O pai de Carlos Gonçalves, 71 anos, tinha uma barbearia/perfumaria na Rua Serpa Pinto, mais conhecida por Corredoura. Foi ali criado até aos 17 anos, altura em que ingressou como voluntário na Força Aérea, na base de Sintra. É o terceiro de quatro irmãos. O jeito para o desenho foi descoberto nos bancos da escola e fruto de herança familiar. “O meu pai tinha um anexo ao lado da perfumaria onde vendia os quadros a óleo que gostava de alterar em casa e nós andávamos por ali”, recorda. Um dos sonhos passava por trabalhar como desenhador dos Correios mas nunca conseguiu entrar. Concorreu para a Força Aérea, entrou e ali ficou a trabalhar como desenhador de construção civil. Foi esta função que o levou até à Guiné, onde viveu durante 11 anos, até se dar o 25 de Abril. Antes já tinha desenhado os jazigos do Cemitério da Ajuda, por conta de um arquitecto. Na Câmara do Seixal, fez o anteplano de pormenor do Seixal e da Amora.De ambulância a contrabandear bacalhauQuando regressou da Guiné, em 1975, já não quis ficar em Lisboa e, cansado da vida de desenhador, comprou um restaurante em Portalegre. A escolha não foi aleatória. “Fui para o contrabando para ganhar dinheiro porque deixei tudo lá fora. Já tinha uma filha nascida e outra que vinha a caminho”, conta. Foi uma tia da mulher que lhe explicou o negócio. Fez contrabando de garrafas de whisky, café ou medicamentos e, como tinha a “vantagem” de ter um restaurante, conseguia que os fiscais “fechassem” os olhos. Não esquece que, com a ajuda de um “sócio” que trabalhava nos bombeiros fazia contrabando de bacalhau para todo distrito. “Enchíamos a ambulância de bacalhau, colocávamos a sirene a tocar e era assim que fazíamos o negócio”, recorda. Ao fim de sete anos, quando as fronteiras se abriram e o contrabando deixou de render, voltou a Tomar para abrir um supermercado. Mais tarde comprou uma quinta nos arredores da cidade e abriu uma loja de electrodomésticos na Praça da República. Percorreu o país, a vender quase de porta em porta. “Tive que começar do zero muitas vezes mas nunca me importei. Não gostava era de fazer a mesma coisa muito tempo”, atesta. Foi já depois de se ter aposentado, aos 65 anos, que o desenho voltou ao quotidiano de Carlos Gonçalves de uma forma quase natural. “Um dia arranjei um estirador, agarrei num retrato de uma das minhas filhas e chamei as minhas netas para desenharem comigo. Vi que não tinha ficado mal e comecei a desenhar caras de artistas, sempre a carvão, que via em revistas”, recorda. Um destes trabalhos, o da actriz e apresentadora Catarina Furtado, foi parar à montra de uma loja de fotografia. Carlos Gonçalves conta com uma ponta de orgulho que, numa ocasião em que veio a Tomar, a apresentadora viu o retrato na montra e gostou tanto que pediu para ficar com ele. Mais tarde arriscou a pintura a óleo e, a par da horticultura e da actividade de radioamador que o prende horas à telefonia, é assim que ocupa as horas vagas. Carlos Gonçalves assume que é um perfeccionista o que o leva a deitar para o lixo muitas folhas amarrotadas. “Se os olhos não ficarem bem já não vale a pena continuar porque a expressão não é a mesma”, refere, acrescentando que gosta muito do desafio de fazer caras. Diz que já desenhou mais de cinquenta janelas “do Capítulo”, sempre em grandes dimensões, a partir de fotografias - outra das suas paixões - que tirou no Convento de Cristo. “Estou horas a medir e a desenhar consoante a escala. Depois começo na ponta esquerda e acabo na outra. Assim que ponho lá a assinatura já não mexo mais”, refere o artista que nunca se libertou da geometria.“Não tenho perfil para artista de rua”Nascido em Tomar em 1940, Carlos Alberto Constantino Gonçalves frequentou o curso industrial na Escola Jácome Ratton. Na área artística, tirou ainda o curso de desenhador, gravador e litógrafo na Escola António Arroio de Lisboa a pensar no ingresso nos Correios. “Desenhar selos ou outros elementos gráficos era a minha meta porque sei que se ganhava bem, mas nunca calhou”, disse.Confessando não ter espírito de artista de rua, recorda a fase da sua vida em que andou pelas esplanadas dos cafés do Rossio, em Lisboa, a fazer retratos a quem ali fazia uma espera ao tempo. “Enquanto as pessoas bebiam o café, desenhava-as. Mas tinha muita vergonha. Era um colega meu que me incitava a fazer isto. Depois mostrava os desenhos aos retratados que, em troca, nos davam 10 ou 20 escudos”, recorda, acrescentando que não gosta que o vejam a pintar. Tirou ainda o Curso de Aperfeiçoamento de Pintura a Óleo, Carvão e Desenho Técnico sob orientação do arquitecto tomarense Mota Lima. Em termos profissionais, desempenhou funções de desenhador da Força Aérea Portuguesa. Desde 1993 que expõe o seu trabalho, realizando mostras em Tomar, Faro, Lagos, Alenquer, entre outros pontos do país. Actualmente está patente a exposição “Coisas da Minha Terra”, representando monumentos da cidade desenhados a carvão ou pintados a óleo, feitos a partir de fotografias ou postais antigos. Uma mostra que está patente na Livraria “Ao Pé das Letras” na Praça da República, em Tomar, e que pode ser visitada até 28 de Novembro.
As histórias de um antigo contrabandista que se apaixonou pela pintura

Mais Notícias

    A carregar...