Espíntria Serafim das Neves
Sei que o meu nome nunca será dado a nenhuma rua de Alpiarça. Porque não sou militante comunista nem nunca fui grande ciclista dos Águias. Nem grande nem pequeno que eu nem sequer sei andar de bicicleta. Mesmo que mude a cor política da câmara e com ela mudem os requisitos para ter o nome numa rua, não tenho sorte nenhuma. Manuel Serra d’Aire não é nome que alguém queira gravar numa placa de mármore ou pintar em azulejo e ainda por cima nem sequer nasci em Alpiarça, o que, não sendo grave, também não é grande cartão de visita para quem se queira fazer à tabuleta.Como escreveste no teu último e-mail, o Marechal Spínola tinha o seu nome numa rua de Alpiarça mas já não tem. Dizes tu que o nome do homem do monóculo foi alvo de uma purga estalinista. Daquelas que faziam desaparecer certos fotografados de certas fotografias. Aceito com reservas. Que foi purgado da parede é verdade. Mas cá para mim não foi por motivos estritamente políticos. É verdade que não era comunista mas poderia ter-se aguentado na placa da parede se tivesse andado mais vezes de bicicleta enquanto vivo. Acho que foi por aí que ele se tramou. Alguma vez o viste andar de bicicleta com uma camisola do Águias de Alpiarça? Eu não. Nem com camisola nem em tronco nu. Lembro-me de o ver a sair de um helicóptero na guerra da Guiné, deixando uma data de autóctones de boca aberta e lembro-me dele a viajar de Chaimite entre o Quartel do Carmo e a Pontinha, no dia 25 de Abril de 1974 quando foi aceitar a rendição do Marcelo Caetano mas nada mais. Nem bicicleta nem trotineta. Acho que o seu nome tinha sido escolhido para uma rua de Alpiarça por usar monóculo enquanto foi vivo e por não ir muito à bola com marxistas-leninistas. Mas isso foi no tempo de um presidente de câmara que era do PS e que devia gostar de monóculos. “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades”, escreveu Camões que não usava monóculo mas sim uma venda sobre um olho furado e que, apesar de nunca ter andado de bicicleta nem ter sido militante do Partido Comunista Português, tem nome numa rua de Alpiarça. Vamos lá ver se ninguém se lembra de o apear dali depois de ler estes meus disparates. Não faças essa cara que costumas fazer nem abanes a cabeça a dizer que não. Tu bem sabes que há malucos para tudo. E no meio de tanto verso que o homem escreveu, de certeza que não será difícil encontrar material reaccionário. Não acreditas?!!! Então diz-me lá o que ele queria dizer com aquela coisa do “Buscando o Indo Idaspe e terra ardente”, por exemplo. E quando no Canto I, a certa altura, fala de um tal Pacheco, não estará a referir-se ao Pacheco Pereira?Em Samora Correia também estão a ocorrer purgas nas piscinas. E não são estalinistas. São mesmo purgas de purgantes. Daquelas que deixam estafilococos na água e tudo. Há quem aponte o dedo aos seniores que vão para lá ter aulinhas de hidroginástica. Eu não aponto o dedo porque sempre me disseram que apontar é feio e além disso posso meter o dedo em locais pouco recomendáveis. Mas chamo-te a atenção deste facto para que não tenhas a tentação de te purgares da tua veia anti-comunista no teu próximo e-mail.Como moro longe de Benavente não oiço o sino da câmara a bater os quartos de hora e agora é que reparo que já são duas da matina. Olha que sorte que têm os cidadãos daquela santa terra. Alguns até podem não conseguir pregar olho com tanta badalada mas pelo menos não perdem a noção das horas.Saudações toponímicasManuel Serra dÁire
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