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Uma mulher que gosta de liderar

Lurdes Asseiro, ex-presidente do Politécnico de Santarém, volta aos desafios, agora como presidente do Centro Cultural Regional

Lurdes Asseiro começou por ser enfermeira e acabou por fazer carreira no ensino. Em Santarém trabalhou na Escola Superior de Enfermagem, hoje Escola Superior de Saúde, onde foi directora. Chegou a presidente do Instituto Politécnico de Santarém. Tinha um projecto para oito anos, mas acabou por ficar só quatro ao perder as últimas eleições. Um dos objectivos era estreitar laços com o Politécnico de Tomar. A professora, actualmente aposentada e que preside ao Centro Cultural Regional de Santarém, considera fundamental haver cooperação entre as duas instituições. Assume que é uma mulher que gosta de liderar, acha que as praxes são úteis se feitas com moderação e admite que há cursos a mais no ensino superior.

Gerir um politécnico onde as escolas têm autonomia e gestão própria torna os presidentes da instituição mais uns mediadores de conflitos.No meu passado recente, na passagem pelo Politécnico de Santarém, coloquei uma pedra. Falo enquanto cidadã. Uma das formas de funcionamento dos institutos podia ser essa, a da presidência do politécnico ser quase figurativa. Sentiu-se nesse papel? Não, porque nunca aceitei e sempre o contrariei, mesmo quando a legislação não me dava as condições para agir assim. Isso não deve ter sido bem encarado por quem tinha poder dentro das escolas.Não foi nada bem encarado. Foi aceite por uns, compreendido por outros e nem compreendido nem aceite por alguns. Estive quatro anos e o projecto que iniciei para o que entendia que devia ser o politécnico não foi concluído, precisava de mais um mandato.Houve escolas que demoraram mais tempo a adequar os estatutos ao novo regime jurídico do ensino superior. Deve ter tido alguns atritos com directores de escolas. Tive algumas dificuldades que fui superando, procurando falar com as pessoas. Uns entenderam e avançaram, outros foram resistindo. No meu mandato não consegui que duas escolas, a de Desporto e a de Gestão, concluíssem a revisão dos estatutos. A Escola Superior de Gestão foi durante a sua gestão a mais conflituosa. O director que agora está na escola é uma pessoa excepcional e sensata. As organizações são feitas de pessoas e cada uma tem a sua forma de estar e de agir. Desde a criação do instituto todas as escolas tiveram autonomia completa, cada uma foi crescendo sem haver uma coordenação que travasse algumas coisas. Teve mais dificuldade a lidar com professores do que com alunos.A gestão de pessoal é complexa e desafiadora. Quando há mudança é sempre um processo mais complexo. Depois, quando há personalidades fortes é também mais complexo. Nunca gostei também de uma gestão ditatorial. Mas as dificuldades foram-se superando.Em 2008 disse que a dispersão das escolas do IPS era pouco positiva e criava problemas de gestão. Há alguma solução para isso?O instituto tem cinco escolas e três campus e isso cria dificuldades não só de gestão como também financeiras. A escola mais distante é a de Desporto, em Rio Maior. Se fosse hoje teria integrado a escola no politécnico? Sem dúvida. Não sou apologista de grandes dispersões, mas estando as outras escolas em Santarém e existindo as condições em Rio Maior e havendo vontades tinha com certeza apoiado. A escola teve um bom crescimento ao nível do corpo docente e da sua qualificação e também ao nível do número de alunos. A Escola Agrária tem vindo a perder alunos. Um dia destes acaba?A escola tem sofrido o problema da crise no sector agrícola. No país é a que tem nesta área as melhores infra-estruturas. Se alguém vaticina o seu fim, isso é um crime. O Estado e as empresas podiam colaborar mais se entregassem projectos de investigação agrícola à escola?A altura em que fui presidente do Politécnico coincidiu com o período em que o Ministério da Agricultura foi sendo desmantelado. Alguns serviços e equipamentos deixaram de existir, como a coudelaria nacional na Fonte Boa (Vale de Santarém). Há um curso que deixou de existir porque a escola deixou de ter condições por não ter cavalos. Há-de chegar o momento da escola e para isso terá que deixar de olhar tanto para o seu umbigo e ir mais para o terreno. Julgo que a escola o está a fazer.Cada vez que se fala na fusão dos dois politécnicos, Tomar e Santarém, há polémica. É a lógica de capelinhas a funcionar?Talvez. Não sou a favor da fusão. Se na altura em que o Politécnico de Tomar foi criado eu tivesse que dar uma palavra na decisão este não seria criado dada a proximidade ao Politécnico de Santarém, que já existia. Agora defendo que haja cooperação, partilha.Quando dirigia o IPS tentou alguma aproximação ao IPT?Tentei. Mas não foi o momento oportuno. Seria agora. Só lá estive quatro anos. Primeiro havia que arrumar a casa. É desejável uma complementaridade e vai acontecer.Praxes sim, mas com moderaçãoNo seu mandato pediu contenção nas praxes académicas, depois do caso de uma aluna besuntada com estrume e que acabou em tribunal. Em que é que as praxes contribuem para a integração dos novos alunos?Não sou contra as praxes. Também fui praxada quando era aluna. Desde que haja bom senso e moderação não vejo problemas. Sabemos que neste momento os jovens têm alguns excessos. E alguns dos que entram no ensino superior é a primeira vez que saem de casa e têm dificuldade em aceitar determinado tipo de processos. E aí gera-se a conflitualidade. Sempre tive boas relações com os alunos. Chegámos a fazer regulamentos para as praxes, só que depois uns cumpriam e outros não. Se houver mediação e bom senso e os alunos tiverem líderes que são bem aceites a praxe pode ser uma boa forma de integração. Gostou de ser praxada?Gostei, mas nunca tive praxes violentas. Nunca praxei, não tinha grande arte para isso. Tem a ver com a minha maneira de ser.Era uma aluna sossegada?Era sossegada, metódica. Sempre fui cumpridora. Qual é o curso em que não se inscrevia actualmente?Neste momento não podemos candidatar-nos a um curso só pelo que nos parece mais agradável. Os jovens e as famílias têm que ter preocupação com as saídas profissionais. Este é um requisito que deve ser uma das preocupações das escolas. Provavelmente não ia para informática porque não me dou bem com essas tecnologias, mas considero que é uma ferramenta essencial. Voltava a ir para professora?A minha formação inicial é em Enfermagem. Mas sempre pensei ser professora, adoro ensinar, e fiz toda a minha carreira no ensino. Chegou a exercer enfermagem?Estive meio ano a trabalhar após o curso. Sabe como fazia a prática? Nos primeiros sete anos, nas férias dos alunos, ia trabalhar para o hospital como voluntária. Sentia que tinha o défice da prática. Comecei a trabalhar como professora em 67 e em 68 comecei a dar aulas em Coimbra. Depois, com uma colega, abri uma escola em Faro e em 1974 vim para Santarém quando decidi casar. Há cursos a mais?Sim. Tem havido uma dispersão e uma diversificação de cursos exagerada. Desde que a agência de acreditação e avaliação começou a funcionar julgo que já foram extintos mais de mil cursos e vão ter que acabar com mais. Até porque as instituições têm que se ir adaptando às condições da sociedade e às necessidades do tecido empresarial. Se fosse hoje teria mais dificuldade em tirar um curso?Actualmente os jovens têm acesso a muito mais coisas, à cultura, aos meios, que não havia no meu tempo. Há um pouco a percepção que o ensino é menos exigente hoje, mas não concordo. Neste momento quem seja proactivo, quem queira, tem acesso à educação de qualidade. Mas há um défice de qualidade ao nível dos alunos…O problema é que nos últimos anos têm havido muitas alterações no ensino e por vezes altera-se uma decisão tomada há um ou dois anos sem ela estar avaliada, sem estar sedimentada. Isso é que tem conduzido a algum défice de qualidade. Às vezes diz-se que os alunos chegam ao ensino superior sem saberem escrever, sem saberem estar. É verdade e antigamente isso também existia. Mas chegam com novas potencialidades. Se forem encontradas estratégias para se ultrapassarem os problemas consegue-se, porque os jovens são capazes de coisas fantásticas.Uma transmontana no RibatejoMaria de Lurdes Asseiro nasceu numa aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, em 17 de Fevereiro de 1948. É licenciada em Enfermagem mas quase não praticou a profissão. Sempre quis ser professora e o destino cumpriu-se desde cedo. Fez carreira no ensino e na gestão escolar. Começou a trabalhar em 1968 na Escola de Enfermagem de Coimbra. Seguiu para Faro, onde deu aulas e foi directora da Escola de Enfermagem. Em 1974 muda-se para Santarém, por razões do coração. O marido é de Riachos e foi uma forma de estar mais perto das origens. Foi professora e directora da Escola de Enfermagem escalabitana durante alguns anos. Em 2006 candidata-se e é eleita presidente do Instituto Politécnico, cargo que desempenhou até 2010. Ainda se recandidatou, mas acabou por não ser reeleita.A par de uma carreira profissional exigente, Maria de Lurdes Asseiro criou três filhas com diferença de idades de quatro anos e actualmente dá uma mãozinha a zelar pelos quatro netos. “Conseguimos levar o projecto familiar por diante. Foi uma época cansativa, mas sempre consegui conciliar o desenvolvimento profissional com a família”. Hoje tem como novo desafio levar a bom porto a gestão do Centro Cultural Regional de Santarém. “Gosto de fazer que é para poder exigir”Foi presidente da Escola Superior de Enfermagem e do Politécnico de Santarém e agora é presidente do Centro Cultural Regional de Santarém. É uma mulher que gosta de liderar?Gosto muito de desafios. De preferência sendo a senhora a mandar.(risos) Acho que não. Não digo que foi fruto do acaso, mas desde muito nova que eu estive em lugares desses. Talvez porque fosse pró-activa.Há uma disponibilidade natural da sua parte para se chegar à frente, digamos assim?Exactamente. A minha pró-actividade e disponibilidade julgo que fizeram com que desde jovem integrasse os órgãos de gestão das escolas por onde passei.Prefere mais fazer do que ficar na sombra a dizer mal dos que fazem.Gosto de fazer que é para poder exigir. Quando digo que faço tenho de saber fazer. Gosto realmente de liderar.E é uma líder mão de ferro ou mais colegial, que partilha as decisões?A ideia que tenho de mim é a de que faço uma liderança aberta e participativa. Dou espaço a que os outros participem, que dêem as suas ideias e que as exponham, o que não significa que abdique sempre das minhas ideias. Ou o inverso. Muitas vezes é preciso ouvir, reflectir sobre aquilo que nos chega.Tem facilidade em ceder?Sempre, durante toda a minha vida. Gosto de desenvolver uma gestão participativa e dar espaço para os outros se sentirem co-responsáveis no processo. Habitualmente o tipo de cargos que ocupou é desempenhado por homens. Dá-lhe prazer contrariar essa realidade?Nunca pensei que fosse prazer. Mas gosto. Há décadas atrás isso acontecia mais, de serem os homens a ocuparem os principais cargos de decisão, mas não me inibia. Tinha o meu espaço. Nunca me impus. Fui a primeira mulher presidente do Instituto Politécnico de Santarém. Fui durante muitos anos directora e presidente da Escola de Enfermagem de Santarém (hoje de Saúde), por nomeação e por eleição. Antes de vir para Santarém, estive em Faro onde integrei a comissão instaladora e estive ainda um ano à frente da Escola de Enfermagem, com vinte e tal anos. Podia ter dito que não.Não gosto de virar as costas aos desafios. Quando me candidatei ao Politécnico de Santarém foi a mesma coisa. Deixou a carreira académica porquê? Tinha o tempo de serviço completo e surgiu a oportunidade de me reformar. Tinha 42 anos de serviço.A derrota para a presidência do IPS pesou na decisão?Candidatei-me e se ganhasse as eleições sentia-me com força e capacidade de levar por diante o mandato. Ao perder as eleições o projecto deixou de ter sentido e aproveitei a oportunidade para me reformar sem penalização.Que leitura é que fez dessa derrota para a presidência do IPS?Quem se candidata só tem duas hipóteses: ou ganha ou perde. Eu perdi. Acontece. Quando apresentei a minha recandidatura já tinha ideia que isso fosse acontecer, mas não virei costas. Tinha um projecto de levar por diante um processo que estava iniciado. Gostava de o ver completado, não para meu bem mas fundamentalmente do IPS. Não foi possível, as pessoas que exerciam o direito de voto assim o entenderam.O facto de ter havido três candidaturas pode ter sido prejudicial para as suas ambições.Pois, mas não quero falar muito sobre isso. Houve três candidaturas, houve outras coisas...Curiosamente, o número dois da sua lista foi eleito algum tempo depois por unanimidade presidente da Escola Superior de Gestão, o que sugere que não foi pela composição da sua lista que veio a derrota.Não. O conselho geral que elege o presidente do IPS tem só 21 elementos...Podia ter continuado na vida académica, a marcar o seu território, a minar o ambiente...Deixei espaço e não intervenho. Tudo tem o seu tempo. Se as pessoas estivessem interessadas no meu contributo tinham votado em mim. Como é que lida com tanto tempo livre após uma vida de trabalho?Não tenho tempo livre. Acabei a minha carreira profissional e decidi fazer coisas que nunca tinha feito por falta de tempo. Depois, tenho uma família que adoro, que sempre foi a minha sustentação e eu a deles. O desafio do Centro Cultural RegionalQue papel é que o Centro Cultural Regional de Santarém desempenha nesta nova fase da sua vida?Fui contactada para integrar a direcção ainda estava no IPS, após as eleições. Saí em Março de 2010 e tomei posse no Centro Cultural em Dezembro. Ao longo desse período fui ponderando se devia aceitar esse desafio.Que relação tinha com o Centro Cultural?Muito pouca. Nunca tive muito tempo, vinha de vez em quando a uma ou outra actividade. Quando me reformei ainda me sentia com força e necessidade de estar ocupada. De ter outro tipo de afazeres e pôr a minha experiência ao serviço da comunidade. Estava consciente das múltiplas dificuldades que ia ter. Isso não me inibe, antes me motiva.O Centro Cultural tem vivido nos últimos anos problemas financeiros, em parte devido à falta de apoio de entidades como a Câmara de Santarém. Esse cenário permanece actual?Permanece. Herdámos um passivo com algum peso. Quando tomámos posse definimos três aspectos a enfrentar. Um é desenvolver uma actividade cultural de forma sistemática e continuada que vá de encontro à população, que atraia novos públicos. Senão fecha-se a porta, mas nunca gostei de fazer funerais... E como é que se arranja dinheiro para isso?Diversificando fontes de financiamento, apostando forte no mecenato cultural, e temos tido apoios a esse nível, mas realmente este período é terrível. Temos também como objectivo a requalificação do edifício sede, operacionalizar parcerias com outras entidades e trazer para aqui actividades diversificadas. Temos que ter uma instituição aberta. E ter muita gente a dialogar e colaborar connosco. Temos de ser o veículo que vai dar forma a ideias e projectos que outros tenham. Estamos receptivos a essas ideias.É possível manter esta casa aberta sem o apoio da câmara?É difícil. Sou contra a subsidio-dependência. Não se deve fazer coisas só quando se tem subsídios. Mas as associações, culturais ou outras, têm que ter uma base de sustentabilidade, de apoios. Em Dezembro quando chegámos tivemos que nos quotizar entre nós e pusemos os nossos familiares como cooperadores para com esse dinheiro pagar as contas, senão cortavam-nos a luz e a água. Quanto é que a Câmara de Santarém deve neste momento ao Centro Cultural Regional?Nos três últimos anos são 15 ou 16 mil euros, face ao protocolo que existia.

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