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O Presidente de junta que também é coveiro

O Presidente de junta que também é coveiro

Manuel Dias governa Rio de Couros, Ourém, há cerca de 14 anos

Foi emigrante na Venezuela entre 1977 e 1996, país onde nasceram os seus três filhos. É contra a extinção das freguesias e no exercício do cargo de presidente confronta-se com os pedidos mais bizarros. Um senhor foi à Junta queixar-se que os coelhos andavam a comer as couves da horta.

Edição de 11.04.2012 | Política
Sempre que há um funeral em Rio de Couros, Ourém, e é necessário abrir uma cova no cemitério local é Manuel Dias quem desempenha essa tarefa. Sentado ao comando da mini-giratória, máquina comprada há cerca de três anos, o presidente da Junta de Freguesia de Rio de Couros, concelho de Ourém, executa o trabalho com precisão. Aprendeu a manobrar a máquina praticamente sozinho depois das indicações de um conhecido. A falta de dinheiro impede a colocação de outro funcionário e Manuel Dias é, como se diz na gíria, “pau para toda a obra” na freguesia onde nasceu há 56 anos.O autarca é presidente de junta a meio tempo, um cargo que desempenha há cerca de 14 anos. Durante as manhãs trabalha como encarregado numa empresa de recolha de lixo. Depois de almoçar à pressa em casa, muda de roupa, e vai para a junta tratar dos assuntos relacionados com a freguesia. O seu trabalho diário é ver toda a correspondência que chega à junta e dar seguimento aos assuntos que vão surgindo.A relação com os fregueses é pacífica. “Tirando um ou outro que gosta de perturbar, dou-me bem com todos”, diz. O facto de presidir a uma freguesia com apenas 1800 habitantes leva a que alguns deles recorram ao presidente em todas as situações, mesmo nas mais caricatas. Como aquela em que um emigrante regressado à aldeia, foi queixar-se dos coelhos que lhe andavam a destruir a horta. “O senhor devia achar que eu ia fazer de sentinela para impedir os animais de lhe irem às couves “, recorda bem-disposto.A um ano de terminar o último mandato à frente da Junta de Freguesia de Rio de Couros, eleito pelo PSD, Manuel Dias faz um balanço “muito” positivo dos últimos 14 anos. No entanto, a sua maior mágoa foi não ter instalado o saneamento básico em toda a freguesia. Principalmente porque se tratou de uma das suas promessas eleitorais. “Em todas as campanhas eleitorais, a câmara dizia-me que podia colocar nas promessas eleitorais a instalação do saneamento básico porque ele ia avançar. A verdade é que nunca avançou e sei que fui penalizado no último acto eleitoral por causa disso. Eu compreendo a insatisfação da população mas esta é uma decisão que não depende de mim”, explica.Outra das mágoas do autarca é o facto de se arriscar a ser o último presidente da Junta de Rio de Couros, uma vez que a mesma está na lista das freguesias que o Governo quer extinguir. Manuel Dias é contra a extinção e agregação de freguesias e tem manifestado claramente a sua opinião. Como homem de fé, que diz ser continua a acreditar que a freguesia sobreviverá. “Se existem freguesias com cerca de 300 habitantes que acreditam que não vão ser extintas por que é que eu também não posso acreditar?”, interroga-se.Orgulho pela obra feitaManuel Dias nasceu em Marta, pequeno lugar a cerca de cinco quilómetros de Rio de Couros. Estudou até ao 12º ano e a vontade era prosseguir os estudos universitários mas, em 1974, reinava a instabilidade financeira e os pais, que tinham sido emigrantes em França, não tinham possibilidades económicas de proporcionar esses estudos aos três filhos.O autarca acabou por emigrar para a Venezuela onde viveu entre 1977 e 1996. Os seus três filhos nasceram por lá. Foi trabalhar com um contrato de técnico de ferro sem nunca ter manuseado nesse metal. Quando lá chegou teve que aprender e adaptar-se. Não se arrepende de ter regressado a Portugal uma vez que essa era a ideia inicial. Nunca lhe passou pela cabeça candidatar-se a qualquer cargo político mas quando regressou foi convidado diversas vezes para o fazer. Foi recusando até que o convenceram. A primeira vez que venceu foi como candidato independente eleito pelo Partido Socialista. Actualmente é militante do PSD. Durante os 14 anos à frente da junta de freguesia orgulha-se de ter reabilitado o cemitério local que “metia dó lá entrar”. Mandou construir uma casa mortuária num espaço contíguo ao cemitério. Foi também durante a sua presidência que foi construído o actual edifício da junta e ATL (Atelier de Tempos Livres) para as crianças da aldeia.Confessa que vai sentir saudades quando deixar o cargo de presidente de junta uma vez que está habituado à rotina de se deslocar à sede todas as tardes. Às quartas-feiras joga futebol com os amigos em Vilar dos Prazeres. A maioria é malta mais nova mas Manuel Dias garante que ainda os consegue acompanhar. “É uma maneira de me manter em forma”, conclui.
O Presidente de junta que também é coveiro

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