
Sem abrigo desapareceu de Samora depois de levantar cheque do Rendimento Social de Inserção
Alguns habitantes chegaram a criticar o presidente da Junta por este ter resistido a passar atestado de residência
Depois de conseguir o Rendimento Social de Inserção (RSI), o sem abrigo desapareceu, provavelmente porque não estava interessado em cumprir as exigências necessárias para continuar a receber apoio.
O sem abrigo que apareceu em Samora Correia em Outubro do ano passado e que gerou um movimento de solidariedade que fez com que algumas pessoas chegassem a criticar a presidente da Junta de Freguesia por não lhe querer passar um atestado de residência, desapareceu sem deixar rasto. O atestado de residência acabou por ser passado, apesar de o homem viver na rua e foi fundamental para o mesmo começar a receber o rendimento social de inserção no valor de 240 euros mensais. Levantado o segundo cheque nunca mais ninguém o viu. Os moradores que inicialmente ajudaram Augusto Silva de 46 anos, tinham deixado de o fazer em Fevereiro quando perceberam que ele não queria sair da rua. No piso térreo de um prédio embargado, logo à entrada de Samora Correia, ainda permanece a tenda onde o homem dormiu nos últimos seis meses. Está agora aberta e coberta de pó. No centro da cidade, diz-se que alguém o terá visto no último fim-de-semana perto do Coliseu dos Recreios, em Lisboa. “Em Fevereiro ele recebeu cerca de 580 euros. Nós arranjámos-lhe um quarto aqui em Samora por 110 euros com água e gás incluídos. Até nos oferecemos para dar os alimentos para ele poder cozinhar, mas não aceitou”, conta magoada Maria Santos. O sem-abrigo terá respondido, nas palavras da moradora, que queria uma casa só para ele e que assim não aceitava. A partir dessa altura, alguns casais que estão ligados ao Centro Cristão Vida Abundante de Benavente cortaram automaticamente com todas as ajudas que não eram poucas. Maria Santos e mais dois casais asseguravam diariamente o almoço e o jantar. “Uns deram a tenda completamente nova, outros um par de botas novas e roupa então nem se fala”, revela a moradora que também lavava e passava toda a roupa do sem abrigo. Na rua era comum encontrar vários comerciantes a oferecer um café ou cigarro a Augusto Silva que conquistou a simpatia de todos.O primeiro dinheiro que recebeu também parece ter voado num instante. “Ele ainda almoçou e jantou aqui num café alguns dias depois de receber e vimo-lo a beber cervejas numa esplanada mas rapidamente nos apercebemos que tinha ficado novamente sem nada”. Sem dinheiro e sem o apoio das pessoas, o sem abrigo começou a aparecer cada vez menos no centro. Levantou ainda o último cheque do RSI correspondente ao mês de Março que foi enviado para um café de Samora, com o consentimento da proprietária, e a partir daqui desapareceu. Maria Santos não se sente enganada, apenas desiludida perante a “ingratidão”. “Continuo a achar que ele é uma pessoa de bom carácter. Vimos isso em várias situações. Quis-me até pagar a água que eu gastei para lavar-lhe a roupa. O problema é que no fundo nunca quis mudar de vida”, conclui. Recorde-se que Augusto Silva dizia ser de Lisboa e contou uma história relacionada com a perda de um emprego que tinha na construção civil e com o despejo da casa onde vivia, informações nunca confirmadas. O presidente da junta, Hélio Justino (CDU), recusou-se no início a passar o atestado de residência por temer que o objectivo fosse apenas obter o RSI, o que acabou por se confirmar, mas acabaria por aceder depois de sensibilizado pelas técnicas de acção social da Câmara Municipal de Benavente. Nos últimos tempos o sem-abrigo foi visto embriagado algumas vezes e a suspeita de que padece de problemas mentais também é cada vez mais forte. “De vez em quando esbracejava ou falava sozinho na rua. Um dia veio contar-me que tinha uma máquina dentro do corpo que não o deixava processar a comida e por isso nunca mais ia comer”, conta Maria Santos.

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