25º Aniversário | 14-11-2012 15:21

Como Aníbal Farinha se fez homem na loja dos rapazes

A conversa dura quinze minutos, se tanto. A sorte é não haver tantos clientes como havia há 25 anos quando, na primeira edição de O MIRANTE saiu o anúncio que rezava assim: “Aníbal Farinha Alves (Antiga Casa José Matos) Mercearias e talho - Drogaria, Ferragens, Ferramentas, Loiças e Tintas - Materiais de Construção Civil”.

Aníbal José Lopes Farinha é um homem de trabalho. Sempre foi um homem de trabalho mesmo na infância e adolescência. Ele e as irmãs, duas das quais (Isabel e Fernanda) trabalham com ele na loja que o pai comprou quando eles eram jovens, para que pudessem governar as suas vidas e ganhar a sua independência. Atende um cliente ao telemóvel, dá uma indicação para o balcão sobre uma peça que está a ser pedida por um outro e conversa com o jornalista sem se desconcentrar. Adivinham-se uns tímidos raios de sol junto à entrada da “Aníbal Farinha Alves e Filhos, Ldª”, junto à Igreja da Misericórdia na Chamusca. A conversa dura quinze minutos, se tanto. A sorte é não haver tantos clientes como havia há 25 anos quando, na primeira edição de O MIRANTE saiu o anúncio que rezava assim: “Aníbal Farinha Alves (Antiga Casa José Matos) Mercearias e talho - Drogaria, Ferragens, Ferramentas, Loiças e Tintas - Materiais de Construção Civil”.A família é oriunda da Sertã. Teve uma passagem por Angola onde nasceu Aníbal e as três irmãs. “Sou de General Machado, ao pé de Silva Porto. Somos todos de lá”. Agora General Machado é Camacupa e Silva Porto chama-se Kuito. Província do Bié. Aníbal Farinha Alves não mudou de nome quando retornou com a família a Portugal. Os filhos também não. O homem que nos conta a história, com voz firme e profunda tinha 7 anos em 1974, era o mais novo. Se em Angola ficou uma vida aqui ergueu-se outra. A pulso, a partir do nada. Primeiro em Tomar na agricultura e criação de gado. Paralelamente na Chamusca, alguns anos mais tarde.“Viemos num S. Martinho ver isto e passadas duas semanas tomámos conta do negócio. Nos primeiros tempos eu e o meu primo vivíamos aqui na loja. Éramos só os dois aqui. Ainda hoje as pessoas da terra chamam a isto a loja dos rapazes. Dormíamos atrás do balcão. Tínhamos um fogãozito para preparar as refeições ali ao fundo. Um ano e meio assim. As minhas irmãs vieram dois ou três meses depois. Já estamos aqui há uns bons vinte e oito anos”.Aníbal Farinha não tem vergonha de dizer que chorou algumas vezes no silêncio da noite com o cheiro das ferragens, ferramentas e mercearias a entrar-lhe nas narinas ávidas do ar livre e puro que antes respirava. “Quando o meu pai comprou isto foi a pensar nos filhos. Eu andava a acabar o 11º ano. O meu primo também. Interrompemos os estudos. As minhas irmãs são mais velhas que eu. Tínhamos que ganhar o suficiente para honrar os compromissos assumidos com o indivíduo que nos vendeu. Vencemos mas não foi fácil. Sofri muito aqui atrás do balcão. Eu era baixinho, pequenito. Tinha aí alguns vendedores, daqueles mais matreiros que se riam de mim quando eu lhes dizia que era o responsável pela loja. Aquilo dava-me cá uma volta”.O tempo para ler O MIRANTE era pouco. Provavelmente foram mais as vezes que o jornal serviu para embrulhar alguma coisa ou para limpar os vidros da montra. Muitas vezes eram os clientes que comentavam as notícias que tinham lido e que contavam as novidades a Aníbal Farinha e às irmãs. Ainda hoje isso acontece. “Há alguns que vêm às compras mas danadinhos por contar também as novidades e as calhandrices”, refere o empresário.“Comecei a trabalhar no campo aos 10 anos. Vinha da escola e ao contrário do que se passa agora, primeiro estava o trabalho do campo e só depois ia fazer os deveres. Tínhamos gado e o comer para os animais era todo arrebanhado por nós. Não se comparava palha nem ração. Era tudo ceifado. Quando vim para aqui agarrei isto com unhas e dentes. Felizmente tínhamos muito trabalho. Trabalhávamos aqui de noite e de dia. Em 1990, aqui detrás deste balcão éramos cinco. E todos os dias fazíamos serão das dez da noite até às três da manhã. Só em mercearias era uma loucura. Vendíamos o que tínhamos e o que não tínhamos. Hoje não conseguimos vender o que temos”, conta. No campo aprendeu com o pai. Na loja de ferragens e mercearia da Chamusca teve outro mestre. “Quando vim para aqui não sabia nada disto. O José Gabriel, antigo funcionário da casa, que já estava reformado foi a minha salvação. Vinha para aqui de manhã, logo às nove horas, saía para almoçar e dormir uma sesta e regressava lá pelas quatro. Estava todo o dia a ajudar-me. Foi ele quem me ensinou tudo. Vinha um cliente pedia alguma coisa e era ele que dizia o que era e onde estava”. Vai para trás do balcão e coloca-se entre uma das irmãs (a outra está a tomar conta de um armazém noutra zona da Chamusca) e uma jovem funcionária. Para trabalhar ali é preciso saber falar de igual para igual com profissionais. Pintores, carpinteiros, canalizadores. “Vamos aprendendo uns com os outros. Eu para além da teoria também faço de tudo. Faço de serralheiro, de pedreiro...o que for preciso”, afiança. Numa página da internet fomos descobrir uma fotografia dele a restaurar uma cadeira.

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