25º Aniversário | 14-11-2012 15:19

O fim dos bailes das colectividades fez murchar “A Rosita”

“Sempre me disseram que o negócio de sapatos era muito mau mas não podemos acreditar em tudo o que nos dizem”, diz a sorrir. Vinte e cinco anos depois, o “Novo Estabelecimento” que O MIRANTE anunciava, parece já ter cumprido a sua missão. Os filhos do casal Braz não estão no ramo. Um é engenheiro mecânico e outro está a tirar um curso de informática.

Rosa Maria Pereira Simões Braz é uma pessoa alegre, bem disposta e gosta de conversar mas não gosta de se expor. Aparece neste conjunto de pequenas reportagens que O MIRANTE fez com os anunciantes da primeira edição porque a sua natural simpatia venceu a sua vontade de mandar o jornalista embora. A frase chave da entrevista foi repetida vezes sem conta. “Eu não me quero lá no jornal”. Ainda bem que mudou de ideias porque sem ela perdíamos a única senhora do conjunto. Ainda por cima com nome de flor. E havia também a coincidência de a sapataria A Rosita ter nascido em 1987, no mesmo ano do jornal.Muita coisa mudou na Chamusca desde essa altura embora a tentação que se tenha é a de dizer que nada mudou. Rosa Maria, que até estranha quando a chamam pelo nome de registo e não pelo diminutivo, fala nas estradas que estão todas arranjadas, no Eco Parque do Relvão, na freguesia da Carregueira, onde foram criadas dezenas e dezenas de postos de trabalho e do tamanho dos pés das clientes da sapataria. “Agora as pessoas mais novas têm os pés maiores do que há 20 ou 25 anos”, diz com o saber de experiência feito. E também confirma que já lá vai o tempo em que as senhoras com pé 38 usavam sapatos 36. “Isso acabou. Agora também querem conforto. Não querem calçado apertado ou que as magoe”.A maioria dos clientes é do sexo feminino. É ali e em todas as sapatarias do mundo. “Os sapatos das senhoras são mais vistosos. A moda está sempre a mudar. São feitos para fazer conjunto com a roupa e as malas de mão. Para fazer vista. Os sapatos dos homens são mais resistentes e a maior parte dos modelos não passa de moda”, explica. Quando lhe perguntamos se tem muitos sapatos responde que sim mas não é capaz de dizer quantos. “Não faço a mínima ideia mas ao lado dos do meu marido são uma imensidão”, confessa. Os pequenos anúncios que O MIRANTE publicou na primeira edição não eram nenhum primor de estética. Caixa com fundo branco com a mensagem curta e directa escrita em diferentes tipos de letra. “A Rosita - Novo Estabelecimento - Malas - Sapatos - Brinquedos”. A publicidade não fazia justiça aos sapatos, principalmente aos das senhoras, que eram e ainda são, pequenas obras de arte...pelo menos alguns deles.À porta da sapataria passam dois jovens a cavalo. O ruído característico das ferraduras a bater no alcatrão sobrepõe-se por momentos ao plangente fado que passa na rádio. Duas senhoras estão sentadas à conversa esperando pacientemente que a entrevista acabe. “Entram aqui muitas pessoas só para me cumprimentar e para dois dedos de conversa. Visitam-me quase todos os dias”.As encomendas que faz de sapatos têm em conta aquilo que ela sabe interessar às clientes que melhor conhece. “Já lhes conheço os gostos”, diz. Já antes da crise o negócio estava em queda. Curiosamente a primeira machadada foi dada com o fim dos bailes e festas das colectividades da terra. “Era hábito estrear sapatos nessa altura. Agora já não é assim. Nem bailes há”, lamenta. Rosa Maria Pereira Simões Braz é de Foros da Barreta, freguesia de Santa Maria, Torres Novas. Quando era miúda costumava ir à Chamusca com a família, principalmente em dias de festa. “Vínhamos sempre à tourada de Quinta-Feira de Ascensão. Eu passava o tempo todo a chorar com medo que o touro marrasse no cavalo”, lembra. Aqueles acontecimentos não foram traumáticos. Hoje gosta de touradas e só não vai mais vezes porque o marido “não liga muito” àquele tipo de espectáculo. “Mas vou sempre à entrada de touros”, remata. A sapataria não era um negócio de família. Surgiu numa altura em que Rosa Maria estava desempregada. “Sempre me disseram que o negócio de sapatos era muito mau mas não podemos acreditar em tudo o que nos dizem”, diz a sorrir. O nome da loja foi sugerido por uma amiga. Vinte e cinco anos depois, o “Novo Estabelecimento” que O MIRANTE anunciava, parece já ter cumprido a sua missão. Os filhos do casal Braz não estão no ramo. Um é engenheiro mecânico e outro está a tirar um curso de informática.

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