25º Aniversário | 14-11-2012 15:22

Os mil sacrifícios de Abílio Esperança Marques para escapar à escravidão

Tempos houve em que nem abria O MIRANTE, de tanto trabalho que tinha. Não se lembra do anúncio que pagou e foi colocado na página 13 da primeira edição do jornal. Provavelmente nem o terá chegado a ler.

Aos 68 anos, Abílio Esperança Marques confessa que começa, finalmente, a ter algum tempo para ler O MIRANTE como deve ser. Tempos houve em que nem o abria, de tanto trabalho que tinha. Não se lembra do anúncio que pagou e foi colocado na página 13 da primeira edição do jornal, que saiu com data de 16 de Novembro de 1987. Provavelmente nem o terá chegado a ler, a acreditar no que nos conta da sua vida. “Naquele tempo eu andava de porta a porta pelas aldeias do concelho a vender electrodomésticos e móveis. Tinha o meu negócio há 17 anos e as coisas corriam bem”.A publicidade à empresa onde se indicava ser a mesma representante oficial das marcas Philips, Oliva e Grundig, ficou ao lado do anúncio da visita da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian nos dias 20 de Novembro e 18 de Dezembro, das 16h30 às 19h30, no Largo Vasco da Gama, junto à Igreja Matriz. Abílio Esperança Marques, nascido na Parreira, começou a fintar o destino aos 12 anos. “Os meus pais trabalhavam na agricultura. Eu ia com eles ainda criança para ajudar no que podia. Via-os a fazer milho naqueles cabeços. Uma terra que era só pedras. No fim era um saco para nós e três para o patrão. Aquilo era uma escravidão”. Entrou como aprendiz numa alfaiataria lá da terra mas cedo percebeu que também não era ali o seu futuro. “O acordo era eu trabalhar lá de graça, como aprendiz, quatro anos, até começar a ganhar. Andei lá dois e pisguei-me para Alpiarça. Tinha 14 anos e fui para um restaurante”.De Alpiarça foi para outro restaurante em Coruche. De Coruche foi para a tropa. Tinha seis anos de tarimba, como ele diz. Sempre a poupar, tostão a tostão. Em Angola andou três meses a proteger colunas de transporte de café. Samba Caju, Vila Salazar...os restantes 14 meses foram no bem-bom do quartel em Luanda. Há quem diga que o tempo de tropa foi um tempo de descanso. Para ele foram meses e meses de trabalho. Saía do quartel e ia trabalhar para restaurantes e hotéis. Noites, fins-de-semana. “Naquela altura éramos poupados. Hoje os jovens não sabem o que custa a vida”, sentencia. Quando regressou usou as poupanças para se estabelecer por conta própria a vender electrodomésticos e móveis. Os sacrifícios feitos tinham-lhe aberto a porta da independência. “Trabalho com a minha esposa, Maria José. O meu irmão esteve aqui vinte e tal anos. Depois foi-se embora. Queria mais dinheiro e eu não lhe podia pagar o que ele queria. Tentei outros funcionários mas não consegui. Não deu. Não estimavam as coisas. Estragavam. Outros em vez de andar a trabalhar iam passear”. Nota-se que é um homem à moda antiga. Os filhos foram estudar e o negócio dos pais não lhes diz muito. “O rapaz é professor. A rapariga tirou um curso de comunicação e trabalha na Multiópticas. Nenhum deles trabalhou comigo. Nem pensar. Nem ajudar. Eles não queriam. Quando começaram a aparecer os novos televisores ainda lhes pedia ajuda de vez em quando porque tinham mais facilidade. Às vezes perguntavam-me se eram mesmo precisos”. Em cima de uma mesa está uma edição recente de O MIRANTE. Faz uma pausa para falar do director geral Joaquim António Emídio. “Lembro-me dele trabalhar no Grémio”. Está a falar de alguém que também subiu a pulso e venceu. Alguém por quem nutre estima e admiração. Volta aos filhos quando lhe pedimos para falar da evolução da Chamusca. “O rapaz está em Tomar. A minha filha tem que ir todos os dias para Santarém. A Chamusca não evoluiu. Está a andar para trás. Ficámos sem pão, sem vinho e sem tomates. Fecharam as padarias. Fechou a adega cooperativa. Fechou a fábrica do tomate que era o que dava alma a isto. Antigamente havia trabalho. Até os estudantes podiam trabalhar no Verão, na fábrica do tomate para ganhar algum dinheiro. Agora não há nada. Fecha tudo. Aqui há tempos contei quarenta e tal armazéns que eu conheci, que já fecharam”.

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