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A emancipação de Maria Elisa numa sociedade fechada às mulheres

Foi funcionária pública durante 36 anos e conciliou sempre a profissão com a família e o voluntariado

Maria Elisa Figueiredo Duarte, figura conhecida em Santarém, três filhos e sete netos, orgulha-se de ter conciliado a vida profissional com a família e o trabalho de voluntariado. É a voluntária mais antiga da Liga Portuguesa Contra o Cancro de Santarém. Acredita que ainda faz sentido celebrar o Dia da Mulher - 8 de Março - para lutar contra a violência e reivindicar alguns direitos que continuam por assegurar, como o do salário igual por trabalho igual.

Edição de 06.03.2013 | Entrevista
Quando em 1949 Maria Elisa Figueiredo Duarte integrou, aos 17 anos, os serviços da intendência geral dos abastecimentos, em Santarém, passando a trabalhar ao lado de 25 funcionários públicos do sexo masculino, houve na cidade quem se tivesse espantado com tal audácia tal era o conservadorismo que pairava. A mãe, que já tinha sido professora em Lisboa, mulher de mente aberta, foi a primeira a apoiá-la, mas vivia atormentada com a situação. “Ia esperar-me, todos os dias, à saída da repartição”, conta Maria Elisa à distância de 64 anos.O pai faleceu quando Maria Elisa tinha nove anos e foi a mãe que a criou. Não havia dinheiro para que a menina seguisse estudos na universidade em Lisboa. No serviço nunca sentiu qualquer tipo de discriminação. Ganhava o mesmo que os funcionários homens e nem precisava de ficar a trabalhar aos serões por ser mulher. “Os meus colegas faziam o serviço porque a menina não podia ir para casa à noite”, recorda. Tinha ainda o privilégio de poder votar por ser funcionária pública numa altura em que esse direito ainda estava vedado a algumas mulheres.Auferia 1080 escudos no tempo em que um empregado do comércio levava para casa cerca de 500 escudos. “Na minha época as meninas ou iam para professoras ou para telefonistas. Foram precisos muitos anos para que se começasse a ver mulheres nesses serviços. Os pais de algumas amigas minhas não as deixavam ir para esses meios. Hoje lamentam-se por não ter a reforma que eu tenho”.No serviço, que passou a direcção geral de fiscalização económica, trabalhou em tempo de racionamento na sequência da segunda grande guerra mundial. “Havia muito trabalho porque era preciso organizar os processos e tratar das senhas para as pessoas poderem ir buscar comida”, conta.Na repartição pública cumpriu 36 anos de serviço. Foi lá que conheceu o futuro marido, que era chefe de secção, Bernardo Figueiredo, que depois de funcionário público se dedicou ao jornalismo em Santarém. Teve três filhos, duas raparigas e um rapaz, conciliando sempre a profissão com a família e o voluntariado nas áreas de solidariedade e saúde. Tinha a ajuda de uma empregada já que também ficou com a mãe a seu cargo, doente. Bernardo Figueiredo, falecido há 12 anos, nunca condicionou a liberdade da esposa e por intermédio da profissão do marido Maria Elisa teve contacto com múltiplas personalidades e situações. Nunca lhe passou pela cabeça deixar o trabalho. “Trabalhar ajudava-nos a estar a par da vida. O que fariam aquelas senhoras, fechadas em casa, num tempo em que nem sequer havia televisão? Limitavam-se a sair com o marido”, imagina à distância de algumas décadas colocando-se no lugar das donas de casa.Maria Elisa só lamenta que o divórcio se tenha banalizado demasiado e que em termos de liberdade se tenha passado do oito para o oitenta. “A mulher tem o direito de desfazer o casamento quando ele já não interessa e quando ela é vítima de determinadas situações. Mas o que vejo é um casa e descasa”.Os homens são piegasOs 44 anos trouxeram a Maria Elisa uma doença e ao mesmo tempo a vontade de escrever poesia para exteriorizar a dor interior. O cancro do colo do útero era na altura considerado uma doença mortal. “Toda a gente achava que eu ia morrer, incluindo eu própria”, conta. Já tinha os três filhos, mas a mais nova tinha apenas dez anos. O primeiro poema foi dedicado a eles. “Entretanto esse poema já deu muito dinheiro à solidariedade, vendido em molduras”.A figura da mulher também a inspira. “Deus deu à mulher a honra de ser mãe. Talvez por saber que os homens são piegas e que de outra forma dificilmente a humanidade seria preservada”, diz entre sorrisos reconhecendo a coragem de alguns homens.Considera que faz sentido celebrar o Dia Internacional da Mulher - 8 de Março - sobretudo porque é preciso continuar a lutar pelo direito de “salário igual por trabalho igual” e contra a violência a que algumas mulheres ainda são sujeitas. “Os sucessivos governos ainda não conseguiram tornar este país diferente para aquilo que nós desejávamos. Como é possível que morram nos dias de hoje mulheres às mãos de maus tratos de homens? É um problema que já existia na minha altura mas que já era altura de não existir”.Campo da Feira vai ter rua com nome de Bernardo FigueiredoA rua que passa frente à Casa do Campino, no Campo da Feira, em Santarém, vai ser baptizada com o nome de Bernardo Figueiredo como forma de homenagem ao jornalista que faleceu há 12 anos. A artéria da freguesia de Marvila liga a rua Barreiros Mota com a Pedro Cid. A cerimónia de inauguração da rua vai decorrer a 16 de Março, às 10h00, no âmbito das Festas de São José, que decorrem entre os dias 15 e 19. “Achamos que é um local digno para homenagear Bernardo Figueiredo que esteve muito ligado à Feira do Ribatejo”, revela a O MIRANTE o presidente da Junta de Freguesia de Marvila, Carlos Marçal, que salienta ainda que a cidade de Santarém deve muito àquela individualidade que foi director do semanário Correio do Ribatejo.Menina em Vila Franca, mulher em SantarémMaria Elisa Conceição Vicente de Figueiredo Duarte nasceu a 9 de Fevereiro de 1932 na Quinta da Marquesa, em Vila Franca de Xira, onde o seu pai era feitor. Aos oito anos foi internada no Colégio de Santa Maria, em Torres Novas, onde a disciplina era quase militar. O pai morreu um ano depois. Esteve um ano sem ir à escola a recuperar do luto. “Quando soube que o meu pai tinha partido deixei de comer e de brincar e as freiras ficaram aflitas”, conta. Refugiou-se na fé. A mãe, professora, conseguiu manter a filha no mesmo colégio retirando-lhe apenas as aulas de piano. Quando a menina completou 14 anos deixaram Vila Franca e regressaram a Santarém, de onde era a família materna. Maria Elisa foi frequentar um colégio em regime de externato, o que saía mais barato à mãe.Conheceu o futuro marido, Bernardo Figueiredo, pai dos três filhos, já em Santarém, quando foi trabalhar para uma repartição pública aos 17 anos. É a voluntária mais antiga da Liga Portuguesa Contra o Cancro de Santarém. Nos tempos livres costura próteses à mão em algodão para colocar a seguir à operação na mulher mastectomizada. No mesmo serviço são fornecidos lenços para homens que são operados à garganta para usar por baixo da camisa em vez de gravata, bem como soutiens e cabeleiras para quem não pode comprar. Foi voluntária da Cruz Vermelha, está ligada ao centro de solidariedade de Marvila e durante 20 anos deu catequese a adolescentes. Fundou ainda o primeiro grupo de dadores de sangue feminino.Nunca se vinculou à política porque considera que é assim que é verdadeiramente livre. Ideologicamente aplaude tanto à esquerda como à direita mas simpatiza com o PSD por causa de Sá Carneiro. Aos 81 anos tem um dinamismo e lucidez invejáveis e percorre a cidade de Santarém, onde reside, com uma madeixa branca no cabelo que já se tornou a sua imagem de marca. “Foi na terceira gravidez. Ainda tentei arrancá-los mas cresciam mais. Usei franja para escondê-los mas quando chegou a moda das madeixas passei a conservá-los. Estes, afinal, são meus”.Observa com satisfação que a sociedade está mais inclusa e que o tecto do centro comercial da cidade de Santarém alberga grupos de juízes, ciganos, oficiais e funcionários públicos. “Faço a minha análise e vejo que ali se concentra toda a classe de pessoas, o que antes não acontecia”.Gosta de Santarém mas às vezes chora com saudades da sua Vila Franca de Xira que revisita com frequência de comboio. Às vezes as saudades chegam para fazer poesia: “(...) Quando punhas o xaile de varina/ E ao Tejo davas “sorte”/ Correndo ladina/ Até ao senhor da Boa Morte/ Lembras-te? Era em quinta-feira da Ascensão/ Levavas vestido de chita/ E muito amor no coração (...)”.

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