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Doença da opinião

Edição de 26.02.2014 | Opinião
Um brilhante intelectual de esquerda, daquela moralista e sabichona, pegou-se de causas com quem opinou de forma contrária à sua, com alguns erros. Chamou-lhe “a opinião como doença profissional” e defendeu implícita e explicitamente que expressar a opinião é só para alguns. A democratização da opinião é um fato. Ainda bem que assim é. Muitas vezes é um dever, bem mais que um direito. Contribuir para a formação de uma opinião coletiva de valor é o caminho que devemos seguir. Neste caminho, ficar calado é a pior opção. Deixar este dever só para sabichões é perigoso e não nos devemos habituar a isso. Todos temos cabeça. É importante que pensemos por nós e formulemos as nossas próprias ideias e convicções. Só assim é que uma sociedade pode caminhar no sentido da riqueza. Apesar de tudo, continuo a acreditar que o bom caminho é acabar com os pobres, incluindo os de espírito, e não com os ricos.Um jornal tem a dupla função de, como empresa, criar riqueza, a que acresce a mais valia de criar valor, isto é, opinião de valor. No meio de tanta pobreza, valha-nos as boas riquezas que ainda vamos tendo, jornais com opinião de valor como este que tem na mão.Bom seria que cada parte cumprisse o seu dever. Depois de há 30 anos me pagarem para estudar e pensar, de passar largos anos pela administração pública, de constituir empresas e associações empresariais, formar milhares de pessoas, ser diretor da mais importante revista de ambiente e empresas em Portugal, etc., mais do que direito, sinto o dever e a responsabilidade de contribuir positivamente para a constituição de opinião de valor. Lamento muito que a generalidade dos meus colegas académicos assim não faça. Que tenha medo da exposição e que se feche no enredo académico de ciclo fechado a falarem uns com os outros. Quem decide deve sentir o peso dessa decisão face à opinião coletiva da comunidade em que se insere. A opinião coletiva, cada vez mais, deve influenciar a decisão e a qualidade desta será tanto maior quanto maior e melhor for a primeira.O tapete que um grupo de artesãos ofereceu à Câmara Municipal de Mação é muito mais que um reconhecimento, é a materialização de uma opinião de agradecimento, de cumplicidade cívica entre a autarquia e um grupo de cidadãos. Na prática, é este bom efeito da opinião que um grupo de cidadãos tem de uma entidade pública, a autarquia. Isto é muito diferente de doença, é o tal pormenor que o autor inspirador do tema deste texto refere como “verdade objetiva” ou “realidade”. É bem mais simples que duas páginas de retórica bem elaborada e fundamentada e se tiver erros ou imprecisões não vem mal ao mundo. O erro faz parte do processo da “construção de valor”.A realidade está muito próxima de cada um e todos a construímos.Carlos A. Cupetocupeto@uevora.pt Professor na Universidade de Évora

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