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Falta de praticantes e de qualidade vai acabar com ranchos folclóricos em Vila Franca de Xira

José António Noras é presidente da associação dinamizadora do folclore e do Centro Cultural do Bom Sucesso

José António Noras é o presidente da Associação Dinamizadora do Folclore do Concelho de Vila Franca de Xira e não tem papas na língua: o folclore está a perder força e se nada for feito na próxima década os ranchos correm o risco de desaparecer no concelho. Diz que Vila Franca nunca soube aproveitar a proximidade com Lisboa para promover o folclore. É também o novo presidente do Centro Social e Cultural do Bom Sucesso de Alverca. Diz que o novo edifício de 2,5 milhões de euros é um “mono inútil” que nasceu de “querelas políticas”.

Edição de 28.05.2014 | Cultura e Lazer
Os ranchos folclóricos e etnográficos estão em risco de acabar no concelho de Vila Franca de Xira. O presidente da Associação Dinamizadora do Folclore (ADF) do concelho, José António Noras, diz que numa década pode desaparecer esta manifestação cultural se nada for feito urgentemente. “Muito apreensivo” quanto ao futuro, o dirigente sublinha que nos últimos dez anos o folclore decresceu “como nunca”, quer em termos de qualidade dos espectáculos quer no número de participantes. Só se conseguirá dar a volta a este cenário congregando boas vontades, financiamento e capacidade de cativar jovens para os grupos.Dos 13 grupos que existiam no concelho de Vila Franca no ano 2000 já só restam sete. E nestes o número de participantes caiu para menos de metade. De uma média de 40 pessoas por grupo já só pouco mais de dezena e meia vai aos ensaios e os grupos que vão existindo sobrevivem com muitas dificuldades. “Vive-se uma situação alarmante. Temos de voltar às escolas de folclore para chamar os miúdos e há que evitar a deturpação do folclore. Hoje qualquer politicozeco fala do folclore como se fosse uma palhaçada e isso não pode ser”, crítica o dirigente.José António Noras dá como exemplo o que acontece nas festas da cidade de Alverca, organizadas pela junta de freguesia de Afonso Costa (PS), onde os ranchos são muitas vezes forçados a actuar num palco invadido pelos sons dos carrosséis e do ruído dos clientes das farturas. “É uma falta de respeito para com os grupos”, vinca. As alterações sociais ditaram também o afastamento dos participantes nos ranchos e a oferta cada vez mais variada de entretenimento para os jovens torna as tradições etnográficas pouco cativantes. “O maior calcanhar de Aquiles é cativar jovens para os grupos. Um jovem com 12 ou 13 anos hoje em dia é motivado por grandes interesses, companhias que fazem um trabalho psicológico destinado a levar os jovens a consumir determinados produtos e serviços como jogos de computador. Isso é difícil de ultrapassar”, lamenta. Por ano a Câmara de Vila Franca dá mil euros, em média, a cada rancho do concelho para ajudar nas suas actividades, mas José Noras diz que isso não chega. “É menos 60 por cento do que recebíamos há dez anos”, lamenta. Para José Noras os grupos que melhor representam o concelho, nas suas especificidades e tradições culturais são os de Alverca e Vialonga. “Depois temos outros, com trajes aldrabados e falta de cuidado nas apresentações. Há muita pobreza cultural nas pessoas que dirigem os ranchos. Há grupos a bater os pés nos palcos que de representações etnográficas não têm nada”, critica. Defende que é urgente promover a união entre grupos para ultrapassar os problemas. “Os grupos continuam a perder muito tempo a olhar para o seu umbigo”, nota. E conclui que há oportunidades que estão a passar ao lado. “Nunca soubemos aproveitar a proximidade com Lisboa. A capital está na moda, nós estamos perto mas não estamos nem a divulgar nem a aproveitar esta oportunidade”.Centro Cultural do Bom Sucesso é um “mono inútil”É desde Novembro o novo presidente do Centro Social e Cultural do Bom Sucesso. Qual tem sido o maior desafio? Pagar as dívidas. Isto está pior do que aquilo que pensávamos e temos estado a pagar um valor em dívida na ordem dos sete mil euros. Temos tentado endireitar as coisas, quer na parte financeira quer na parte cultural. Tem sido difícil porque o edifício não ajuda. Nasceu fruto de uma querela política entre a câmara e os dirigentes do centro, à época, e o resultado é um mono que não reúne condições para ser rentável. É um espaço inútil que não foi dimensionado para albergar uma colectividade.O espaço não serve para a associação? Não temos uma sala para os sócios, não temos ginásio, nem salas para actividades úteis. Temos um auditório com mais palco do que espaço para as pessoas, temos áreas abertas que não servem para nada e pequenas salas entregues a algumas associações. Temos problemas de infiltrações há meses à espera de serem resolvidos pela câmara, que é a dona do edifício. Quem ficou defraudado nisto tudo foi a colectividade e as pessoas do Bom Sucesso.Um viciado no associativismo e no folcloreJosé António Noras, 57 anos, casado, confessa-se um viciado em folclore e integra o rancho do Centro Social e Cultural do Bom Sucesso, Alverca, há quase duas décadas. A família é oriunda do concelho de Santarém, de onde o pai saiu para trabalhar nas OGMA em Alverca. José nasceu em Vila Franca e viveu grande parte da vida no Bom Sucesso. Recentemente mudou-se para Arruda dos Vinhos. Há cerca de 15 anos começou a compilar todas as informações etnográficas do concelho e em particular de Alverca para integrar nos ranchos folclóricos.É primo em segundo grau do ex-presidente da Câmara de Santarém, José Miguel Noras. Diz que o primo fez um trabalho muito interessante na preservação e divulgação do gótico em Santarém. Apesar disso não o vê como um político popular. “Ele não gostou de ser autarca. Foi por imposição. Fez o melhor que podia mas não é uma pessoa vocacionada para ser político. É pessoa bem-intencionada mas não tem espírito para as mesquinhices palacianas e partidárias. Acima de tudo é um historiador”, conta. Trabalha no ramo dos seguros e nos tempos livres dedica-se ao associativismo, onde anda desde os tempos de estudante. Foi presidente da associação de estudantes, integrou a secção cultural da Casa do Povo de Arcena, foi presidente da comissão de moradores do Bom Sucesso e vice-presidente da Sociedade Euterpe Alhandrense, de Alhandra. Confessa que não tem tempos livres mas espera na reforma conseguir dedicar-se à pintura e à escrita.

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