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Uma ribatejana entre a elite do futsal

Uma ribatejana entre a elite do futsal

Ana Catarina Pereira começou a jogar em Vila Franca de Xira, sua cidade natal

Aos 13 anos já defendia a baliza das seniores do Benfica. Uma década depois está entre as melhores do mundo e é titular da selecção nacional. Já experimentou jogar em Itália mas voltou ao clube que diz ser a sua casa. Lamenta que não hajam mais equipas de futsal feminino na sua região e que, assim sendo, há que valorizar as que existem.

Edição de 02.12.2015 | Desporto
É de Vila Franca de Xira aquela que foi considerada a quinta melhor jogadora do mundo de futsal. Chama-se Ana Catarina Pereira, tem 23 anos e é guarda-redes titular do Benfica e da selecção nacional. Começou a jogar com 12 anos, na equipa de juniores do Vilafranquense, algo que recorda com saudade. “Adorei jogar no Vilafranquense. Tínhamos um bom grupo, com grandes talentos e, acima de tudo, miúdas espectaculares. Eram quase todas mais velhas. Com 12 anos era só eu e mais duas ou três. Lembro-me que ficámos em quinto ou sexto lugar no distrital de Lisboa”.Apesar de estar em casa e de ali se sentir bem, só ficou uma época. Foi descoberta pelo Benfica. “Nuns torneios de Verão estava lá a treinadora do Benfica, que me viu jogar e gostou de mim. Falou com o meu pai acerca da possibilidade de eu ir fazer treinos de captação porque o Benfica queria criar uma equipa de juniores feminina. Fui fazer os treinos mas a equipa acabou por não avançar. Então convidaram-me para ficar nas seniores com 13 anos”, recorda.Muito nova nas seniores de um clube como o Benfica acabou por não ser fácil. Tímida, sempre no seu canto, não sabia como lidar com “as senhoras de 35 anos”. Em Vila Franca chorava por não estar a conseguir adaptar-se. Nunca desistiu. Essa pior fase passou e muito cedo agarrou a titularidade. Hoje está na nona época no clube, sendo a jogadora com mais anos de casa. “É difícil descrever o que é representar o Benfica porque é uma mistura de sentimentos. É o meu clube do coração e desde pequena que sonhava jogar ali. Realizar esse sonho, vestir aquela camisola, é um enorme prazer. É o clube que toda a gente quer representar e eu ao estar ali só tenho de me sentir orgulhosa”, conta.Orgulhosa ficou também quando, já este ano, foi eleita a quinta melhor jogadora do mundo. Ambiciosa, diz que gostava de ter ficado ainda mais acima. Não ficou e até pode culpar alguns dos portugueses que votaram. “O que me deixou mais triste quando vi os votos foi ver portugueses que votaram primeiro nas brasileiras. Houve portugueses que deixaram as portuguesas de fora das cinco em que podiam votar. Isso é mau, é triste”, lamenta. Frequentemente tida como uma das melhores guarda-redes do mundo, Ana Catarina opta pela humildade. “Não me vejo dessa forma. Ainda tenho muita coisa para melhorar e, enquanto assim for, não me posso sentir uma das melhores”.No Benfica já ganhou tudo o que havia para ganhar. Seria então capaz de jogar noutro clube em Portugal? “Faço essa pergunta muitas vezes a mim própria. Não sei se seria capaz. Não gosto de dizer nunca mas o Benfica é a minha casa, é onde fui criada. Aquilo que sou é graças ao Benfica. Só se o Benfica acabasse é que talvez jogasse noutro clube português”. Experiência no estrangeiro já teve. Na época passada deixou Portugal rumo a Itália para jogar na Lazio. Em Itália, foi feliz fora de campo. No que ao futsal diz respeito não se adaptou. “Não há campeonato como o português, a nível de intensidade, de conhecimento táctico”, explica. A juntar a isso tinha um treinador que “não tinha grandes conhecimentos, para não dizer nenhuns”. Regressou a Portugal no Verão de 2015 e o Benfica recebeu-a de braços abertos, mas não foi o único: “Lembro-me que fomos jogar contra o Sporting, em Setembro, e quando entrei estava um pavilhão inteiro em pé a bater-me palmas. Nunca me passou pela cabeça, muito menos em casa do Sporting”. Foi um momento especial para Ana Catarina, tal como são todos em que representa a selecção. Conta com 29 internacionalizações e diz que chora sempre que houve o hino. Pela selecção sonha ser campeã do mundo. Regressando às origens, lamenta o facto de haver poucas equipas de futsal na região de Vila Franca. “Não existem tantas como seria desejável e ainda por cima há pavilhões com condições no concelho. Mas também compreendo que não é fácil criarem-se equipas e por isso deve-se valorizar as que existem”, refere.“Gosto de ser ribatejana mas não ando a correr atrás dos toiros”Ana Catarina viveu no Sobralinho e depois em Vila Franca de Xira, até que há poucos meses se mudou para a vizinha Alhandra. “Gosto de ser ribatejana. Estamos no distrito de Lisboa mas isto é Ribatejo e vai ser sempre”, afirma. Sobre Vila Franca de Xira, onde nasceu, diz que o melhor é o facto de ser uma cidade pacata mas que tem tudo: piscinas, pavilhões para a prática de desporto, hospital, biblioteca, praça de toiros, campo de futebol e boas escolas. O pior é o trânsito e as obras. Vila Franca de Xira é uma cidade com forte tradição taurina mas Ana não vai à bola com os toiros. “Mas também não sou contra. Se houver touradas há, se não houver não há. Não sou fanática, nem a favor, nem contra. Não ando é a correr atrás dos toiros”, esclarece. Não é grande fã dos toiros mas é das festas do Colete Encarnado, no sentido de, nesses dias, andar na rua, “na brincadeira, a conviver”.Os tempos da escola recorda-os com saudade. Andou na EB 2, 3 Soeiro Pereira Gomes, na União de Freguesias de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz, e na Secundária Reynaldo dos Santos, em Vila Franca. Mantém amigos desses tempos, assim como outras amizades de infância. “Vemo-nos algumas vezes mas não tantas como as que gostaria”. Ainda sobre Vila Franca de Xira diz ser uma “excelente cidade” para os jovens. “Tem tudo para os jovens poderem crescer e darem um rumo à sua vida. E no desporto é igual. Tem imensas equipas, das mais variadas modalidades, e cada jovem pode praticar aquilo que gosta”.Grande parte do tempo de Ana Catarina é, no entanto, passado em Lisboa. É lá que treina e joga mas é também lá que estuda, no segundo ano do curso de Finanças Empresariais do Instituto Superior de Contabilidade e Administração. Ser jogadora de futsal e estudante ao mesmo tempo é algo que a desgasta. “Não é a conciliação que é difícil, é aguentar o ritmo. Levanto-me às 7h00 para ir para a faculdade e chego a casa à meia-noite e meia depois do treino, que é das 22h00 às 23h30”, diz.
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