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Recordações de uma loja com cem anos que matou a fome a muita gente

Recordações de uma loja com cem anos que matou a fome a muita gente

O estabelecimento de Alfredo Pereira, em Vale do Paraíso, fechou há quase vinte anos mas está ainda vivo na memória da população. O espaço onde se deu de comer a muitas pessoas mantém a mobília e a imagem de outros tempos. E pode vir a abrir de vez em quando como casa-museu.

Edição de 08.06.2016 | Sociedade

A poucos passos da sede da Junta de Freguesia de Vale do Paraíso encontra-se um dos maiores testemunhos do século XX nessa localidade do concelho de Azambuja. A loja do Alfredo Pereira foi fundada em 1916 mas há quase 20 anos que se encontra fechada. Vista de fora parece uma casa normal, mas por dentro encontra-se a memória de um espaço que já teve muita vida e que deu de comer a muita gente. “Houve quem chorasse no dia 7 de Maio”, dizem-nos os irmãos Rosa e Amândio Pinto, naturais da localidade e os herdeiros da loja que abriu de novo as portas nas comemorações do centenário da freguesia e do estabelecimento.
“Temos livros com registos de grandes dívidas no tempo do nosso avô, em que já se sabia que as pessoas não as iriam pagar”, afirma Rosa. A antiga secretária técnica de engenharia civil tem 65 anos e acrescenta que o seu avô materno, Alfredo Pereira, ficou conhecido na terra como o “pai dos pobres”. “Muitos pediam fiado para dar de comer aos filhos e havia uma mesa onde estavam sempre pessoas a comer e que não pagavam”, acrescenta.
Natural de Vale do Paraíso, Alfredo Pereira nasceu em 1893, combateu na primeira guerra mundial entre 1917 e 1919, em Lille (França), numa altura em que a loja esteve entregue a um amigo. Alfredo foi uma das pessoas mais importantes de Vale do Paraíso, como nos conta Amândio Pinto, 61 anos. Chegou a ser presidente da junta, foi vereador municipal e encarregado do posto do registo civil da localidade. “O meu avô tinha um cartório do registo civil numa casa perto da loja onde registava quem nascia e quem casava, mas quando nasci, em 1954, ele deixou de o fazer porque impediram-no de me registar, e então todos os registos passaram para a Azambuja”, revela o antigo electricista de aviões.
Alfredo faleceu em 1966 mas a loja continuaria com os filhos, assim como a taberna que funcionou até pouco depois do 25 de Abril de 1974. “Era usual haver uma taberna em todas as mercearias. Lá havia um poço em que eram colocados os barris do vinho no Verão, para que ficassem frescos, e havia também um cesto feito em ferro onde se colocava a manteiga e o queijo para não derreterem com o calor”, conta Amândio.
Rosa lembra que era na taberna que estava a única telefonia da terra que dava as notícias. E como passavam muito tempo entre a loja e a taberna a ajudar, os dois irmãos aproveitavam para pregar algumas partidas. “Havia uns clientes que preferiam a vaqueiro à margarina, então trocávamos as pratas às manteigas e eles comiam na mesma sem notar diferenças”, conta entres risos. “O meu irmão era esperto e quando queria uma gasosa dizia à minha avó que tinha uma dor de barriga e lá a conseguia”, acrescenta.

Loja-museu “nem que seja de vez em quando”
A taberna foi transformada numa casa de repouso para Rosa Pinto, que vive em Massamá, a quem coube o espaço aquando das partilhas. No entanto, a loja mantém os móveis e as cores originais que vão sendo restaurados. Na altura, vendia-se tudo - “massas, arroz, bacalhau, tecidos, tintas, pregos, dobradiças, fechos, candeeiros a petróleo, azeite, loiças, alumínios, bonés, cestos, tudo! Isto era o centro comercial da altura”, afirma Amândio. “E para além de mercearia, o espaço também serviu de central de despachos, encomendas e mercadorias de Azambuja e Santarém. Havia também uma divisão dedicada às ferragens e à construção, um pequeno escritório, uma dispensa, arrecadação para as sacas da farinha e para a salgadeira”, acrescenta.
Com a “evolução natural” e o aparecimento dos supermercados a Loja do Alfredo Pereira fechou. Rosa revela que a sua mãe e a sua tia já andavam a tirar dinheiro dos seus bolsos para pagar aos fornecedores e que em 1998 tiveram de fechar. Amândio continua a viver no Vale do Paraíso e acrescenta que era preciso muito investimento e obras para que a loja continuasse. E até aos dias de hoje a mercearia apenas abriu para algumas exposições de grupos que fazem artesanato ou pinturas.
Este ano, o presidente da junta de freguesia convidou os irmãos a abrirem de novo as portas para a comemoração dos cem anos da freguesia de Vale do Paraíso e da loja e ficou no ar a ideia de transformar a loja num museu. “Diz muito às pessoas e era engraçado manter o espaço vivo, mas como vivo em Lisboa é difícil. Nunca fiz uma proposta à câmara ou à junta, mas ando a comprar tralha para pôr lá nem que seja para abrir de vez em quando”, conclui Rosa Pinto.

Recordações de uma loja com cem anos que matou a fome a muita gente

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