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“Estou na parte final da carreira mas isto ainda me faz muita falta”

Inês Henriques é a única atleta nos Jogos Olímpicos que representa um clube da região. Marchadora do Clube de Natação de Rio Maior parte optimista para as suas terceiras olimpíadas e garante que está em boa forma. Aos 36 anos e licenciada em enfermagem, Inês Henriques ainda não sabe o que vai fazer quando acabar a alta competição. Até lá quer ser mãe e continuar a marchar enquanto as pernas o permitirem.

Edição de 11.08.2016 | Desporto

Nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro vão estar em competição 11 atletas com ligação à área geográfica abrangida pelo nosso jornal, mas apenas a marchadora Inês Henriques representa um clube da região: o Clube de Natação de Rio Maior. Aos 36 anos (nasceu a 1 de Maio de 1980 em Santarém), diz que se sente bem onde está e elogia as condições que usufrui no complexo desportivo de Rio Maior, cidade onde sempre viveu. Só dali sai para treinar em altitude e participar em provas. Depois das Olimpíadas, onde compete no dia 19 de Agosto na prova de 20 km marcha, já tem outro objectivo traçado: ser mãe. Mas a carreira desportiva não deve acabar aí.
Após ter ido aos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, onde foi 25ª classificada, esteve em Pequim 2008 como atleta suplente, e em Londres, em 2012, conseguiu o melhor resultado, com um 15º lugar nos 20 km marcha. Produto da excelente escola de marcha de Rio Maior, Inês Henriques coloca o top 10 como objectivo nestas Olimpíadas. E leva a bandeira nacional na bagagem, caso haja subida ao pódio.
Vai para as suas terceiras olimpíadas. Quem marcha por gosto não cansa, ou as pernas já começam a pesar? Se me tivesse perguntado isso no ano passado eu diria que sim. Este ano não! Comecei a ver o treino e a competição de outra forma. Estou na parte final da minha carreira mas isto ainda me faz muita falta e estou a trabalhar ainda com mais prazer. Quero aproveitar todos os momentos até ao final da carreira.
E o final da carreira já tem data marcada? Ainda não. Tinha pensado em 2016. Tendo o curso de enfermagem terminado, ser mãe talvez fosse o ponto final. Mas agora sinto que isto ainda me faz muita falta.
Vai adiar também a maternidade? Não. A maternidade é depois dos Jogos Olímpicos, mas quero voltar.
Qual é o seu “doping” para ter essa energia toda? É o prazer que sinto em treinar e competir. Tenho 12 anos de vida sem atletismo e 24 anos de vida com atletismo. É a minha grande paixão e continuo a gostar muito do que faço. Isso é fundamental. Quando for para a estrada treinar ou competir e não sentir esse prazer é porque tenho que fazer a minha vida de forma diferente.
Durante aqueles 20 quilómetros a marchar passam-lhe muitas coisas pela cabeça? Passam. Por vezes são momentos muito difíceis, mas noutros, como nas provas em que fiz recordes pessoais, os 20 quilómetros até passaram muito rápido (risos).
Perder nem a feijões ou o que importa é dar o máximo? Gosto sempre de fazer o meu melhor e de ir aos meus limites. Mas com os anos de carreira deram-me maturidade. Sinto que estou a treinar muito bem, nunca estive a treinar tão bem, mas estou calma. Não posso esticar mais. Porque se esticar mais pode correr bem mas também pode correr mal… Por isso vamos pelo seguro.
Costuma sonhar com a subida ao pódio? Não. Já ganhei uma medalha na Taça do Mundo, esse dia foi fantástico para mim e é óbvio que gostava de voltar a subir ao pódio. Mas para mim o objectivo é o top 10.
Ter tantos atletas de Rio Maior na comitiva facilita a ambientação ou não vai haver muito tempo para o convívio? Quero desfrutar essa parte também, porque normalmente sou muito de competição e não tenho desfrutado muito essa parte. Este ano tenho tentado fazer as duas coisas. Sou rígida nos horários e no treino mas tento ser mais descontraída na outra parte. Somos muitos de Rio Maior, que é sem dúvida uma cidade do desporto com condições fantásticas para treinar.
Vai sentir a falta da sua conterrânea Susana Feitor na comitiva? Gostava que ela tivesse conseguido um lugar. A Susana sem dúvida merecia ter um final de carreira digno como os Jogos Olímpicos, por tudo o que deu à marcha e ao atletismo português. Infelizmente a lesão não a deixou mas ela ainda há-de ter um final de carreira bonito e terminar de forma digna.
Um marchador de topo em Portugal consegue viver só do atletismo? Neste momento consigo viver só do atletismo. Não dá para enriquecer e se não tivesse o apoio do Comité Olímpico tinha que me fazer à vida. Estou num clube pequeno, não há patrocínios e neste momento, para além do Comité Olímpico, quem também me apoia é a Desmor, que me dá algum dinheiro. Nada de extraordinário mas sei que dão o que podem.
Nunca foi convidada para mudar de clube? Fui convidada mas nessa altura não era a melhor opção. Agora, ao fim de 24 anos e já perto do final da carreira, só peço aos responsáveis de Rio Maior que me apoiem, porque quero terminar no meu clube de sempre.
Como é que passa o tempo nos dias antes de entrar em prova? São os dias mais calmos. Agora antes dos Jogos, quando sairmos de Portugal (no dia 10 de Agosto) já temos o trabalho feito. Lá também vamos treinar, mas em ritmos baixos. Depois é estar tranquila, estar com os outros atletas e se tiver oportunidade de ver provas vou aproveitar. Vou estar descontraída.
Vai haver tempo para conhecer alguma coisa da cidade? Antes da prova não dá. E depois da prova, que é nos últimos dias, também não vou ter muitas hipóteses.
Costuma tentar conhecer alguma coisa dos sítios onde compete? É conforme. Se as nossas provas forem nos últimos dias não temos muitas hipóteses. Se forem logo nos primeiros dias ainda há oportunidade de visitar alguma coisa. Mas, basicamente, o que nós conhecemos melhor é aeroportos, hotéis e estádios.
Possivelmente, no Rio vai apanhar calor e humidade com fartura. Que truques usa para se adaptar ao clima? Na prova é tentar hidratar o mais possível, os abastecimentos estarem o mais adequados possível e vamos ver…
Prefere o calor ou o frio? Prefiro o calor. Mas tenho boas e más experiências nos dois casos. Depende da forma em que estamos. Quando estamos bem, estamos bem em todas as circunstâncias.
É uma pessoa optimista ou sofre por antecipação antes das provas? Já sofri mais por antecipação. Quando realizo o treino dentro dos objectivos estou mais tranquila. Este ano estou mais calma. O meu corpo tem demonstrado que ainda tem energia e é o ano em que estou a treinar melhor.
Leva alguma bandeira nacional na bagagem, para a eventualidade de chegar ao pódio? O Comité Olímpico de Portugal deu-nos um kit em que está a bandeira nacional e claro que a vou levar para a prova.
Os atletas hoje são muito mediáticos. Tem preocupações com a imagem que passa para o exterior? Aqui em Rio Maior praticamente toda a gente me conhece e não tenho grandes preocupações com a imagem. Sou uma pessoa descontraída. Mas tenho algum cuidado com o que coloco nas redes sociais como o Facebook ou o Instagram, pois toda a gente vê. Publico sobretudo coisas sobre o meu trabalho. A minha vida privada fica mais à margem, não gosto de me estar a expor.
As notícias sobre o vírus Zika não a puseram a pensar duas vezes antes de decidir ir aos Jogos Olímpicos? Para quem quer engravidar é de pensar, como é óbvio. Mas o que tem de acontecer acontece. Se estivermos muito preocupados parece que as coisas negativas vêm ter connosco. Estou tranquila.
Começa as provas com o pé direito? Não. Não tenho nenhuma superstição.
Já imaginou como vai ser a sua vida após deixar a alta competição? Essa é uma pergunta que me têm feito frequentemente. Já sou enfermeira e posso exercer, mas optei por não trabalhar até estes Jogos Olímpicos. Depois vou pensar nisso. Quero ser mãe após os Jogos e quero voltar à competição se o meu corpo permitir. Ainda é tudo uma incógnita. Tenho várias opções, pois também tirei o curso de massagens.
Foi-se preparando para o futuro. O saber não ocupa espaço e eu tenho feito algumas formações a pensar no futuro. Porque isto tem um prazo de validade. Vejo muitos colegas meus que terminam a carreira e não têm nada a que se agarrar. Tentei sempre organizar a minha vida, pois quando sentir que o meu corpo não está a render quero poder fazer a minha vida de outra forma e ser também reconhecida como enfermeira ou como massagista.
Ser atleta de alta competição obriga a alguns cuidados com a alimentação. É um bom garfo? Gosto de comer, é uma coisa que também me dá prazer, mas felizmente não tenho grandes problemas em termos de peso. Quando quero perder peso tenho alguns cuidados e consigo perder, não tenho que estar com grandes dietas.
De vez em quando dá uma facadinha na dieta? Claro, como toda a gente! Não podemos estar obcecados pois isso também faz mal à cabeça.
Do que é que se vai desforrar quando deixar de ter esta vida tão regrada? Tive a minha fase de sair à noite quando era mais jovem, mas tinha de saber quando é que o podia fazer. Geralmente era nas férias ou em períodos menos competitivos. Mas isso hoje já não me faz falta. Gosto de estar mais por casa e de fazer uns jantares com amigos.

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