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Uma hora de conversa entre dois presidentes de câmara sempre a jogar à defesa

Uma hora de conversa entre dois presidentes de câmara sempre a jogar à defesa

O social-democrata Ricardo Gonçalves de Santarém e o socialista Pedro Ribeiro de Almeirim. Conseguir que dois presidentes de câmara falem entre si sobre o que quiserem, menos de política, sem a intervenção de um moderador, não é tarefa fácil. Conseguir que se abram por completo, como se a conversa não fosse para ser lida por eleitores...é completamente impossível! Duetos improvisados entre quem toca sempre a mesma música.

Edição de 11.08.2016 | Sociedade

“Fui presidente da Junta de Freguesia de Azóia de Baixo durante um mandato mas ganhei a Junta duas vezes”. A história foi contada pelo presidente da Câmara Municipal de Santarém, Ricardo Gonçalves (PSD), no decorrer de uma conversa sem temas previamente definidos, com o presidente da Câmara de Almeirim, Pedro Ribeiro (PS) na redacção de O MIRANTE.
O desafio que lhes tinha sido lançado era de falarem um com o outro sobre o que quisessem, tentando evitar os assuntos de política autárquica que lhes ocupam os dias. A ideia era dar a conhecer aos leitores um outro lado dos cidadãos que ocupam cargos de responsabilidade, aproveitando o facto de ser tempo de férias.
A conversa demorou cinco minutos a arrancar, depois avançou aos solavancos e só começou a fluir melhor quando ambos conseguiram refugiar-se na sua actividade política, nos seus percursos políticos e nos episódios vividos na política.
Foi na altura em que os dois autarcas falavam sobre a idade em que tinham sido eleitos para cargos autárquicos que Ricardo Gonçalves recuperou a história das duas vitórias eleitorais na freguesia de onde é natural.
“Fui eleito presidente de Junta aos 25 anos. Nessa altura já estava no PSD. Mas anos antes, quando era da JSD, já tinha ganho a Junta. Eu era delegado do PSD na mesa das eleições. A contagem dos votos deu um empate entre PSD e PS mas havia um boletim de voto que eu contestei porque no quadrado referente ao PS em vez de uma cruz estava uma coisa parecida com um “Agá”. A Comissão Nacional de Eleições deu-me razão e o partido ganhou as eleições por um voto”, contou.
Atento, Pedro Ribeiro, não desperdiçou a oportunidade. “Devias ir para presidente do Sporting, porque já tens experiência de ganhar na secretaria”, ironizou.
O facto de Ricardo Gonçalves ser sportinguista e Pedro Ribeiro benfiquista serviu também de muleta para a conversa em que os dois jogaram mais à defesa do que a selecção nacional de futebol durante a fase final do Euro.
O encontro foi no dia 5 de Julho ao fim da tarde. O presidente da Câmara Municipal de Almeirim chegou à redacção do jornal com quarenta minutos de atraso em relação à hora marcada, devido a uma reunião que se prolongou mais do que ele tinha previsto. Assim que ficaram os dois lado a lado, em frente a um painel com capas de edições de O MIRANTE e foram avisados que estavam por conta deles, começaram as dificuldades.
“Com vocês a fazerem perguntas isto era muito mais fácil. Sei lá eu o que hei-de perguntar?!”, disse Pedro Ribeiro. Ricardo Gonçalves deu-lhe razão. “Eu pensava que haveria um moderador. Quando fui convidado até sugeri que houve três autarcas de forças políticas diferentes porque imaginei um debate sobre questões autárquicas”.
Já para o fim da conversa o autarca de Almeirim, que também é presidente da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo - CIMT acabou por contar alguns episódios relacionados com confusões motivadas por se fazer acompanhar pelo secretário executivo daquela organização intermunicipal, António Torres, quando ia a reuniões oficiais a Comissões de Coordenação de Desenvolvimento Regional (CCDR) ou outros organismos.
“Um dia fui com o António Torres ao Ministério das Finanças. À chegada disseram-nos que aquilo estava um ‘bocadinho’ complicado. Ele, que uma vez em Évora tinha sido tratado por meu motorista, decidiu vingar-se e trocou os papéis. ‘Não há problema. O motorista fica aqui’ disse ele apontando para mim. Levaram-no a sério e quando chegou a altura de entrarmos tivemos que perder algum tempo a explicar que a minha presença era essencial para assinar os documentos”.
As histórias de convívios, almoços e copos que os dois aceitaram contar envolveram sempre presidentes de câmara e vereadores da Lezíria do Tejo. Os pormenores mais picantes nunca foram revelados. Para o ano há eleições locais e qualquer mal-entendido pode ser prejudicial a dois presidentes de câmara que cumprem os seus primeiros mandatos e que querem voltar a vencer.
“Também tenho uma ou outra história com jornalistas. Aqui com o António Palmeiro, por exemplo, quando viajei com ele à Expo 92 em Sevilha. Mas são coisas de que não se pode falar aqui”, brinca o presidente da câmara de Almeirim quando o jornalista o pressiona para contar como angariava membros para a JS nos bares da cidade.
Ricardo Gonçalves lembra o jogo de futebol entre presidentes de câmara e vereadores realizado o ano passado em Rio Maior e lembra Pedro Ribeiro que na altura ele ficou de marcar um jogo de basquetebol em Almeirim. O assunto trás à baila o percurso de basquetebolista do presidente de Almeirim.
Na região há dois presidentes de câmara com o nome Pedro Ribeiro (Almeirim e Cartaxo) e ambos jogaram basquetebol na juventude. Ricardo Gonçalves quer saber quem costumava ganhar mais vezes.
“Era Almeirim que ganhava mais vezes.”, responde com orgulho o presidente da câmara de Almeirim. E acrescenta, “Foi de tal maneira que ele acabou por vir jogar para Almeirim. Jogou pelo menos um ano. Ele é um ano mais velho que eu mas chegámos a jogar juntos”.
O presidente da Câmara de Santarém não jogou basquetebol mas era um craque no futebol. Aproveita o facto do seu colega estar a falar dos tempos em que era mais magro e tinha mais cabelo para falar dos seus dotes futebolísticos e...capilares.
“Eu usava cabelo comprido, tipo rabo de cavalo. Quando jogava à bola era o ídolo da malta...”, lembra. Oportuno, Pedro Ribeiro ironiza. “Esse rabo de cavalo agora dava-te jeito para conquistares votos à esquerda”. Os dois riem com gosto.

O Pedro Ribeiro rico e o Pedro Ribeiro pobre

Os presidentes da Câmara de Almeirim e do Cartaxo têm o mesmo nome próprio e apelido. Como a Câmara do Cartaxo está numa situação financeira mais apertada que a de Almeirim o presidente da Câmara de Santarém refere-se aos dois como o Pedro Ribeiro rico e o Pedro Ribeiro pobre. E a propósito dos nomes iguais, o presidente de Almeirim conta uma história de uma confusão que tal provocou.
“Na altura da campanha eleitoral de 2013 houve um conhecido do meu pai que o abordou dizendo que tinha visto uma fotografia minha e que eu, além de estar muito magrinho, ainda por cima era identificado como candidato do PS no Cartaxo. E até lhe perguntou: ‘Então ele não era candidato aqui em Almeirim’?”.
O relato é comentado de forma brincalhona por Ricardo Gonçalves. “Mas as confusões são só ao nível político ou também há confusões a outros níveis?”.

Quantos menos filhos mais presenças em festas populares

A conversa começa com o arreigado sportinguismo da filha do sportinguista Ricardo Gonçalves e dos receios relativamente à catequização clubista do segundo filho que está para nascer em Setembro.
“A minha filha Beatriz é uma grande sportinguista e o meu filho que vai nascer em Setembro também irá ser...até porque a irmã também me vai ajudar a convencê-lo. Sei que o meu irmão Luís e o meu sogro vão tentar fazer dele um benfiquista mas não vão conseguir. Basta ver que a minha filha tem uma dignidade sportinguista que me espanta. De cada vez que o avô lhe dá qualquer coisa do Benfica ela chama-me para eu a ver meter a prenda no lixo”.
Pedro diz que o avô do seu filho já lhe anda a perguntar quando é que pode levar a criança à “catedral” (estádio da Luz). Ricardo reflecte sobre a importância dos filhos. “Sermos pais dá-nos outra visão...com o teu Francisco vai-te acontecer o mesmo. Vou com a minha filha e ela vê um contentor estragado numa rua e diz-me logo que tenho que resolver o assunto. Eu gostava de ter três filhos”, confessa. Depois, perante o silêncio do parceiro de conversa começa-se a rir. “Já percebi. Para ti já chega um. Agora começo a perceber porque vais a mais festas populares que eu!”.

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