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Instituição em Fátima é o lar de crianças que ninguém quer

Instituição em Fátima é o lar de crianças que ninguém quer

Joaquim Guardado não é a mão que embala o berço, apesar de também o fazer, mas o tutor de cerca de 80 deficientes profundos rejeitados pela família ou cujos familiares não têm condições para os criar. O ex-autarca não tem filhos. Estes meninos diferentes são os seus.

Edição de 09.02.2017 | Sociedade

Stefano tem um ano de vida e chegou ao Centro de Apoio a Deficientes João Paulo II, em Fátima, há alguns dias. O bebé chegou depois de ser sinalizado pela Segurança Social. Foi abanado repetidamente e com violência por um dos pais ao ponto de as “sacudidelas” lhe terem causado uma deficiência profunda e irreversível. Stefano é o mais novo dos cerca de 80 “filhos” do advogado e antigo autarca de Pombal, Joaquim Guardado, director do centro e tutor destas crianças que estão “no fim da linha”. São deficientes profundos que “ninguém quer”, nem os próprios pais, ou cujos progenitores não têm capacidade financeira (e não só) para os criar.
A maioria dos 192 utentes nunca se irá levantar da cama. Os felizardos são aqueles que andam (são dois) ou que se podem deslocar de cadeira de rodas (pouco mais de duas dezenas). Muitos têm deformidades físicas extremas. “A primeira vez que aqui entrei levei um murro no estômago”, confessa Joaquim Guardado a O MIRANTE.
Foi há dez anos e agora não quer sair. “Sou apaixonado pelo que faço. Gosto deles. Aliás, é preciso gostar muito deste trabalho para o fazer bem”, sublinha. A ajudá-lo tem um “exército” de 200 funcionários, sem contar os voluntários. Esta é uma casa gigante - a maior do país. Pertence à União das Misericórdias e tem a especificidade de receber utentes de todas as zonas.
Para recriar um ambiente familiar, o Centro João Paulo II encontra-se dividido por módulos. Cada um deles alberga 12 rapazes ou 12 raparigas. Funcionam como pequenas casas dentro da grande casa. Cada módulo é gerido por uma equipa que recebe um orçamento para gerir à sua maneira. O espaço é asseado e tem um cheiro agradável, exactamente o contrário do que se espera de um “lar de deficientes”.

Ao tutor pedem rádios e pequenos mimos
Aos 61 anos, o também provedor da Santa Casa de Misericórdia de Pombal dedica três dias por semana ao centro. No dia em que visitamos a instituição, entrou em todas as salas - de terapia ocupacional e de fisioterapia, no atelier de costura e de actividades lúdicas, na escola do centro, nas cozinhas e na lavandaria. Cumprimentou todos com quem nos cruzámos pelo nome. A visita foi por isso feita em contra-relógio: “Não queria mostrar-lhe uma sala e não lhe mostrar outra. Aqui têm todos os mesmos direitos”, acabaria por explicar depois. Apesar do passo largo - Joaquim Guardado mede bem mais do que 1,80m - fez paragens sempre que um dos seus “filhos” o interpelou. “Já falei sobre o que me pediste. Vais ter o teu rádio, Sofia”. Em resposta, recebeu uma gargalhada de alegria.
“Tem de ver as pestanas do Nathaniel, são lindas”. A frase sai disparada dos lábios de Joaquim Guardado quando paramos em frente a uma das várias paredes com fotografias dos utentes. Nathaniel é um mulatinho de pestanas reviradas. Joaquim Guardado faz-lhe festas na cabeça. Aliás, o tutor toca, abraça, beija e encosta o rosto e comunica como pode com todos eles. “É uma aprendizagem diária. O que aconteceu com o Francisco é exemplo disso”. O menino, de cinco anos, é cego, surdo e mudo e tem um cabelo louro de anjo. Um dia em que estava ser alimentado não parava de se abanar. Joaquim aproximou-se e fez-lhe festinhas na cabeça e ele acalmou. “Agora usamos o seu truque”, diz uma das funcionárias ao tutor. Mais à frente iremos encontrar o Samuel, de 11 anos. “É muito emotivo e comunicativo, é muito fácil gostar dele”. Frequenta o 5º ano de escolaridade e foi nomeado delegado de turma.

Há crianças que recebem a alimentação directamente no estômago
Os “Rodas Dançantes” são raparigas e rapazes que fizeram, em conjunto com os terapeutas, um grupo de dança. Quando entramos na sala onde estão a decidir coreografias e músicas, a terapeuta atira para o tutor: “Doutor, precisamos da sua voz de rádio para a voz off”. Joaquim Guardado envolve-se. As funcionárias levam as crianças que se conseguem deslocar para as suas casas na época de Natal. Ali ninguém fica sem família, sem uma mão, um embalo. Existe amor a rodos. Apesar de ser duro trabalhar no centro. Há crianças pequenas, de pestanas encaracoladas e cabelo louro, que precisam de ser alimentadas através do estômago. Sem pai nem mãe.
Joaquim Guardado fala destes casos e não consegue evitar as lágrimas. É um gigante a chorar à nossa frente, é um homem que não teve filhos a chorar os filhos dos outros, agora seus, por ordem de um tribunal e pelo comando do seu coração. É um ex-político a explicar a palavra misericórdia: “Sentir o sofrimento do outro como se fosse nosso e fazer algo para o aliviar”. Pede desculpa, enxuga as lágrimas e aponta para uma das fotografias coladas na parede do seu gabinete. É de um menino de óculos graduados e cabelo encaracolado. “Olhe ali o Samuel”. O filho.

O benfiquista do centro

Nem todos têm a “sorte” de Tiago. Entrou no centro com cinco anos e vai fazer 30. Adepto ferrenho do Benfica, não quer largar a mão e o abraço de Joaquim Guardado. Falam de futebol e riem cúmplices. O jovem mostra o seu “Ferrari”: uma cadeira de rodas que lhe permite ficar de pé. “Foram os meus pais que me deram”, conta. Mas não é verdade. Ivone e António - que angariaram o dinheiro para esta cadeira de rodas de última geração - não são os pais de Tiago. São os seus padrinhos. Foram eles quem lhe ofereceu a aparelhagem, o plasma e o PC que tem no quarto.

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