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A segunda geração Parreirita Cigano brilha nas arenas
Ambição. Carlos Conceição tem a ambição de ser uma figura de toureio

A segunda geração Parreirita Cigano brilha nas arenas

Foi prémio revelação do ano da última temporada tauromáquica e prepara-se para tirar a alternativa como cavaleiro este ano. Parreirita Cigano é o nome com que se apresenta nas praças Carlos Miguel da Conceição, um jovem do Cartaxo que continua a tradição familiar ligada à festa brava.

Edição de 16.02.2017 | Sociedade

Herdou o nome artístico do pai, o matador de toiros Parreirita Cigano, mas tornou-se cavaleiro tauromáquico. Carlos Miguel da Conceição, 29 anos, é natural do Cartaxo e em Janeiro recebeu o prémio Revelação do Ano dos troféus “Farpas/Volapié”, no Campo Pequeno, em Lisboa. Este ano vai tirar a alternativa, em Julho ou Agosto.
Foi com “honra e privilégio” que recebeu o prémio numa praça que diz transmitir uma energia positiva, mas quando a hora é de montar o cavalo não tem nenhuma superstição, revela. A única coisa que faz é evitar ver os toiros antes da corrida - “sinto-me melhor em vê-los só na praça”. Mas mesmo com prémios Parreirita não deixa de ter os pés na terra. “Não é fácil viver da tourada. Claro que as corridas ajudam financeiramente mas ainda estou a construir uma carreira e ser figura do toureio é um sonho”.
E a alternativa prevista para este ano é o culminar de um sonho: “Desde que comecei a tourear que me preparo para a alternativa. Vai ser uma noite muito bonita porque afinal é o doutoramento disto tudo”, diz entre risos. “É o resultado de muitos anos de sacrifício e é o princípio de uma nova fase da minha vida, como cavaleiro profissional, com mais responsabilidades e mais trabalho”.
As raízes ciganas e a paixão pelos cavalos
Filho de pai de Coruche e de mãe de Vila Chã de Ourique, concelho do Cartaxo, Carlos diz ser cigano com orgulho, apesar de reconhecer que só lhe corre nas veias 25% de sangue cigano - a avó paterna era cigana e o pai metade. Mantém poucas vivências de uma etnia muitas vezes marginalizada pela população, mas afirma ter nascido no seio de uma família integrada no Cartaxo.
Pai, mãe e mais cinco irmãos nunca levaram a vida de nómadas e a vida e trabalho honestos são sublinhados pelo cavaleiro que dá o exemplo do pai que, depois de deixar as praças, cria e vende gado, ou dos irmãos que têm o ensino secundário ou superior concluídos.
Mesmo com um pai novilheiro, desde criança que Carlos preferiu o toureio a cavalo. “Sempre tive uma paixão tonta por cavalos e tourear a pé nunca me despertou tantas emoções”, afirma. Na escola nunca se sentiu excluído pela etnia mas por falta de condições financeiras não seguiu as pisadas de um irmão que tirou gestão equina, tendo ficado pelo nono ano de escolaridade.
Trabalhou numa quinta perto de casa e pouco tempo depois estava na Quinta do Açude, no Cartaxo, onde trabalha há oito anos. Trata dos cavalos, das cocheiras, desbasta poldros e ainda treina e aprende com o ex-cavaleiro tauromáquico Manuel Jorge Oliveira, seu mestre. Tudo numa casa a que está ligado desde criança.
“Isto andava sempre na minha cabeça, na escola vinha para cá, montava a cavalo e treinava com vacas, até que comecei a vir durante as manhãs e aos fins-de-semana. Nessa altura cheguei a conviver com os toureiros Filipe Gonçalves ou Paulo Jorge Ferreira que acompanhei e ajudei em corridas. E também cheguei a fazer toureio a pé aqui mas nunca resultou bem, tenho mais medo do que a cavalo”, diz entre risos.
Parreirita Cigano pisou pela primeira vez um palco a 22 de Junho de 2012 na Praça de Toiros do Cartaxo, cidade onde cresceu, e um ano mais tarde, em Outubro de 2013, passou de cavaleiro amador a praticante numa prova onde apanhou o seu maior susto. Após espetar um ferro o cavalo escorregou e Parreirita ficou com uma perna debaixo dele. “A minha sorte é que o toiro nunca passou para o meu lado. As pessoas ajudaram-me logo, não tive mazelas e ainda pus mais três ferros”, conta.

Pai e filho já tourearam juntos

“Nunca pensei que iria tourear com o meu pai”, diz Carlos Miguel sobre o encontro em Setembro de 2014 no Cartaxo. “Foi um sentimento muito bom depois do meu pai ter passado pelo que passou”, diz. “Foi um acto de valentia de uma pessoa que não pegava num capote há quase 20 anos, que treinou pouco e que estava gordo”, acrescenta com orgulho.
Carlos Alberto da Conceição esteve na prisão 14 anos, até 2014, condenado pela morte de um amigo num café no Cartaxo, num caso que nunca ficou bem explicado. “As pessoas do Cartaxo apoiaram-nos bastante, conheciam a história e nunca ficaram de pé atrás connosco”, afirma. “Emocionalmente não foi fácil, saber onde estava o meu pai e querer andar para a frente. Mas eu e os meus irmãos somos muitos unidos”, refere.
Sobre o pai, Parreirita diz ainda: “Ele adora isto e nunca teve medo que o filho entrasse na tauromaquia. Revê-se em mim e quando está nas praças fica emocionado e revive os momentos que passou. Não é fácil seguir com a dinastia - é uma questão de honra -, ele era um bom toureiro e com este nome eu tenho de fazer as coisas muito bem”, admite.

“A tauromaquia nunca acabará pelos que estão contra”

Parreirita não é radical na defesa das touradas. “Não critico os anti-taurinos, se não gostam não vejam. Só não precisam de nos tratar mal, basta respeitarem-nos”, aponta. “E se a tauromaquia tiver que acabar não será pelos que estão contra, acabará naturalmente. Mas se a festa terminar as pessoas não têm noção dos postos de trabalhos que se perdem”, afirma.

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