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“Já tive que sair de um Tribunal de Família com escolta policial”
Raquel Caniço, 44 anos, advogada em Vila Franca de Xira
Raquel Caniço é um nome familiar na advocacia vilafranquense, com escritório localizado a poucos metros do tribunal. Formou-se em 1998 numa profissão que diz adorar apesar de já sentir falta de um horário fixo das nove às cinco da tarde. Diz que nem sempre as sociedades de advogados são a melhor escolha para defender os clientes. Gosta de fotografia, de viajar e de passar tempo com a família. Não gosta de pessoas arrogantes nem hipócritas.
A advocacia é uma doença. O meu pai, Manuel Caniço, já era advogado quando decidi seguir essa profissão [e ainda advoga] e agora o clã está a crescer. Já tenho a estagiar comigo a minha sobrinha, Rita Caniço Albano. Gosto de praticar uma advocacia de proximidade, conhecer os clientes e os funcionários judiciais com quem partilhamos o terreno todos os dias. Isto não é um emprego das nove às cinco, é permanente. E gosto do que faço.
Há colegas que dizem que a advocacia em prática individual está obsoleta e ultrapassada. Segundo eles isso acontece por não haver o critério da especialidade que há nas sociedades de advogados. Eu não penso assim. Nós somos uma face que se vê diariamente e que é contactável a qualquer hora e não alguém que está fechado num empreendimento em Lisboa a despachar processos como se estivesse numa unidade fabril.
Há muitas sociedades a recrutar estagiários às dezenas mas nem sempre pelos melhores motivos. Infelizmente o estagiário quando é bom e dedicado é uma ferramenta de trabalho apetecível sem grandes custos. Na generalidade do que vejo os alunos vêm bem preparados das faculdades mas nem sempre sabem pôr a teoria na prática. Acho que não devem desanimar à primeira ou frustrar-se nas vicissitudes dos processos. Neste trabalho nunca se pode desistir, nem no primeiro nem no último momento. Podemos mudar a estratégia e adaptar-nos à mudança. Mas desistir não é uma palavra que goste de usar.
Gosto muito de decoração e sou apaixonada pela fotografia. Tenho várias máquinas fotográficas em casa. Sou fã das analógicas, de rolo, mas tive de me adaptar às digitais. De há um tempo a esta parte não tenho fotografado tanto porque é preciso tempo para o fazer. Mas tenho no escritório várias fotos emolduradas que tirei ao longo do tempo. Cativa-me na fotografia a ideia de conseguirmos reter a vida num segundo e ela ficar para sempre naquela imagem.
Os meus tempos livres são para passar com as minhas filhas. Vamos ao cinema e à praia. Passeamos, gostamos de conhecer restaurantes novos, ver exposições. Mas é muito difícil conseguir desligar do trabalho. Às vezes penso em trabalho nos sítios mais estranhos que se possa pensar. Detesto a arrogância e a soberba. A hipocrisia também me irrita.
A reorganização dos tribunais prejudicou Vila Franca de Xira. Na parte do crime foi um erro gravíssimo. Do ponto de vista prático temos verdadeiras aberrações processuais que estão a acontecer entre os tribunais de Vila Franca de Xira e Loures que não fazem sentido. Há pessoas a serem ouvidas em primeiro interrogatório aqui na cidade que depois vão a Loures para outras diligências e se o caso for de primeira instância regressam cá. Há também arguidos daqui a serem ouvidos em Loures com testemunhas em Vila Franca de Xira a serem ouvidas em videoconferência. Estamos a ocupar dois tribunais e a duplicar meios para o mesmo julgamento e isso não faz sentido.
Já fiz algumas viagens de sonho mas tenho muitas mais que quero fazer. Sou uma eterna sonhadora. Malásia, Indonésia, Vietname, Birmânia e Cambodja, são destinos que me fascinam.
Já fui desafiada para ir para a política e não quis. Há muitos advogados que estão na política. Penso que isso acontece porque a política é uma actividade altamente sedutora para quem faz advocacia. Para o bem e para o mal.
Já meti as mãos no fogo por um cliente e depois vi que fui enganada. Fui aprendendo com a vida. É uma frustração muito grande quando somos enganados. Irrita-me porque é a minha cara que está em jogo. E já tive duas situações complicadas de ameaças. Numa delas tive de sair do tribunal de família e menores com escolta policial. O caso tinha a ver com menores retirados aos pais porque estavam a ser muito negligenciados. Os pais acharam que eu era a culpada. Da outra vez tratava-se de um cliente que era muito maltratado pelo filho e que depois me ameaçou. A vida vai-me ensinando umas coisas e uma delas é aprender a relativizar tudo.
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