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Desenferrujar o corpo para controlar a diabetes
Lucília Barrancos e Luís Cid

Desenferrujar o corpo para controlar a diabetes

Em Rio Maior os diabéticos vão à Escola de Desporto aprender, com aulas práticas, como o exercício físico é um dos pilares do tratamento e controlo da diabetes tipo 2. O Dia Mundial da Diabetes assinala-se a 14 de Novembro e foi comemorado com uma caminhada e com a realização dos exercícios habituais, mas ao ar livre.

Edição de 21.11.2018 | Sociedade

“Aqui desenferruja-se o corpo, são pequenos exercícios que parecem não ter grande importância, mas que nos fazem sentir muito melhor”, diz Bernardo Silva de 62 anos. Com diabetes do tipo 2 diagnosticada há mais de uma década, Bernardo é um dos participantes do programa Diabetes em Movimento que acompanhámos no pavilhão da Escola Superior de Desporto de Rio Maior.
Este programa combina, na mesma sessão, exercício aeróbio, resistido, de agilidade, equilíbrio e de flexibilidade. Todas as actividades são realizadas com materiais de baixo custo, como cadeiras de plástico, garrafas de água cheias com areia, pequenos halteres, bolas de mão e o peso do próprio corpo.
Rio Maior é o único concelho do distrito de Santarém que aderiu a este programa que resultou da tese de doutoramento do agora director do programa, Romeu Mendes, doutorado em Ciências do Desporto pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Luís Cid, encarregue da direcção técnica do programa em Rio Maior, refere que a Escola de Desporto faz parte do núcleo de investigação desportiva da UTAD tendo sido convidada a participar desde o início do projecto, há três anos.
Segundo Luís Cid, o programa existe actualmente em Vila Real, Maia, Rio Maior, Évora, Torres Vedras, Seixal e Viseu, mas devia ser implementado também noutros pontos do distrito e do país. A grande dificuldade é criar o compromisso. “Muitas autarquias têm um pavilhão onde podem decorrer as aulas, mas isso não basta. É necessário ter uma linha de apoio persistente que, além do espaço físico, inclui instrutores, enfermeiros e alguém responsável pela organização”, diz o director técnico. “Em Rio Maior, mesmo reunindo todas as condições, ainda levámos mais de um ano a implementar o plano”, desabafa.
Lucília Barrancos é a enfermeira de serviço no dia em que acompanhámos a aula do grupo composto por cerca de 25 elementos. Está ali para ajudar em qualquer eventualidade, mas sobretudo para fazer a avaliação da glicemia dos participantes, que tem que estar dentro do intervalo 100/300. “Todos os participantes fazem uma auto-avalição da glicemia em casa, aqui presto ajuda nalgum caso que fuja aos parâmetros definidos”, conta.
Por ano acontecem uma média de duas quedas, mas “nada de muito grave”, assegura a enfermeira. Luís Cid reforça que a parceria que têm com o Hospital Distrital de Santarém é mesmo para esse tipo de eventos, permitindo uma espécie de via verde para atendimento urgente de qualquer paciente que tenha um acidente no decorrer do programa.

Exercício físico como medicamento
Um estudo da Unidade de Investigação em Epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, divulgado recentemente, defende que é possível combater a diabetes com programas de exercício físico de “baixo custo, mas de elevada aplicabilidade”. O estudo sublinha que os decisores na área da saúde deveriam promover intervenções comunitárias de exercício físico, especialmente nos cuidados de saúde primários e nas estruturas residenciais para idosos.
Luís Cid não podia estar mais de acordo. Segundo o director técnico, o programa funciona como um medicamento que só traz vantagens. Os participantes continuam com os seus cuidados habituais, como a medicação, consultas e tratamentos médicos, alimentação e actividade física.
Maria Teresa Dias, de 66 anos, já perdeu a conta há quantos anos tem diabetes. Toma medicação, faz caminhadas, mas diz que de vez em quando faz asneiras e talvez por isso confesse que se sente bem, mas que ainda poderia sentir-se melhor.
Maria Teresa e Bernardo Silva são dois dos cerca de 40 inscritos, em Rio Maior. Todos foram referenciados quer pela Unidade de Saúde Familiar Salinas de Rio Maior quer pela Unidade de Cuidados de Saúde Primários de Rio Maior e todos têm que cumprir alguns requisitos, sendo os principais ter diabetes do tipo 2 diagnosticada e ter mais de 55 anos.

Diabetes em Movimento

O programa Diabetes em Movimento®, coordenado pelo Programa Nacional para a Promoção da Actividade Física da Direcção-Geral da Saúde, dura nove meses, entre Outubro de 2018 e Junho de 2019 e consiste em aulas gratuitas três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras, das 9h00 às 11h00. Em Rio Maior é desenvolvido numa parceria entre o Instituto Politécnico de Santarém, através da Escola Superior de Desporto de Rio Maior e da Escola Superior de Saúde de Santarém, o Município de Rio Maior, através da DESMOR, o ACES Lezíria - Administração Regional de Saúde Lisboa e Vale do Tejo, e o Hospital Distrital de Santarém.

Diabetes com custos elevados para o SNS

No Hospital Distrital de Santarém (HDS), o Núcleo de Diabetes, liderado por Cristina Esteves, acompanha cerca de 1800 doentes por ano, com uma equipa de oito clínicos e cerca de três mil consultas anuais. Grande parte dos casos que chegam ao HDS estão num estado muito avançado da doença. “Alguns são hipertensos, outros já sofreram enfartes, há os que estão em status pós-amputação, com retinopatias graves ou ainda com insuficiência renal já diagnosticada”, revelou Cristina Esteves a O MIRANTE,
aquando de uma entrevista relacionada com o Desafio Gulbenkian “NÃO à Diabetes!”.
A diabetes é considerada um dos maiores desafios do Sistema Nacional de Saúde, com mais de 13% da população (cerca de um milhão de portugueses) a ser afectado por esta doença crónica e com os custos associados ao seu tratamento a atingirem 1% do PIB e 12% de toda a despesa em saúde.

Desenferrujar o corpo para controlar a diabetes

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