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Há mais Marias na terra para além de Nossa Senhora de Fátima
A imagem de Nossa Senhora raramente sobe ao altar do santuário da Cova da Cruz

Há mais Marias na terra para além de Nossa Senhora de Fátima

A propósito do Dia Mundial da Religião, que se assinala a 21 de Janeiro, O MIRANTE foi conhecer de perto dois cultos marianos na região. Estes fenómenos, também conhecidos como avistamentos de Nossa Senhora, não são reconhecidos pela Igreja Católica mas estão bem presentes na vivência de muitos crentes. Em Asseiceira, Rio Maior, os peregrinos continuam a acorrer ao lugar há mais de 60 anos. Em Bugarrel, Tomar, a adoração parece estar a esmorecer.

Edição de 22.01.2019 | Sociedade

Um culto que morre aos poucos

Perto de Tomar, entre Serra e Chão das Maias, no lugar de Bugarrel, há um santuário que nunca entusiasmou nem foi reconhecido pela Igreja Católica Romana. Dizem os mais críticos que foi para não fazer sombra à Cova da Iria.
A origem da devoção popular da Cova da Cruz deve-se a Olinda do Céu, uma jovem de 14 anos que a 5 de Junho de 1947 teve uma visão de Nossa Senhora quando seguia a pé de casa, no Chão das Maias, para a igreja de Serra. A jovem, de origem humilde, viu em cima de um sobreiro uma senhora triste, num vestido roxo, com uma coroa em torno da cabeça. Desde então foram muitos os devotos que se deslocaram em romaria ao local, acreditando tratar-se de uma visão tão verdadeira como a de Fátima. Para acabar com a crendice vários homens da aldeia organizaram-se e mandaram abaixo a árvore.
António Francisco mora na Quinta do 14, a poucos metros do local de culto, e conta-nos que “os que cortaram o sobreiro, alguns ainda meus familiares, nunca mais tiveram sorte na vida. Nem os bois que carregaram a lenha escaparam. Deixaram de comer, levaram-nos para serem vendidos na feira de Santa Cita, mas acabaram por morrer”, lembra o septuagenário.
No lugar onde antes se erguia o sobreiro, e onde Olinda rezava todos os dias, foi construída uma capela. No espaço simples, sem paredes, e de telha vã, foi preservado o tronco da árvore da aparição. Está guardado por trás de um gradeamento de ferro pintado de azul, nas traseiras do pequeno altar onde não há imagem.
António conta que em tempos havia muitas oferendas de ouro e dinheiro, que ficavam guardados na parte fechada da capela, mas desapareceu tudo. A partir daí um senhor de Sintra ficou encarregue de guardar a chave. Morreu há uns anos e desde então a imagem permanece encerrada. Por cima do altar lê-se a inscrição “Vinde a Mim Todos”, mas as flores de plástico que rodeiam o espaço denotam que ali há muito não vai ninguém.

Foi o padre que estragou tudo
O vizinho da capela lembra também que várias pessoas lhe garantiram ter visto, na companhia de Olinda, o sol a dançar e a mostrar-se de várias cores. “Na altura a Igreja não tinha interesse em que houvesse aqui outra Cova da Iria e por isso o padre fez tudo o que pôde para abafar o caso. Foi o padre que estragou tudo”, conta António Francisco. Pouco tempo depois de muitos afirmarem terem visto as manifestações, acabaram por desmenti-las. Maria Olinda foi apedrejada na via pública e observada em hospitais psiquiátricos.
Entre os vários milagres de que há registo, António lembra a história de um homem coxo que todos os dias 14 rezava na capelinha até que um dia deixou de coxear e pendurou a bengala no interior do telheiro. Ali ficou durante mais de vinte anos como testemunho do feito.
Olinda faleceu em 1974, tinha 41 anos. O pároco recusou-se a sepultá-la dentro do cemitério. Por insistência do povo acabou por ser enterrada mesmo no limite, colada ao muro.

Deonilde Henriques é devota de Nossa Senhora da Asseiceira

Nossa Senhora é a mesma e esta sempre fica mais perto

Judite e Luís Costa são de Santarém. Visitam a capelinha de Asseiceira, Rio Maior, com mais frequência desde a doença da filha. “Faleceu há dois anos e passou por oito anos de sofrimento a lutar contra um cancro”, diz a mãe de voz embargada. Definem-se como católicos “não muito assíduos”, frequentam a missa sempre que se celebra um mês da data do falecimento da filha. “Também vamos a Fátima, mas a Nossa Senhora é a mesma e esta sempre fica mais perto”. Sabem que o local e o fenómeno não são reconhecidos pela Igreja Católica Romana mas dizem que cada um sente à sua maneira e acreditam na Nossa Senhora de Asseiceira.
Carlos Alberto da Silva Delgado afirmou ter visto Nossa Senhora a 16 de Maio de 1954, em cima de um loureiro, perto da casa da professora primária, tinha 11 anos. A sua teimosia foi reprimida pela Igreja e pela GNR, mas as autoridades não conseguiram evitar que acorressem à Asseiceira dezenas de milhares de peregrinos nesse ano, nem que continuem a acorrer ao espaço todos os dias, principalmente ao dia 16, vários crentes na Nossa Senhora. Carlos Alberto morreu aos 37 anos vítima de acidente de viação.
Idalina Soares, 83 anos, vive em Asseiceira há cerca de 50. Vai à missa quando pode e é crente de Nossa Senhora. Também vai a Fátima e acredita em tudo o que se passou tanto em Fátima como ali. “A Igreja não queria que a gente acreditasse, mas a gente é que manda. Sinto-me aqui bem, gosto de cá vir fazer as minhas rezas”, declara. O terço reza-se todos os dias na capelinha, às 17h30, há 50 anos, conduzido por Georgina Silva.
Dez minutos antes da hora marcada começam a chegar os devotos. São sobretudo mulheres, com mais de 50 anos, e vêm munidas de mantinhas que colocam sobre os joelhos. Além de Manuel Marques Leonor, guardião do espaço, está também presente Luís, parente e amigo do vidente. “Conheci-o bem, pediu-me que nunca deixasse de cá vir e é o que tenho feito”, diz correndo apressado para a capela com um molho de velas na mão que irá queimar depois de rezar o terço. “Eu não vi nada, mas acredito no que o Carlos viu”, confessa.
Manuel Marques Leonor tem 80 anos, 60 dos quais vividos em Asseiceira. Foi cantoneiro na Câmara de Rio Maior e, quando a reforma chegou, dedicou-se à função de guardião da capelinha. Diz que também ele presenciou o fenómeno estranho que fez bailar o sol e é ele quem guarda a chave dos quatro pequenos compartimentos, situados ao fundo do largo, onde se guardam as oferendas feitas a Nossa Senhora. É também ali que se guarda o andor que todos os meses ao dia 16 sai em procissão. A seu cargo tem ainda a lojinha onde se vendem imagens da Nossa Senhora e livros com a história de Carlos Alberto. “Nos dias de procissão há muita afluência. Hoje vendi apenas um livro”, desabafa o idoso.

Hoje o culto é tolerado pela Igreja Católica
Durante mais de 20 anos a diocese de Santarém proibiu a realização de missas no local. Em 2005 foi construída uma capela de linhas contemporâneas que alberga no seu interior a pequena capela original construída pelo povo. As obras foram financiadas pelo patriarcado de Santarém. “O bispo de Santarém já aqui veio fazer uma missa campal, mas não entrou na capelinha”, diz Idalina Soares a O MIRANTE.
O interior é espartano, apenas com alguns bancos e cadeiras de madeira. As paredes de vidro deixam entrever o loureiro sobre o qual Carlos Alberto afirma ter visto Nossa Senhora. Junto à entrada, à esquerda, na curta extensão de parede de alvenaria, estão dispostas fotografias de Carlos Alberto e da família. Abaixo há um pequeno armário de madeira onde se encontram velas e um livro de graças com vários pedidos e agradecimentos. Pede-se ajuda para familiares doentes, ajuda para esquecer um namorado e até auxílio para resolver a bem processos judiciais.

Há mais Marias na terra para além de Nossa Senhora de Fátima

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