Retrospectiva 2018 | 14-02-2019 14:49

Nos Bombeiros de Almeirim ninguém faz trabalho sozinho

Nos Bombeiros de Almeirim ninguém faz trabalho sozinho
Associação Humanitária dos Bombeiros de Almeirim é Personalidade do Ano na Cidadania

Os bombeiros da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almeirim, que em 2018 assinalou 70 anos de serviço à população, distinguem-se pela sua capacidade técnica, formação e espírito de união. É assim que eles justificam os seus altos níveis de operacionalidade. A corporação destaca-se também por ser um modelo de cidadania, com vários exemplos de dedicação, como a do comandante, Jorge Costa, que dá esta entrevista, que apesar de não ter de fazer serviços de ambulância, faz questão de ser incluído nas escalas e todas as semanas realizar trabalho de emergência pré-hospitalar, no terreno.

O que é que distingue os bombeiros de Almeirim?

Isso é fácil. Acima de tudo o potencial humano, de mulheres e homens, que todos os dias disponibilizam um pouco do seu tempo a esta causa, que é a protecção e o socorro à população, desde os directores, corpo activo, quadro de honra e escola de infantes e cadetes.

A corporação é das que na Lezíria tem mais elementos disponíveis para as ocorrências. Como se consegue isso?

Tem havido uma aposta na profissionalização. Hoje em dia a primeira resposta ao socorro deve ser assegurada no imediato. Em termos de efectivos do quadro activo contamos com 66 elementos. Destes, 25 são profissionais divididos em várias áreas, sendo que o socorro e o transporte de doentes são as que representam o maior número de serviços da corporação.

Com as cada vez maiores exigências e solicitações, as corporações não deviam ser totalmente profissionais?

A história das corporações está muito ligada ao associativismo e ao voluntariado. À necessidade que as pessoas sentiram de se juntarem para garantirem a sua protecção e socorrerem as populações. O voluntariado é importante, até porque a nossa instituição acaba por ser também uma escola de cidadania e de valores e é desta forma que se consegue chegar mais próximo das pessoas. Agora a primeira resposta deve estar garantida com efectivo profissional, para não estarmos dependentes da disponibilidade de elementos que têm a sua vida profissional em outras áreas.

Esta aposta na profissionalização nos Bombeiros de Almeirim faz com que a vossa intervenção já ultrapasse os limites do concelho.

É verdade, sobretudo na área da emergência pré-hospitalar, em que há um número significativo de serviços fora do concelho. Mas as corporações de bombeiros também funcionam de forma articulada com o Comando Distrital de Operações de Socorro de Santarém. Isto permite que se uma corporação não tiver em determinado momento capacidade de resposta, a situação será assegurada pela corporação mais próxima.

Como é que se consegue captar elementos novos para os bombeiros?

Cada vez há mais dificuldade em recrutar pessoas para a formação base da carreira de bombeiro. No nosso caso a grande maioria dos elementos que vai frequentar o curso inicial de bombeiro vem da escola de infantes e cadetes. O gosto que têm pelos bombeiros, o que eles representam em termos de disciplina e trabalho de equipa, permite que venham já com essas bases. E é isso que nos tem ajudado. Das novas inscrições para o curso de formação, que exige disponibilidade, muitos acabam por desistir. Essa percentagem de desistências é muito menor entre quem já vem da escola de infantes e cadetes.

A que se deve esse menor interesse em ser bombeiro?

Os jovens actualmente têm muitas formas de se ocuparem e acabam por perder o espírito de associativismo e a motivação para contribuírem para a sociedade. Isso também se deve ao facto de a actividade dos bombeiros exigir disponibilidade e cumprimento de regras. É preciso sacrifício pessoal que é o que está a faltar nas camadas mais jovens.

O que é preciso para manter os níveis de operacionais que permitem socorrer as pessoas em tempo útil?

Além da disponibilidade, é precisa formação, treino regular e investimento em equipamento e viaturas. Temos todas as semanas formação base e treino operacional, inseridos no plano anual do corpo de bombeiros. E temos também formação ministrada pela Escola Nacional de Bombeiros, além de outras formações, nomeadamente no Instituto Nacional de Emergência Médica e em instituições com quem temos parcerias. A qualidade do socorro passa muito por um leque alargado de formação.

A corporação também se tem destacado por ela própria prestar formação a outras pessoas e entidades.

Temos uma parceria com o ISLA de Santarém nesse sentido. Temos no quartel um conjunto de elementos especialistas no socorrismo e combate a incêndios, que fazem formação externa para empresas e também colaboramos com outras entidades, como agrupamentos de escolas. Isto representa também o reconhecimento de que a corporação tem uma boa capacidade técnica.

Como é que se motiva e se consegue ter uma equipa unida?

Qualquer tipo de trabalho realizado pelos bombeiros é feito em equipa. Aqui ninguém consegue fazer algo sozinho. É por isso que tentamos promover sempre a união. Nem sempre é fácil motivar mulheres e homens com ideias diferentes mas o segredo se calhar passa pelos laços de amizade que se criam nesta corporação.

Fazem muitas iniciativas de angariação de fundos. Como é a resposta?

Este é um trabalho de todos. De dirigentes, bombeiros e familiares que têm um papel importante. Também temos a colaboração de pessoas amigas. Participamos em diversos eventos e o que conseguimos de receita é para as despesas da associação mas sobretudo para investir em equipamentos. A nossa aposta tem vindo a ser em equipamentos de protecção individual.

Qual é a principal característica necessária para se trabalhar nos Bombeiros de Almeirim?

É preciso gostar-se deste trabalho. Porque se não gostarmos desta actividade, com o grau de exigência e as situações que encontramos, dificilmente permanecemos nos bombeiros. A gratidão e o prazer que nos dá ajudar as pessoas é o que nos dá o ânimo.

A formação dos bombeiros é essencialmente técnica?

Hoje o bombeiro também tem de ser um pouco psicólogo, padre, amigo. As situações que vivemos todos os dias contribuem também para o enriquecimento pessoal e profissional. A formação está em primeiro lugar, mas há sempre necessidade de procurar outro tipo de capacidades para falarmos com as pessoas e ajudá-las.

O corpo de bombeiros já teve vários casos de agressões em serviço. As pessoas não compreendem o vosso trabalho?

É um reflexo social. Trata-se de questões de egoísmo e falta de civismo de determinadas pessoas. Estas situações desmotivam-nos na altura em que acontecem. Fazem-nos pensar muitas vezes se valerá a pena o nosso trabalho. É preciso gostar muito de ser bombeiro para superar essas incompreensões e injustiças.

Qual a imagem que os cidadãos em geral têm dos bombeiros?

Hoje já se vê, em termos gerais, o trabalho dos bombeiros e já se olha para o bombeiro de forma diferente. Antes a ideia que havia era de que fazíamos um trabalho amador e isso não é verdade. Cada vez mais temos pessoas nos bombeiros com formação superior. No caso de Almeirim, temos vários bombeiros licenciados, alguns deles em áreas relacionadas com o socorro, emergência pré-hospitalar e em outras áreas que também contribuem para o bom trabalho da corporação.

O facto de o comandante também fazer serviços de emergência pré-hospitalar, o que é caso raro, é uma forma de mostrar que esta corporação é diferente?

Faço o que gosto. Ter a possibilidade de continuar a trabalhar na área da emergência pré-hospitalar, atendendo até à minha formação, acaba por ser o contributo que posso dar para ajudar os outros. Pondo ao serviço delas os meus conhecimentos. Sendo uma situação diferente da generalidade das corporações, não é só isso que nos diferencia.

Uma corporação que ultrapassa dificuldades graças ao espírito de união

Nos últimos anos a corporação dos Bombeiros Voluntários de Almeirim passou por várias situações difíceis e traumáticas, como agressões em serviço e um suicídio de um bombeiro no quartel. Se as situações abriram feridas profundas e nunca totalmente curadas, porque não se esquecem, também acabaram por revelar e reforçar o espírito de união, camaradagem e a capacidade dos bombeiros em ajudarem os outros.
A corporação nunca baixa os braços e procura sempre melhorar e ultrapassar as situações, dando ferramentas de trabalho e de apoio aos seus 66 elementos. Na sequência do episódio traumático da morte do camarada de trabalho, foi feito um trabalho pioneiro com a Autoridade Nacional de Protecção Civil e hoje o corpo de bombeiros é precursor na criação de equipas preparadas para prestar apoio psicológico interno, que também ajuda no trabalho no terreno. Os bombeiros de Almeirim estão hoje mais bem preparados para lidarem com situações de elevado stress operacional e para gerirem as situações operacionais.
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almeirim existe há sete décadas e o corpo de bombeiros é um dos mais bem apetrechados e operacionais da Lezíria do Tejo, o que se deve a uma aposta em equipas permanentes no quartel durante o dia para responderem rapidamente às solicitações, sejam emergências médicas, sejam incêndios, inundações e outras ocorrências.
A corporação de Almeirim está dotada de viaturas e materiais modernos e aposta na formação contínua e especializada dos operacionais, fruto de uma gestão rigorosa que lhe permite ter as contas equilibradas. Há oito anos foi criada uma escola de infantes e cadetes que forma crianças e jovens para que um dia possam ser bombeiros. Esta escola tem actualmente 23 crianças que desenvolvem actividades pedagógicas relacionadas com o voluntariado e a formação cívica, além de receberem as primeiras noções de protecção e socorro.
As primeiras reuniões com vista à formação de um corpo de bombeiros na cidade começaram em 1946, com uma comissão constituída por Francisco de Freitas Moura, Luís Vasconcelos Dias e Deodato da Mota Cerveira. Dois anos mais tarde foi formada uma direcção para organizar e formalizar uma associação humanitária. O primeiro presidente foi Adelino Novais Branco. O primeiro comandante operacional foi Manuel dos Santos.
O primeiro acto da primeira direcção foi recuperar a antiga central eléctrica (onde hoje é o posto de turismo), cedida pela câmara, para fazer o quartel, que esteve no local muitos anos.

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