Retrospectiva 2018 | 14-02-2019 14:49

“Somos mais conhecidos fora do Cartaxo porque não podemos realizar provas em casa”

“Somos mais conhecidos fora do Cartaxo porque não podemos realizar provas em casa”
Associação Escola de Atletismo Correr + do Cartaxo é Personalidade do Ano no Desporto F.

O presidente da direcção da Associação Escola de Atletismo Correr + do Cartaxo, Pedro Nazaré Barbosa, reflecte no seu discurso a ambição de um clube jovem que acredita no futuro. Há atletas, há treinadores e dirigentes, os resultados desportivos vão surgindo com naturalidade e há trabalho a fazer também fora das pistas. Captar patrocinadores para subsidiar treinadores e atletas, impedindo que eles tenham que sair para os grandes clubes de Lisboa e construir uma grande equipa sénior de atletismo.

Qual foi a intenção de fundar a Associação Escola de Atletismo Correr + do Cartaxo?

Quisemos sair debaixo da asa do Ateneu Artístico Cartaxense e formar uma escola exclusiva para a prática do atletismo. O objectivo era, e continua a ser, formar jovens atletas, mantendo a tradição de obter excelentes resultados em campeonatos distritais e nacionais. Fundámos esta escola com 20 atletas e neste momento contamos com 78 atletas federados e fomentamos a ambição de chegar mais longe, em número e qualidade.

Como estão em termos de apoios?

O crescimento já é uma realidade, mas não podemos dar passos maior do que a perna, porque não temos qualquer apoio ou ajuda. Somos o único clube do distrito que não tem uma marca na camisola, porque não temos qualquer patrocinador. Sentimos muita dificuldade em adquirir novos equipamentos desportivos e o local de treino não oferece as melhores condições para os nossos atletas.

O Estádio Municipal do Cartaxo não reúne as condições necessárias para a prática plena da modalidade?

Não. Os nossos atletas mereciam melhores condições de treino. A pista do estádio não está devidamente equipada, o piso precisa urgentemente de ser requalificado e o prazo da sua homologação já expirou em 2011. Esta situação impede-nos de realizar provas no Cartaxo e de assim podermos dar a conhecer a nossa Escola e o nosso município a outros atletas. O ideal seria conseguirmos uma pista coberta e com um piso digno para os nossos atletas treinarem.

Não são conhecidos no Cartaxo?

A nossa escola tem coleccionado excelentes resultados nas seis épocas desportivas que já realizámos mas a verdade é que somos mais conhecidos noutros locais onde realizamos provas do que no Cartaxo. A população cartaxense sabe que aqui está sediada uma equipa forte no atletismo mas apenas porque já é assim desde que começámos no Ateneu Artístico Cartaxense.

Fazem captação de novos atletas?

Actualmente a nossa escola reúne atletas de vários concelhos do distrito de Santarém e do concelho de Azambuja. Conseguimos captá-los porque mantemos uma relação de proximidade com os agrupamentos de escolas mas muitos vêm porque já têm cá um amigo e decidem experimentar. No entanto, não fazemos captação junto de outros clubes, porque não achamos que isso seja correcto. Gostamos de treinar os nossos atletas de raiz.

Os melhores saem da região?

Sim, infelizmente é uma constante. Com Lisboa aqui à porta, os nossos melhores atletas quando chegam ao escalão de júnior são captados para equipas de maior relevo, como o Sporting ou o Benfica. Em seis épocas desportivas, mais de uma dezena de atletas já foram para outros clubes. Enquanto dirigentes e treinadores percebemos que esses clubes lhes dão maior dinâmica desportiva em campeonatos de relevo. Sentimos orgulho de todos os que partiram para representar outros clubes mas custa vê-los partir.

Os atletas que se formaram aqui regressam para incentivar os que estão a iniciar o seu percurso?

Não deixa de ser curioso, porque muitos dos atletas que já nos deixaram continuam a treinar connosco. Embora representem outros clubes, sentem que esta continua a ser a casa deles. Incentivam os mais novos e acabam por servir de exemplo, mostrando que com empenho e dedicação se alcança o sucesso, a par com o respeito pela escola que os formou. Nalguns casos sentem que eram mais valorizados aqui do que em clubes de maior dimensão onde são apenas mais um, no meio de muitos.

É possível criar talentos?

O talento não nasce com todos mas acredito que com o espírito de superação que incutimos na nossa equipa nascem grandes atletas. É a persistência que os leva mais longe, não o talento inato. Em seis épocas somamos 120 títulos de campeões regionais e fomos duas vezes campeões nacionais. Somos a equipa de atletismo com maior evidência no distrito de Santarém e estamos entre as cinco equipas nacionais com maior taxa de crescimento. Podemos dizer, que somos uma incubadora onde atletas se superam a cada época.

Os vossos atletas são maioritariamente jovens em idade escolar. Estudos e desporto são um casamento possível?

São o casamento ideal. Embora por vezes falhe. De um modo geral temos alunos que têm notas de excelência e não falham um treino e muito menos uma competição. Cada treinador tem o papel de se manter informado sobre o percurso escolar de cada um, para conseguir gerir os treinos sem prejudicar o atleta que também é aluno. O objectivo é que tenha sucesso nos dois campeonatos, ou seja, na escola e na modalidade que pratica.

Aqui ensina-se mais que atletismo?

Sem dúvida. Os ensinamentos que aqui são incutidos e experimentados são fundamentais na vertente desportiva e educacional do atleta em formação. Passa tudo pelo seguinte ensinamento: Se trabalharmos e nos dedicarmos os resultados aparecem. E isto é algo que cada um deve interiorizar e aplicar em qualquer obstáculo que a vida lhe coloque.

Tentar formar atletas de alto rendimento precocemente é um erro?

É o maior erro do atletismo! Não é correcto treinar crianças e jovens até aos 14 anos como se fossem adultos em miniatura. É muito fácil fabricar um campeão prematuro, dando-lhe grandes volumes de treino mas se o fizermos estamos a roubar-lhe etapas futuras. Nestes casos, os atletas raramente chegam ao escalão sénior, porque já queimaram todos os seus recursos e abandonam o atletismo antes do tempo.

Qual a frequência dos treinos?

Nesta escola somos contra treinos bi-diários em idades inferiores a 14 anos, pois até essa idade os treinos devem ocorrer no máximo três vezes por semana e não duas vezes por dia. Os treinos têm de ser adequados a cada faixa etária, para que capacidades como a flexibilidade e a coordenação motora sejam desenvolvidas no tempo certo.

O atletismo é um desporto individual, embora inclua provas colectivas. Como fomentam o espírito de equipa?

Mais do que trabalhar individualmente e vencer provas, aqui os atletas são estimulados a melhorar a sua técnica e os seus tempos. Apesar de ser um desporto individual, o espírito que lhes incutimos é de evolução colectiva, enquanto equipa. Quando um se supera, ou vence uma competição, é como se cada um deles ganhasse. Há um apoio muito grande entre todos, que às vezes falta em modalidades exclusivamente colectivas.

Qual o sonho que ainda falta cumprir?

Termos meios financeiros para podermos garantir um subsídio aos nossos atletas e aos técnicos, pois sobrevivemos apenas com a cotização dos associados. Temos seis treinadores a trabalhar nesta escola em regime de voluntariado que gostam do que fazem, mas ninguém quer passar uma vida a trabalhar de graça.

E em relação aos atletas?

Para os atletas a situação é a mesma, só com a atribuição de subsídios conseguimos prolongar a estadia deles nesta escola, evitando que vão para outros clubes. Temos muito amor à camisola e acreditamos que daqui a duas épocas desportivas conseguiremos ter uma equipa sénior coesa a participar em campeonatos nacionais. Qualidade já temos, o que falta é somente a auto-suficiência financeira.

* Entrevista a Pedro Nazaré Barbosa com a participação dos dirigentes Carlos Alexandre e Isabel Santos.

Sete anos a formar campeões

A Associação Escola de Atletismo Correr +
do Cartaxo é a casa de uma centena de atletas que ali recebem formação e lutam por marcas de destaque em campeonatos distritais e nacionais. Em Setembro de 2019, esta associação comemora sete anos de existência, com 78 atletas federados em seis épocas desportivas, com uma média de 70 provas realizadas em cada época.
A Escola de Atletismo do Cartaxo chegou a integrar o Ateneu Artístico Cartaxense, até que 20 atletas decidiram lançar-se a solo e fundar uma escola exclusiva para a prática de atletismo. Desde 2012 têm vindo a crescer em número de atletas, provenientes do Cartaxo e de outros municípios da região, que têm alcançado vários títulos em campeonatos distritais e nacionais.
Na corrida para o sucesso, a direcção desta escola tem como meta conquistar o apoio de patrocinadores, para poder melhorar os equipamentos existentes e subsidiar os seus atletas. Sem espaço próprio, os treinos são realizados no Estádio Municipal do Cartaxo e embora as requalificações da pista tardem em chegar é ali que funciona a incubadora de atletas que em seis anos soma 120 campeões regionais e dois campeões nacionais.

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