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Bordadeiras da Glória do Ribatejo fazem arte que merece ser património
Jacinta Abade perdeu uma mão num acidente de trabalho mas usa uma prótese para continuar a bordar

Bordadeiras da Glória do Ribatejo fazem arte que merece ser património

Os bordados da Glória do Ribatejo, Salvaterra de Magos, são únicos e executados com sabedoria pelas mulheres da terra. Nem mesmo os contratempos as impedem de valorizar esta arte, como é o caso de uma bordadeira sem mão. A câmara avançou com uma candidatura a Património Cultural Imaterial Nacional.

Não é qualquer pessoa que consegue fazer um bordado típico da Glória do Ribatejo e muito menos só com uma mão. Jacinta Abade perdeu o braço num acidente mas não desistiu. “Assim que pude comecei a bordar, foi a minha terapia e resultou muito bem”. Jacinta Abade, 66 anos, é uma das mulheres que mantêm vivos estes bordados da localidade do concelho de Salvaterra de Magos, que a câmara pretende que sejam classificados como Património Cultural Imaterial Nacional, tendo avançado com uma candidatura nesse sentido. Encontramos Jacinta no quintal de sua casa. À pergunta: “a senhora borda?”, esboçou um largo sorriso e respondeu: “entre que eu mostro-lhe”. Dentro de casa há quadros com os bordados nas paredes, naperons nas cómodas ou toalhas de mesa com os típicos bordados da Glória.
Há oito anos, Jacinta então com 58 anos de idade, sofreu um acidente na fábrica de arroz onde trabalhava, em Salvaterra de Magos. Uma máquina ceifou-lhe a mão e parte do braço. Desde essa altura que está reformada por invalidez e vive com os rendimentos da reforma. “Nunca me vi impedida de fazer nada e bordar foi logo o que quis começar a fazer”, revela. Tem uma prótese amovível, mas que praticamente não usa. “Parece que me atrapalha mais do que me ajuda”. O amor ao bordado da Glória do Ribatejo é ímpar na terra. “Há qualquer coisa de resiliência entre as mulheres glorianas, talvez seja essa a explicação”, diz.
Na cozinha, Jacinta tem um móvel com gavetas cheias de toalhas, toalhões e panos de cozinha, bordados por ela. “Esta toalha fi-la quando já não tinha a mão”, mostrou orgulhosa, enquanto vai tirando bordados das gavetas da cómoda da cozinha. O orgulho pelos bordados tem vindo a perder-se nas novas gerações e por isso podem ter os dias contados. “Vejo pela minha filha que não borda. Hoje em dia não têm tempo por causa dos trabalhos, mas acima de tudo porque não se interessam”, sublinha. “Fazer a renda ao dedo”, uma expressão gloriana, já não é o que era. As raparigas já não se juntam como as de antigamente às portas das casas para bordarem. Hoje agarram-se aos tablets e telemóveis.
Nesta terra não é usual o termo bordar, diz-se “marcar”. E marcado ficou de tal forma na história da vila que a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos elaborou uma candidatura para valorizar e preservar esta arte.

“Nascemos com as mãos abençoadas”
As mãos que ceifavam durante o dia no campo são as mesmas que à noite, depois da lida doméstica, pegavam no dedal e na linha e marcavam a história da vila da Glória do Ribatejo. Não se sabe ao certo em que altura terá nascido o bordado a ponto de cruz, característico desta vila, sabe-se apenas que mulheres hoje com 90 anos ainda se lembram dos tempos em que as mães as ensinavam a bordar, com cinco ou seis anos.
Margarida Damião tem 88 anos e é um dos rostos mais conhecidos entre a população de Glória do Ribatejo. Fomos conhecê-la ao centro de dia da vila, na manhã de sexta-feira, 6 de Março. As mãos revelam que foi mulher de trabalho árduo no campo durante toda a vida. Voz forte, mas de conteúdo doce. Margarida Damião tem centenas de trabalhos feitos desde naperons para a cozinha, lenços de assoar, cortinados, quadros e tapetes em serapilheira. Muitas das suas peças estão expostas no Centro de Documentação e Estudos Etnográficos de Glória do Ribatejo, localizado na mesma rua, onde se pode observar a evolução do bordado, desde inícios da década de 40 do século XIX.
A originalidade dos trabalhos reside nos motivos que as mulheres escolhem e o simbolismo adjacente, bem como na utilidade que dele fazem. Aqui o sagrado e o profano estão de mãos dadas. Nada é para vender. “Nunca se fez aqui dinheiro com o bordado. É nosso, podemos oferecer, vender nunca. Não tem preço, é alta-costura”, sublinha Margarida Damião.

Um bordado funcional
Os vasos de flores que simbolizavam a fertilidade da mulher; a cruz que significa a nobreza de carácter de um casal de namorados e o amor sagrado que os uniu; as letras; os ramos de flores que significavam a pureza; ou o “pinto” uma das coroas mais conhecidas, inspirada numa moeda de D. João VI, são alguns dos motivos mais bordados, enquadra Rita Pote, responsável pelo Centro de Documentação e Estudos Etnográficos de Glória do Ribatejo.
Com o passar dos tempos surgem outros objectos marcados em tecidos diferentes como a lã, como pequenas carteiras, pataqueiras e charteiras, para colocar as moedas ou as bolsas de relógio. Na década de 70 surgem as malas, sacos, cintos, porta-lápis e os taleigos da caderneta militar para oferecer aos namorados. O bordado gloriano chegou também às vestes das crianças. São de tirar o fôlego os vestidos e as toucas para os bebés, feitas de pano branco com o folho, meticulosamente, trabalhado.
Os lenços para oferecer aos namorados e os aventais que colocavam e que indicavam o início de um namoro são das peças mais simbólicas, conta Margarida Damião enquanto borda mais um lenço. Os rapazes envergavam lenços bordados com as iniciais dos nomes das namoradas. Os taleigos, sacos de tecido que bordavam, serviam para levar o almoço para o campo, mas também de utensílio conservador de comida. “Na nossa altura não havia caixas de plástico, guardávamos o arroz, as massas e o pão nos taleigos, e sem saber poluímos menos o mundo”, atira Margarida Damião, de resposta sempre na ponta da língua.
“Ninguém faz pontos tão pequenos e apertados que quase parecem desenhos. As nossas mãos são abençoadas”, defende Inês Maria Pirralha, com 90 anos, outra das utentes do Centro de Dia que logo se aproximou da nossa reportagem, para mostrar os seus trabalhos, assim que se apercebeu do tema da conversa.
Além do ponto de cruz, os bicos feitos em renda que delineavam as bainhas das saias ou dos lenços são também muito típicos. As glorianas que conhecemos no Centro de Dia da vila pouco ou nenhum tempo de escola tiveram. Eram tempos de trabalho e se não trabalhassem para ajudar os pais, pouco ou nada tinham para comer. Hoje em dia lamentam que as raparigas novas não apanhem o jeito para marcar. Porque para elas, mulher que não tenha em casa pelo menos uma peça bordada, “não é gloriana que se prese”.
À noite, em roda de uma mesa, com candeeiros a petróleo, juntavam-se para marcar. “Copiávamos os bordados que nos tinham ensinado, mas por vezes surgiam ideias novas e bordávamos”. E era assim que nasciam novos motivos, recorda Maria Quitéria Gomes, de 77 anos, enquanto borda um porta-chaves, sentada numa cadeira lateral, mas que fez questão de participar na conversa. Sem se dar conta relatou-nos a evolução de uma expressão que marca a cultura popular da vila que a viu nascer.

Chegar à UNESCO é o objectivo do presidente da câmara

Roberto Caneira é técnico superior de História na Câmara Municipal de Salvaterra de Magos e presidente da Associação para a Defesa do Património Etnográfico e Cultural da Glória do Ribatejo. O estudioso, a par de Rita Pote, foi um dos nomes que ajudou a concretizar esta candidatura que está em fase de avaliação e sobre a qual há muita expectativa. O objectivo é, posteriormente, avançar para uma candidatura à UNESCO, candidatando o bordado a Património Imaterial da Humanidade, referiu. O mesmo é frisado pelo presidente da câmara, Hélder Esménio: “não vamos descansar enquanto o bordado gloriano não chegar a património da UNESCO”, garante.

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