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No campo o reflexo da pandemia do Coronavírus tem menos impacto
Joaquim Lopes e Manuela Matos

No campo o reflexo da pandemia do Coronavírus tem menos impacto

Em algumas aldeias de Rio Maior a vida continua mas agora adaptada à pandemia do novo coronavírus. Nem toda a gente segue as recomendações à risca e há até quem diga que não há vírus que lhe chegue. No campo os reflexos da pandemia têm menos intensidade.

Edição de 27.04.2020 | Sociedade
Alfredo José, pedreiro


José Carvalho, 85 anos, residente em Alfouvés, Rio Maior, viu-se obrigado a sair do Centro de Dia onde passava os dias na Moçarria, encerrado devido à Covid-19, e a regressar a casa. Vive sozinho desde que a esposa faleceu e é nos passeios pelas ruas da aldeia que encontra algum ânimo. Ali a vida faz-se a outro ritmo e os ecos da pandemia não se fazem sentir com tanta intensidade como nas cidades, cujas ruas estão agora praticamente desertas.
Foi aconselhado, pelo presidente da junta de freguesia, a não sair de casa e a evitar o contacto com outras pessoas. No entanto, José afirma que não há vírus que lhe chegue. Ofereceram-se para lhe levar a comida a casa mas recusou. Desobedecendo às recomendações dadas, no dia em que O MIRANTE visitou a pequena aldeia, estava a falar com os pedreiros de uma obra junto à igreja.
“Damo-nos com muita gente e não sabemos de onde o vírus vem nem por onde passa. Tentamos, ao máximo, evitar o contacto com as pessoas”, relata Alfredo José, um dos pedreiros. Alfredo nota diferenças na vida devido à pandemia principalmente quando vai ao mercado de Malaqueijo (aldeia vizinha), onde a junta de freguesia impôs o uso de máscara. “A terra é pequena, mas temos que ter cuidado”, diz.
Pelas ruas da aldeia O MIRANTE cruzou-se também com Joaquim Lopes, de 80 anos. Estava em casa na companhia de Manuela Matos, 51 anos, que presta auxílio ao casal de idosos, com comida e medicamentos. Manuela vai à loja de Malaqueijo buscar o necessário e afirma que o estabelecimento reúne boas condições para fazer compras face ao risco para a saúde pública actual. A loja tem um desinfectante à entrada e não permite a aglomeração de pessoas no interior.
A moradora traz muitas compras de uma vez só para não estar constantemente a deslocar-se e para evitar o contacto com as pessoas, “até porque nós aqui gastamos pouco”, evidencia Joaquim Lopes. Manuela afirma que “depois disto tudo passar acertamos as contas”. E promete, nos próximos tempos, sair só quando for extremamente necessário.
Joaquim Lopes não sabe o que se passa na aldeia porque não sai de casa respeitando as medidas impostas pela Direcção-Geral de Saúde. É raro terem visitas, o que dá mais segurança. Nas proximidades, Joaquim só tem um cunhado, mas não sabe se este ainda está no lar da Marmeleira ou se foi encaminhado para casa.
O morador acredita que a Covid-19 pode chegar à aldeia, mas com mais dificuldade. “Aqui o ar é mais limpo, temos as nossas hortas e somos nós que cuidamos dos alimentos, não produzimos muito, mas o que há é da nossa responsabilidade. Aqui é outra coisa”, justifica.
Ao longo dos seus 80 anos,não se lembra de nada parecido com o que se vive neste momento. Mas recorda-se do avô lhe falar da gripe espanhola, há um século, que vitimou muita gente. Recorda-se da recente Gripe A, mas sabe que as dimensões adquiridas pela Covid-19 são completamente novas, nunca presenciadas. Acrescenta que na aldeia sente-se mais protegido, mas que tem medo de morrer devido ao sofrimento por que terá de passar antes, o qual considera ser o pior.
À procura de um espaço público aberto, O MIRANTE deslocou-se para Malaqueijo onde encontrou um café e o mercado fechados. Na porta do mercado dizia “obrigatório uso de máscara”. Dentro do café/loja que se encontrava aberto estavam uma funcionária e uma cliente que não quiseram prestar declarações. Não obstante, adiantaram que as pessoas tinham medo que faltasse comida. À entrada da porta, permanecia o desinfectante de que Manuela Matos falara.

Ida à farmácia não se consegue evitar
A farmácia de São João da Ribeira foi mais um local de visita de O MIRANTE em busca de testemunhos sobre a vida nas aldeias de Rio Maior durante o surto do coronavírus. A directora da farmácia não quis prestar declarações, contudo confessou que o fluxo de clientes aumentou.
Maria José Gaspar é de Assentiz e tem 73 anos. Estava à porta da farmácia com várias caixas de medicamentos nas mãos, a fazer o pagamento por multibanco. É asmática e, além disso, está à espera de ser operada ao coração. “Devia estar em casa, mas vim aqui à farmácia, com o meu companheiro, porque não tenho ninguém que possa vir por mim”.
Tinha uma viagem marcada para a Madeira mas afirma que não vai, mesmo que não dê para cancelar. O seu cardiologista avisou-a que viajar, nesta altura, será muito arriscado, principalmente por causa do seu problema de asma. “Tenho uma neta, enfermeira no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que já me tinha dito que não me deixava ir a lado nenhum, nem que tivesse que me amarrar”, conta.
Maria José está consciente da gravidade da situação que todos estão a passar e compromete-se a seguir as recomendações da Direcção-Geral da Saúde, porém, vai tentar fazer a sua vida normalmente, tal como muitos outros moradores da sua aldeia.

José Carvalho, residente em Alfouvés
No campo o reflexo da pandemia do Coronavírus tem menos impacto

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