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Pandemia empurrou para casa muitos voluntários que ajudavam quem mais precisa
Delmira Brás, delegada da ADRA da Póvoa de Santa Iria

Pandemia empurrou para casa muitos voluntários que ajudavam quem mais precisa

A crise do coronavírus obrigou associações a parar rondas, dispensar voluntários de risco e a gerir criteriosamente os alimentos armazenados. Mas a resposta não pode falhar para quem não tem um tecto, acesso à higiene básica e depende da assistência de voluntários para se alimentar.

Edição de 27.04.2020 | Sociedade
Alice Fael, presidente dos Companheiros da Noite

Numa altura em que o Governo e as autoridades de saúde pedem à população para ficar em casa há quem não tenha possibilidade de sair da rua. No concelho de Vila Franca de Xira são pelo menos 90 aqueles que não têm um tecto, acesso à higiene básica e que dependem da solidariedade de outros para terem o que comer. A resposta social continua a ser urgente, mas o panorama actual impôs mudanças e limitações porque o número de voluntários caiu abruptamente devido ao surto de Covid-19.
O alerta é deixado por Alice Fael, presidente dos Companheiros da Noite, associação de apoio a pessoas carenciadas e em situação de sem-abrigo no concelho de Vila Franca de Xira. Para a responsável, a situação dos sem-abrigo é uma “preocupação óbvia que exige medidas e meios de protecção para controlar a higiene e providenciar abrigos” porque é de facto “impossível fazer-se quarentena quando não se tem um tecto”.
Em tempos de pandemia, os 50 voluntários da associação tiveram de se proteger a pensar também naqueles a quem prestam apoio. As voltas para a distribuição de alimentos passaram a ser feitas com o uso de “luvas, máscara e com a devida distância” e com recurso apenas a metade dos voluntários. Os idosos e com doenças crónicas ficaram de fora dessa missão.

Um tecto para os sem-abrigo
No sábado, 14 de Março, os Companheiros da Noite distribuíram cabazes de alimentos a 65 pessoas em situação de sem-abrigo e a 55 famílias com carência económica. A quantidade de alimentos, nomeadamente produtos frescos, leite e pão foi reforçada.
A “crise que ainda agora está a começar” forçou a direcção a “alterar rotinas e a limitar o apoio aos casos mais urgentes”. As habituais voltas de quarta-feira foram suspensas e agora apenas os casos prioritários, cerca de 30 famílias e pessoas sem-abrigo, vão receber o apoio habitual.
Preocupada com a nova realidade de quem não tem onde morar,também a Câmara de Vila Franca de Xira veio reforçar e adaptar as ajudas. A vereadora com o pelouro da intervenção social, Helena de Jesus, fez saber na última reunião pública do executivo que foram disponibilizados abrigos para estas pessoas em lares de idosos e pensões do concelho. Estão também a ser servidas refeições quentes em Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).

Menos voluntários mais horas para quem continua
Na Póvoa de Santa Iria, a delegação da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) encerrou a loja social, mas continua a dar o apoio necessário a 45 famílias carenciadas, embora com menos voluntários. “Deixámos de poder contar com os voluntários idosos pelas razões óbvias. De 12 passamos a seis. Temos trabalhado o dobro das horas para conseguir chegar a todas as casas”, refere a O MIRANTE, a delegada, Delmira Brás. Tem 63 anos e diz sentir o cansaço nas pernas depois de sete horas a distribuir alimentos porta-a-porta, mas recusa-se a parar. “Se parar estas famílias não têm possibilidade de se alimentar”, diz.
Além do apoio habitual aos utentes sinalizados esta delegação da ADRA está também a oferecer-se para ajudar idosos e grupos de risco nas compras de farmácia e supermercado. “Basta entrarem em contacto connosco e ajudamos quem precisar”, explica. “Vamos devidamente identificados com o cartão de voluntário do Balcão Nacional do Voluntariado, da ADRA e com uma declaração em caso de ser solicitada pelas autoridades”, refere, alertando para possíveis esquemas de tentativas de burla.
A dúvida que paira na cabeça de alguns, a de que os alimentos vão escassear, não é tida em conta por estas organizações de ajuda humanitária. “Temos reforçado o stock, mas sem exageros. Vamos às compras consoante a necessidade, pois a comida não vai faltar”, afirma com tranquilidade Delmira Brás.
No caso dos Companheiros da Noite a despensa deverá chegar para as próximas seis semanas e, para já, não estão a ser feitas mais aquisições de produtos alimentares. No entanto, ambas as organizações continuam a aceitar doações de alimentos de particulares e empresa, para que nada falte a quem mais precisa.

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