uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante

Levezas, milagres, parlapiés e obras a mais para tão poucos serventes

Denodado Serafim das Neves

Antecipavas no teu último e-mail que, no 13 de Maio deste ano, em Fátima, só estariam meia dúzia de gatos-pingados a acenar lenços brancos à Nossa Senhora e um Bispo a pregar para as moscas. Afinal não foi bem assim.
No Santuário e arredores acabaram por estar para cima de três mil e quinhentos guardas republicanos. Uma verdadeira peregrinação de elementos das forças de segurança que, sem nenhuma manada de adeptos para pastorear a caminho de qualquer estádio, rumaram a Fátima, para escutar orações, em vez de palavrões.
A única diferença foi a peregrinação ter sido feita de carro e não a pé. E não ter havido pagadores de promessas a rastejar na pista reservada a esse efeito ou a andar de joelhos à volta da capelinha das aparições. Também não é normal ver peregrinos fardados, com viseiras e pistolas à cintura, mas de certeza que a igreja não deixou de abençoar tudo e todos, independentemente do nível de devoção e do tamanho dos bastões.
Um outro milagre a que só uns poucos puderam assistir foi o da forma física do responsável pela protecção civil do Distrito de Santarém, Miguel Borges, que também é presidente da Câmara do Sardoal. Conta quem viu, que o homem, apesar de ter uns quilos a mais, palmilhou todo o santuário com a leveza de uma pluma, deixando quem o seguia, de queixo caído. Quem duvidava de milagres terá agora razão para repensar a sua posição.
Mesmo que apareça uma vacina para o vírus, de preferência inventada por um jovem cientista ribatejano, ninguém nos irá livrar de outro confinamento. E a coisa vai prolongar-se até às eleições autárquicas de Outubro do ano que vem, sem necessidade de declaração de estado de emergência ou de calamidade.
Com tantas obras a serem anunciadas pelas câmaras municipais, pagas em 85 por cento ou mesmo em 100 por cento, pela União Europeia, quem é que vai conseguir andar pelas ruas, sem tropeçar em tractores, máquinas de alcatroamento, betoneiras e presidentes de câmara a dar entrevistas?
A única dúvida neste grande relançamento do investimento europeu, perdão, autárquico, é saber se haverá empresas e trabalhadores suficientes para fazer tanta coisa, tendo em conta que a maior parte do que tem que ser feito requer pessoal disposto a trabalhar nas obras e trabalhar nas obras, enfim, não é o sonho da grande maioria dos nossos jovens, sejam licenciados, doutorados ou mal formados.
Para a agricultura vamos tendo indianos e paquistaneses. Para as obras já houve ucranianos mas já não há porque, tal como os nossos médicos e enfermeiras, também eles emigraram para o Reino Unido e outros países, onde lhes reconhecem as suas capacidades de trabalho, mesmo que não acompanhem um qualquer Boris Johnson durante a convalescença.
Quem tenho visto a perorar por televisões e jornais, haja emergência ou calamidade, é o deputado Duarte Marques, do PSD, ali de Mação. Ele vai a todas e tem um parlapié, de alto lá com ele. A mim faz-me lembrar o Miguel Relvas, aquele que chegou a ministro e depois subiu até consultor. Ou me engano muito ou este jovem político, que flutua como a cortiça, também vai ter um futuro promissor... como o saudoso senhor doutor.
Saudações desconfinadas
Manuel Serra d’Aire

Mais Notícias

    A carregar...