As toneladas de euros de Bruxelas não nos salvam da nossa incompetência
O mau funcionamento dos serviços públicos que pagamos é estarrecedor. Quando alguma coisa funciona bem é excepção e não regra. A regra é o mau funcionamento ou o não funcionamento.
São meses para renovar e receber o cartão de cidadão; meses e meses para fazer uma marcação no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras; anos para se receber uma resposta a um pedido de atribuição de nacionalidade, depois de documentação entregue e taxas pagas; meses e meses para receber uma simples resposta da ASAE a uma reclamação que, quando chega, nos diz apenas que não é para ali que devemos reclamar.
Mas há muito mais e O MIRANTE tem dado conta disso frequentemente. Impossibilidade de receber um simples “está lá” telefónico do Instituto da Mobilidade e dos Transportes e de outros organismos públicos; meses de atraso no pagamento de subsídios e apoios; meses e meses de atraso na resposta a pedidos de aposentação; meses e meses para conseguir marcar uma cirurgia; meses e meses e meses e meses de espera para tudo, menos para pagar impostos. A lista é extensa. O simplex é uma manta que tenta tapar esta miséria.
Não há transportes suficientes; os serviços do Estado não funcionam ou funcionam como se não estivessem a funcionar, e quanto mais pessoas se contratam e mais impostos se pagam, mais os serviços bloqueiam. Mesmo o Serviço Nacional de Saúde, tão elogiado pela resposta à pandemia, está preso por arames. A Covid-19 veio tapar a realidade mas quando a mesma for destapada (e já está a ser parcialmente destapada), vamos ficar com os cabelos em pé.
Por mais sorrisos e declarações de optimismo dos governantes tudo piora. Os sistemas informáticos não funcionam, seja em centros de saúde ou nos serviços de registo e notariado; os funcionários entram em greve ou estão já cansados quando chegam aos serviços; o absentismo remunerado e as tolerâncias de ponto aumentam e só vejo e oiço declarações de que está tudo bem, seja de governantes, de deputados que os apoiam e do presidente Mac selfie. Não está tudo bem. Está tudo mal e eles sabem que é assim mas o seu papel é fingir que não sabem e mostrarem-se indignados quando alguém se atreve a dizer que o rei vai nu. E no meio deste descalabro fazem-se jogos florais da política que ocupam a quase totalidade dos telejornais.
Fernando de Carvalho