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Joaquim Veríssimo Serrão queria ser  recordado como uma pessoa tolerante 
Cerimónias fúnebres de Joaquim Veríssimo Serrão decorreram na Igreja da Piedade tendo sido sepultado no cemitério dos Capuchos, em Santarém

Joaquim Veríssimo Serrão queria ser  recordado como uma pessoa tolerante 

Em 2006 disse a O MIRANTE que tinha regressado à sua terra para viver últimos anos de vida

Edição de 02.09.2020 | Sociedade

O historiador Joaquim Veríssimo Serrão faleceu em Santarém, sua terra natal, no mesmo mês em que completou 95 anos. Desejava ser recordado como uma pessoa tolerante e aberta que amava profundamente a sua terra.

Joaquim Veríssimo Serrão, filho de Joaquim Vicente Serrão, armazenista de mercearia de Sinterra, Tremês e de Adriana Veríssimo, nasceu em Santarém, no rés do chão do nº5 do Beco dos Agulheiros, como o próprio conta, num texto publicado na edição de 2 de Setembro de 1998, a propósito da mudança de instalações de O MIRANTE para a sua antiga casa de família.
“No dia 8 de Julho de 1925, pelas 16h30, vim ao mundo. Um valente pimpolho de quatro quilos e meio, como costumava dizer o médico assistente, Dr. Joaquim Mendes Pedroso da Costa (...) a meninice passei-a, pois, no Beco dos Agulheiros, entre a casa paterna no nº 5 e a dos avós Adriano e Claudina nos nºs 7 a 11. Foram muitos anos de uma sintonia verdadeiramente popular com a vizinhança”, escreveu. Depois do falecimento de sua mãe o historiador nunca mais voltou a entrar na casa, apesar dos convite feitos, tanto pelo novo proprietário como por O MIRANTE.
“No dia 8 de Maio de 1940 tive o desgosto de perder a minha mãe, por quem tinha uma verdadeira adoração, após meio ano de sofrimento. Em Dezembro de 1942, quando meu Pai contraiu um novo casamento, com o sangue na guelra dos meus 17 anos recusei-me a viver na casa e fui instalar-me na pensão Rapideza. Estava a acabar o 7º ano do Liceu e com a esperança de em breve ir estudar para Coimbra. Deixei assim, nos fins de 1942, a casa do Beco dos Agulheiros onde nunca mais quis entrar. Fora o local onde vira morrer a mãe amada, pelo que não me era possível suportar a sua ausência”.
Em 2007, a propósito do prémio “Personalidade do Ano - Vida, que lhe foi atribuído por O MIRANTE, disse que estava preparado para morrer, embora desejasse que esse dia estivesse longe, e declarou o seu amor a Santarém.
“Quero ficar recordado como uma pessoa que fez sempre o bem. Que procurou dar-se com toda a gente, que foi sempre tolerante, aberta. Quero ficar considerado como um fervoroso amigo da minha terra e filho de Santarém”. Na cidade foi dado o seu nome a uma rua e foi-lhe erigida uma estátua.
Joaquim Veríssimo Serrão foi o primeiro presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Santarém, não conseguindo concretizar o objectivo de o transformar em universidade, culpando desse facto os governantes da época. Em 2011 foi-lhe atribuído o título de primeiro professor Honoris Causa da instituição.
Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi presidente da Academia Portuguesa da História, entre 1975 e 2006. Foi reitor da Universidade de Lisboa (1973), cargo de que foi exonerado, a seu pedido, em 1974.
Autor de uma vasta obra historiográfica, na qual avulta a sua História de Portugal, em 19 volumes, que terminou em 2011, Joaquim Veríssimo Serrão doou a Santarém a sua biblioteca particular com mais de 35.000 obras, livros e fontes de investigação utilizados ao longo da sua carreira de professor universitário e investigador e documentação manuscrita, quadros, telas, condecorações, moedas e ficheiros. Esse material foi a base para a constituição do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, inaugurado oficialmente a 25 de Maio de 2012.
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou morte de um “amigo de muitos anos”, salientando ainda que “deixou numerosos discípulos, em particular na Academia Portuguesa de História de que foi presidente”. A Câmara Municipal de Santarém declarou três dias de luto municipal. Ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou a morte do historiador considerando que “foi autor de uma obra historiográfica de referência” e que formou “muitas gerações de historiadores e investigadores”. Instituto Politécnico de Santarém decretou três dias de luto académico.

Joaquim Veríssimo Serrão

Santarém despediu-se de um filho ilustre

Cerimónias fúnebres decorreram na Igreja de Nossa Senhora da Piedade com a presença de algumas dezenas de pessoas.

Santarém despediu-se na segunda-feira, 3 de Agosto, de um filho ilustre. As cerimónias fúnebres do historiador Joaquim Veríssimo Serrão, falecido a 31 de Julho com 95 anos, decorreram na Igreja da Piedade, onde foi baptizado há mais de nove décadas. O cortejo fúnebre rumo ao cemitério dos Capuchos não foi exactamente como o académico tinha idealizado e partilhado em entrevista a O MIRANTE, em 1998, com passagem silenciosa pela Rua de São Nicolau. A urna, coberta com a bandeira da Academia Portuguesa de História, foi transportada num carro funerário até ao cemitério, mas contornando o centro histórico da cidade que tanto amou e estudou. No enterro só estiveram os familiares mais próximos. “Quero despedir-me de Santarém, silenciosamente e pela Rua de São Nicolau, sem qualquer tipo de manifestações”, dizia Joaquim Veríssimo Serrão nessa entrevista há 22 anos. Na missa, na Igreja da Piedade, celebrada pelo bispo de Santarém, D. José Traquina, coadjuvado pelo padre Joaquim Ganhão, participaram algumas dezenas de pessoas, entre elas o presidente da Câmara de Santarém, Ricardo Gonçalves, e a vice-presidente da autarquia, Inês Barroso, além de outros autarcas e personalidades da vida pública da cidade. O historiador foi recordado como um homem bom e que levou o nome de Santarém pelo mundo.

À margem

Um historiador com alma de poeta

Joaquim Veríssimo Serrão era um dos melhores amigos de O MIRANTE. A primeira vez que subscreveu O MIRANTE pagou uma assinatura por dez anos. Devemos-lhe, a ele e ao seu grande amigo Carlos Cacho, palavras de incentivo nos anos em que mudamos a sede da redacção para Santarém porque, segundo eles, a cidade e a região mereciam um jornal moderno, com profissionais das novas gerações.

Não era fácil chegar a Joaquim Veríssimo Serrão. Mas depois de chegarmos à fala com ele só não ficava seu amigo quem não queria. Conhecemos muita gente que fazia alarde dessa proximidade com o mestre que tinha alma de poeta. Desde que fosse em nome de Santarém, ou do Ribatejo, estava sempre disposto a escrever um prefácio, uma carta de apresentação, um texto para um currículo, uma nota para uma tese de mestrado, uma crítica a um livro, enfim, era verdadeiramente um mestre, um sábio, como aqueles que de vez em quando aparecem nos romances. Só que ele era de carne e osso e também tinha os seus dias…como todos os santos.

Os seus últimos anos de vida foram dolorosos. Muitos dos seus amigos deixaram de ir vê-lo à instituição onde viveu quase uma década para guardarem dele as recordações de outros tempos.

As manifestações de pesar do Presidente da República e de outras entidades, assim como a atenção que a sua morte mereceu nos principais órgãos de comunicação social, soube a pouco para a importância que Joaquim Veríssimo Serrão teve na sociedade portuguesa dos últimos setenta anos. As televisões, por exemplo, ignoraram as imagens de arquivo que costumam recuperar quando morre uma personalidade da vida política ou cultural portuguesa de grande relevo. Só o jornal Público lhe dedicou duas páginas, com chamada e foto de capa. Veríssimo Serrão foi um herói dos nossos tempos e não se pode afirmar que esteve do lado errado da revolução dos capitães de Abril. A sua contribuição com a publicação das “Cartas do Exílio” e “Correspondência com Marcelo Caetano” são um dos testemunhos importantes para se perceber a revolução dos cravos e a evolução do nosso sistema democrático que nasceu com a queda do antigo regime.

Santarém perdeu a sua maior figura intelectual dos últimos anos. Há um centro de investigação em Santarém com o seu nome, criado com uma boa parte do seu espólio, com muito trabalho pela frente para fazer jus ao admirável braço de trabalho do historiador, que fez do conjunto da sua Obra uma memória preciosa para compreendermos, hoje e amanhã, que “passado, presente e futuro coexistem em simultâneo no universo”, e que “o tempo não avança, todo o tempo é sempre presente”.
JAE

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