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Postos dos CTT em minimercados  são uma caricatura do serviço público 
Mafalda Carvalho e a mãe, Laura Cruz, assumiram o posto dos CTT no minimercado

Postos dos CTT em minimercados  são uma caricatura do serviço público 

Após a privatização dos CTT, o número de balcões diminuiu afectando a vida a milhares de pessoas. Seis anos depois, O MIRANTE percorreu a região e encontrou postos a funcionar em juntas de freguesia, seguradoras e até minimercados. As queixas ouvidas evidenciam a degradação de um serviço público essencial.

Edição de 30.09.2020 | Sociedade


Os Correios fazem parte da vida dos portugueses há quase 500 anos, mas a grande reviravolta deu-se em 2014, com a privatização integral da empresa. Seis anos após a decisão polémica permanece nas populações afectada: a revolta com a actual gestão. “É aquele serviço que não podia ter sido privatizado. Alguém saiu a ganhar com isso, mas não foi o povo”, diz a O MIRANTE Vânia Assucena, atrás do balcão identificado com uma placa dos CTT que há um ano acrescentou ao seu escritório de seguros e telecomunicações, em Aveiras de Cima.
Por dia atende uma média de trinta pessoas no balcão dos CTT e isso implica largar o trabalho que lhe põe a comida na mesa para prestar um serviço que é pago, mas mal remunerado. Quanto? “É uma vergonha dizer. Muito pouco, não chega para a renda. São 200 euros já com as comissões da venda de selos e envelopes”, revela.
Depois do posto oficial ter encerrado nessa freguesia do concelho de Azambuja, abriu numa papelaria, até chegar à loja da agente de seguros e telecomunicações, que se sentiu na “obrigação de o fazer”. “As pessoas já estão a fugir de Aveiras e se um serviço como os CTT sai leva toda a gente atrás”, diz, salientando que além disso “os idosos deixavam de ter onde receber a reforma”.
E as reformas são um dos calcanhares de Aquiles deste serviço. O montante entregue nestes postos nem sempre chega para pagar a todos. Quando isso acontece, “as pessoas têm de voltar no dia seguinte”, conta Vânia Assucena que chega a demorar “duas semanas para conseguir pagar todas as reformas”. Até lá vai ouvindo os lamentos dos idosos que não sabem como fazer face às despesas. Em Alcoentre há menos reformas para pagar, no posto que abriu há um ano numa solicitadoria, mas o cenário repete-se.

Cartas e encomendas partilham prateleiras com mercearia
O Porto Alto foi um dos que perdeu a sua estação de correios no início de 2019. Na localidade, com cinco mil habitantes, a notícia foi recebida com desagrado e uma manifestação que de nada valeu. “Encerraram e pronto. Sem uma justificação que seja aceitável, porque não estamos a falar de uma localidade que esteja a ficar desertificada, mas sim que tem vindo a crescer”, lamenta o presidente da Junta de Freguesia de Samora Correia, Augusto Marques.
Desde que o balcão fechou o serviço tem funcionado num minimercado. As cartas, vales de reforma e encomendas passaram a partilhar o mesmo espaço que produtos de mercearia. “A privatização só foi boa para os CTT, porque nós é que ficámos com a responsabilidade e eles com o dinheiro”, refere Laura Cruz, responsável do minimercado. Porque aceitou ser posto CTT? Também neste caso a resposta é: “Para a população não ficar sem o serviço”.
Por dia, Laura Cruz e a filha, Mafalda Carvalho atendem em média 200 pessoas no balcão improvisado dos CTT que é o mesmo onde registam a fruta, os enlatados e tudo o que ali se vende. Atrás do balcão há envelopes para venda, da qual recebem uma comissão de cerca de dois cêntimos por unidade, que serve de complemento irrisório ao valor mensal pago pelos CTT, que não chega “nem de perto para pagar o salário” de Mafalda, que se dedica em exclusivo ao serviço postal. “Tenho muito trabalho, mas faço o melhor que posso”, diz a jovem que já foi premiada pelos CTT com um diploma de mérito pelo quinto lugar a nível nacional pelas receitas de envelopes e selos vendidos.
Para Joaquim Pereira, cliente habitual deste posto CTT, a mudança não foi bem acolhida ao início. “Não me vão dizer que é normal ir aos correios num minimercado, onde o espaço se torna pequeno para tanta gente que precisa do serviço”, começa por referir, para depois completar: “ainda bem que alguém o assumiu e se esforça para o manter a funcionar”. Não fosse esse o caso, completa a sua esposa, Ana Maria Pereira, teriam de “ir de transporte público a Vila Franca de Xira ou a Samora Correia” para levantar “as migalhas” que recebem de reforma.
Ali ao lado, na freguesia de Santo Estêvão, o posto que já funcionou numa papelaria também se mudou para um minimercado. Na freguesia da Carregueira, no concelho da Chamusca, o posto transitou de uma loja de roupa, para o minimercado a Loja da Ana. Uma mudança com três meses que a proprietária, Ana Marques, decidiu assumir para não deixar a população pendurada.

ANACOM fala em “encerramento abrupto de estações”
Num relatório da Anacom - Autoridade Nacional de Comunicações é descrito que “em alguns casos, as características específicas dos espaços e condições de funcionamento dos postos de correios suscitam dúvidas sobre a sua adequação para assegurar o sigilo dos envios postais bem como a protecção da vida privada de quem utiliza os serviços”.
A mesma entidade fala ainda num “encerramento abrupto de estações de correios” que em 2018 teve um aumento de 1.550 por cento no número de concelhos sem uma estação de correios (31), representando um aumento de 3.668 por cento na população afectada (295.156 habitantes). Até 2020, os CTT devolveram 12 dessas lojas às populações que não tinham um único posto no concelho - incluindo a de Alpiarça - “num processo que prossegue”, referem os Correios em comunicado divulgado a 27 de Julho.

Vânia Assucena sentiu a obrigação de integrar o balcão dos CTT no seu escritório em Aveiras de Cima

Junta de Cardigos teve que repor 11 mil euros aos CTT após assalto

O receio de assaltos levou a que as responsáveis pelos postos de Aveiras de Cima e Porto Alto instalassem sistemas de segurança com alarme e videovigilância, pagos do seu bolso. Vânia Assucena fê-lo após uma tentativa de assalto à loja, porque se levassem, por exemplo, o dinheiro das reformas, teria de devolvê-lo aos CTT.
Uma situação com a qual a Junta de Cardigos, no concelho de Mação teve de lidar em Dezembro de 2019, quando um ladrão levou 11 mil euros do posto dos correios que ali funciona há mais de 15 anos. “Foi a junta que teve de tirar dinheiro do seu orçamento para dar aos Correios, quando ainda lhes estamos a fazer um favor”, critica o presidente da autarquia, Carlos Leitão, explicando que fazer um seguro sairia tão ou mais caro à freguesia.
A estação de correios mais próxima de Cardigos fica a 27 quilómetros, em Mação. Uma distância demasiado longa para os mil habitantes, maioritariamente idosos. “Não tínhamos outra alternativa, ou assumia a junta ou ficávamos sem posto de correios, numa zona onde as pessoas não têm transporte ou condições financeiras para ir a Mação enviar uma carta”, diz.
Para o autarca, a privatização dos CTT “só veio piorar o serviço” e obrigar o “Estado a pagar por um serviço que o próprio privatizou”. E entrando em valores o cenário não tem melhorado. A autarquia começou por receber 500 euros por aceitar o serviço que “davam para pagar a uma funcionária, e em 2020 recebe menos de metade. Apesar do prejuízo, o serviço vai continuar a ser prestado para não desaparecer e “porque é essencial à vida das pessoas”, assegura o autarca.

Postos dos CTT em minimercados  são uma caricatura do serviço público 

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