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Xeque-mate: numa sala de aula em Alverca aprende-se a jogar xadrez 

Rui Santos é de Fazendas de Almeirim, dá aulas na Fundação CEBI de Alverca e está numa missão: transmitir a sua paixão pelo xadrez aos jovens. Foi jogador federado e viu nascer muitos talentos na sua sala de aula. Em conversa com O MIRANTE, fala de um jogo que o apaixona desde os seis anos mas também da profissão que escolheu.

Estimular a capacidade de pensamento estratégico e criativo, a ponderação e a calma na tomada de decisões são alguns dos factores que tornam o xadrez especial para Rui Santos, 46 anos, professor do primeiro ciclo do Colégio José Álvaro Vidal, da Fundação CEBI, em Alverca.
Num momento em que uma série televisiva está a reacender a paixão pelo xadrez em todo o mundo, O MIRANTE foi conhecer a história deste professor de Fazendas de Almeirim que há mais de uma década ensina xadrez aos seus alunos. E interesse não tem faltado na Actividade de Enriquecimento Curricular que dirige tendo actualmente mais de 18 alunos de todas as idades a aprender. Rui é um apaixonado pelo jogo desde os seis anos quando os pais lhe deram o seu primeiro tabuleiro.
Aprendeu a jogar a sério já depois dos dez anos com uma professora de inglês que tinha um tabuleiro junto à lareira e que jogava enquanto bebia chá. “É uma memória muito viva que ainda hoje preservo”, conta. Rui confessa-se viciado no jogo: todos os dias disputa mais de 20 partidas rápidas através da internet com adversários de todo o mundo. E sempre que pode faz partidas frente a frente com outras pessoas. “É um jogo cerebral em que se tem de pensar”, sintetiza.
Começou a trabalhar no CEBI a 11 de Setembro de 2001, data dos ataques terroristas em Nova Iorque. Na altura vivia em Alverca e, um dia, ao sair de casa encontrou um grupo de homens a caminhar na rua com tabuleiros de xadrez. “Falei com eles e falaram-me dos Peões de Alverca. Escusado será dizer que passei a frequentar bastante o clube”, recorda a O MIRANTE.
“Tenho pena e tristeza do clube ter acabado. Infelizmente, os maiores dinamizadores foram morrendo porque já tinham alguma idade. O Ernesto Loureiro, que era o presidente, também já faleceu e era um grande dinamizador do xadrez em Alverca. Chegámos a organizar torneios juntos”, recorda Rui Santos. O professor acredita que um dia a cidade conseguirá juntar um novo grupo de entusiastas de xadrez para que a actividade seja reactivada.

O xadrez é como uma balança
Na aula de Rui Santos os alunos aprendem a configuração do tabuleiro, os movimentos, peças, as chamadas “aberturas” e “finais” (jogadas estudadas) e a importância do centro do tabuleiro, como manter um ataque cerrado aos adversários e como se livrarem de uma situação de aperto. “O xadrez é muito giro. Podemos estudar tudo e mais alguma coisa mas boa parte do sucesso do jogo está na mente de cada pessoa. É isso que faz com que sejamos ou não um mestre no jogo”, conta.
Rui já privou de perto com ases do tabuleiro. Um dos alunos, com 10 anos, conseguiu vencê-lo sem sequer estar a olhar para o tabuleiro. Foi um aluno que chegou a ficar em quinto lugar no Campeonato da Europa de Xadrez e ainda competiu no Campeonato do Mundo, até ter desaparecido do radar da modalidade. “Há pessoas que nascem com um dom inato para o xadrez”, confirma.
Por se tratar de uma escola, Rui Santos diz não ter sentido uma especial procura dos alunos depois da série da Netflix que meteu o mundo a falar de xadrez, chamada Gambito de Dama (uma táctica de ataque no jogo). “O nosso público é mais fechado. Mas a nível dos clubes e dos adultos sem dúvida que se sentiu um grande aumento da procura pelo jogo, gente nova que quer aprender a jogar. Isso é muito positivo e permite que se viva novamente um período de grande crescimento no xadrez”, refere.
Para o professor a ideia que o xadrez é um jogo de elites é errada. “Pelo contrário, não interessa se somos ricos ou pobres, o xadrez é uma balança que tudo equilibra”, conclui.

“Bater nos alunos nunca foi boa ideia e nunca trouxe nada de bom”

Rui Santos é casado e tem dois filhos. Ser professor do primeiro ciclo é uma profissão que o encanta e onde acredita poder fazer a diferença todos os dias no futuro das crianças. Antes da pandemia ia de comboio para Alverca. “Aproveitava para jogar xadrez no caminho”, confessa com um sorriso. Agora está a deslocar-se de carro até “ser seguro” andar novamente de comboio.
Diz lembrar-se de todos os nomes da sua primeira turma e que é preciso cuidado com o excesso de ecrãs entre os jovens em idades tão pequenas. “Um bom professor da primária é fundamental para o futuro das crianças. Se as coisas não correrem bem elas ficam sempre com um pé atrás face à escola no futuro”, defende.
É um homem que gosta de desafios e por isso não se vê a ensinar apenas uma disciplina a vida inteira. Entende que se passou do 8 ao 80 no que diz respeito à autoridade dos professores e que se passou de um momento em que os professores e os padres eram figuras inquestionáveis para momentos em que os professores viram a sua autoridade diluir-se.
“Bater nos alunos nunca foi boa ideia e nunca trouxe nada de bom. Felizmente com o tempo as coisas foram evoluindo. Tudo tem a ver com educação e respeito: os professores não acharem que sabem tudo e os pais terem também o respeito necessário por quem está ali a querer ajudar os seus filhos. É uma simbiose”, conclui.

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