uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
“Existe a ideia generalizada de que os advogados são ricos”
Edgar Valles, de origem goesa, chegou a Portugal em 1970 para estudar na Faculdade de Direito de Lisboa

“Existe a ideia generalizada de que os advogados são ricos”

Formado em advocacia, Edgar Valles possui, aos 68 anos, escritórios em Lisboa e em Brogueira, Torres Novas. Tem-se batido pela isenção de custas para os advogados, em acções em que sejam parte pelo exercício da sua profissão. Uma causa que não colhe simpatia popular numa sociedade que, diz, considera os advogados ricos. Homem de letras, escreve para jornais e tem obra editada, mas quando é preciso também pega na enxada para não deixar ao abandono a fazenda na Brogueira.

Nasci no Bié, Angola, em 1952. Vim para Portugal em 1970, para estudar na Faculdade de Direito de Lisboa. Ali formei-me em Outubro de 1975. Os meus pais eram goeses. O meu pai era engenheiro agrónomo, nos Serviços de Agricultura em Angola, e a minha mãe dava explicações de inglês. Tinha tantos alunos que, a determinada altura, ganhava mais do que o meu pai.
Considero útil a diversificação de experiências profissionais. Enriquecem o indivíduo, permitindo apreender saberes de outras actividades. Em 1975 fui técnico de acção sindical no então Sindicato dos Caixeiros, em Lisboa. Em 1976 fui docente na recém-criada Faculdade de Direito de Luanda. Em 1977 fui jornalista no semanário “Extra”. Desde 1978 tenho exercido advocacia a tempo inteiro. Além de advogado, sou autor de obras jurídicas e também formador. Tenho, neste momento, 17 livros publicados na editora Almedina.
A pandemia veio dificultar o trabalho do advogado. O principal problema é que as pessoas hesitam, interrogando-se se vale a pena tratarem dos assuntos quando a saúde está em perigo. Por outro lado, o declínio na actividade económica trouxe falta de dinheiro e quando não há recursos…
Tenho-me batido pela isenção de custas para os advogados, em acções em que sejam parte por via do exercício da sua profissão, a exemplo do benefício atribuído a procuradores do Ministério Público e juízes. Não se vislumbram resultados positivos. É uma luta que não colhe a simpatia popular pois existe a ideia generalizada de que os advogados são ricos (o que não corresponde à verdade, pois há muitos advogados carenciados).
Tenho uma fazenda na Brogueira, concelho de Torres Novas, onde instalei um escritório secundário, complementar à minha base de trabalho que é em Lisboa. A cidade de Torres Novas desenvolveu-se imenso, com tudo o que de positivo e negativo isso implica. Considero muito positiva a actual gestão do presidente Pedro Ferreira, um homem simples, sem a mania das grandezas, que sabe estar no seu lugar.
Os meus tempos livres são preenchidos por actividades diversificadas. Estou envolvido na política local [pelo PS de Odivelas], na actividade associativa (sou dirigente da Associação 27 de Maio, com ligações a Angola, e fui presidente da Casa de Goa) e, a um nível mais lúdico, procuro não deixar ao abandono a minha fazenda na Brogueira, pegando na enxada, já que receio o tractor.
Em 1972, quando tinha apenas 19 anos, comecei a escrever na prestigiada revista “Seara Nova”. Sempre gostei de escrever. Desde então, tenho colaborado em jornais, com destaque para o “Público”. Há sempre tempo quando gostamos do que fazemos.
A viagem que me ficou na memória foi, curiosamente, uma viagem de que não tenho recordações próprias. Foi uma viagem fascinante, cheia de aventuras, e muitas vezes comentada pelos meus pais. Trata-se da viagem marítima com partida no Lobito, passando pela cidade do Cabo (África do Sul), Beira, Mombaça (Quénia), Goa, Canal do Suez, Lisboa, Luanda e, depois, chegada ao ponto de partida (Lobito). Foi em 1956, tinha três anos de idade. O Canal de Suez ficou bloqueado após a passagem do nosso barco pois rebentou a guerra entre Israel e os países árabes. Gosto de viajar, mas nas actuais circunstâncias, de pandemia, perdi a expectativa de viagens.
Gosto muito de futebol, principalmente dos jogos da selecção. Não gosto de críquete. Os goeses, ainda que sendo etnicamente indianos, têm uma identidade própria, distinta do resto da Índia. O futebol é o desporto rei em Goa, ao contrário do que sucede no resto do país, onde reina o críquete. Goa não teve direito à autodeterminação, foi sacrificada pela teimosia de Salazar e pelo expansionismo de Nehru (então primeiro-ministro da Índia).
A democracia está sólida. Apesar da crescente expansão de movimentos de extrema-direita não considero que a democracia esteja ameaçada. Os movimentos de extrema-direita podem causar arranhões, mas não a põem em causa. O que não quer dizer que, com o crescimento dos populismos, não possam ganhar uma dimensão inesperada e corroer-lhe os alicerces.
Estamos aprisionados numa redoma de vidro. Do que sinto mais falta dos tempos pré-pandemia é do convívio e das actividades culturais.

“Existe a ideia generalizada de que os advogados são ricos”

Mais Notícias

    A carregar...

    Capas

    Assine O MIRANTE e receba o Jornal em casa
    Clique para fazer o pedido