
Doentes internados na garagem do Hospital de VFX choca Ordem dos Médicos
Ordem dos Médicos e Sindicato Independente dos Médicos quiseram ver quão pior está o Hospital de Vila Franca de Xira desde que passou para a gestão do Estado e ficaram quase sem palavras à saída. O maior choque foi verem doentes acamados numa zona do parque de estacionamento adaptada.
O Hospital de Vila Franca de Xira está a funcionar pior desde que está a ser gerido pelo Estado e já tem doentes internados numa das zonas do parque de estacionamento, situação que deixou chocados os representantes da Ordem dos Médicos (OM) e do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) que visitaram o espaço na manhã de segunda-feira, 11 de Outubro.
Também a zona dos testes Covid está a ser feita num contentor situado num parque de estacionamento subterrâneo. “Nos últimos seis meses começámos a ter pedidos de escusa de responsabilidade por parte dos médicos e relatos de situações de insuficiência de serviços e escalas que não estávamos habituados a ver neste hospital. Esta visita deixou-nos muito preocupados”, lamentou Alexandre Valentim Lourenço da secção sul da OM.
O dirigente diz-se alarmado por ter visto “muitos doentes internados na garagem do hospital” onde as condições são “penosas” para quem está internado e quem lá trabalha. “A garagem foi transformada no tempo da Covid mas como continua a ser necessária por falta de camas continua em funcionamento”, critica.
O hospital não nega o internamento de doentes no parque de estacionamento contíguo ao serviço de urgência devido a “constrangimentos de espaço e dificuldades de gestão de camas”. Mas garante que o conselho de administração está a tentar requalificar a área para lhe dar maior dignidade. “Em articulação com a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e com a empresa gestora do edifício estão a ser tomadas medidas de forma a melhorar as condições de segurança clínica, quer para os profissionais de saúde quer para os doentes desse espaço de internamento para dignificar o atendimento prestado aos doentes”, explica a unidade de saúde a O MIRANTE.
“Sofrimento ético”
Alexandre Valentim Lourenço diz que o hospital desde que tem a actual gestão passou a ter dificuldade em reter os médicos e alerta para uma sangria de clínicos para outras unidades. “Os médicos não têm tempo, estão cansados e não conseguem sequer formar os colegas pelos quais são responsáveis. Isso está a levar os médicos a afastar-se deste hospital para outros onde as condições não sejam tão penosas como as que têm aqui”, critica.
O responsável diz ter ficado alarmado com muitos exemplos de colegas que estão a passar por um “tremendo sofrimento ético” por quererem prestar melhores cuidados e não conseguirem apesar de trabalharem quase 80 horas por semana. O membro da OM diz que algum material que se avaria pode demorar até dois anos a ser reposto. Endoscopias agora só se estão a fazer a quem está internado.
“Isto é grave. Na anterior gestão se fosse preciso médico eles tinham maleabilidade para oferecer contratos rápidos, agora a gestão está presa a contratos pelos sistemas centrais que têm concursos que demoram meses ou até anos a ficarem concluídos. E ninguém espera um ano para vir para um sítio onde é penoso trabalhar”, avisa Alexandre Valentim Lourenço.
O responsável da OM fez uma visita acompanhado por Jorge Roque da Cunha, do SIM, tendo estado reunido com a administração do hospital. “Esta administração tem menos armas e armas menos potentes do que a anterior, que tinha autonomia de decisão e capacidade de tomar decisões mais rapidamente”, nota. Também as listas de espera estão a aumentar e as equipas de profissionais a diminuir, alertaram as duas entidades.
O hospital, estima a Ordem dos Médicos, terá perdido mais de uma dezena de médicos desde que a gestão passou para a alçada do Estado, mudança essa que não foi boa e está a gerar forte descontentamento. “O Hospital de VFX estava nos rankings de avaliação como um dos melhores e está rapidamente a perder essas capacidades”, lamentou Alexandre Valentim Lourenço.
Gestão privada poupou 30 milhões
O Tribunal de Contas já tinha referido que, em quatro anos, a parceria público-privada que existia com o grupo José de Mello Saúde para gerir o Hospital de Vila Franca de Xira tinha permitido uma poupança de 30 milhões de euros ao Estado. O grupo técnico que avaliou a parceria desaconselhou a renovação do contrato por mais dez anos pese embora tenha dado nota positiva à gestão privada da unidade. O Estado tomou conta do hospital em Maio.
