Sociedade | 02-07-2026 14:09

Morreu Osvaldo Pires: um homem dos sete ofícios

Morreu Osvaldo Pires: um homem dos sete ofícios
Osvaldo Pires concedeu a sua última entrevista a O MIRANTE em Janeiro deste ano - foto arquivo O MIRANTE

Homem dos sete ofícios, Osvaldo Pires sempre encarou a vida com optimismo e fez de tudo um pouco, de pastor a vendedor de seguros. Pessoa afável, dinâmica, muito envolvida na vida associativa de Alhandra, era actualmente presidente da assembleia de freguesia. Morreu de cancro e deixa um vazio na comunidade difícil de preencher.

“Sei que um dia terei de morrer, mas isso acontece a todos”. Esta foi uma das últimas frases que Osvaldo Pires, presidente da Assembleia de Freguesia de Alhandra, São João dos Montes e Calhandriz, disse na sua última entrevista a O MIRANTE, em Janeiro deste ano. Foi uma conversa sobre política local mas que revelou também o espírito de um homem elogiado por todos e que, mesmo doente, não recusava limpar as ervas da sua rua por entender que cada cidadão deve dar o exemplo para tornar melhor a comunidade onde vive.
“Sou apaixonado pela vida e apaixono-me quatro a seis vezes por dia. Nunca sabemos qual é o nosso prazo de validade. O que me custa não é a morte. É deixar de ver um pássaro a voar, a folha de uma árvore a cair, um sorriso de uma criança, quando vejo um sorriso franco e alegre. Adoro gargalhadas. É o melhor que podemos ter”, confessava.
A comunidade de Vila Franca de Xira acordou mais pobre na terça-feira, 30 de Junho, com a notícia do falecimento de Osvaldo Pires, aos 55 anos. O autarca deixa um legado imperecível de entrega ao serviço público, generosidade e um optimismo inabalável que desafiou a própria finitude humana.
Homem de convicções fortes e de uma genuína rectidão cívica, Osvaldo Pires personificava o autarca de proximidade. Eleito pela coligação PSD/IL para um segundo mandato, nunca permitiu que as amarras da disciplina partidária ou as questiúnculas da “politiquice” asfixiassem o seu compromisso com as populações.
A sua trajectória de vida assemelhava-se a um livro de afectos e superações. Foi pastor, vendedor de seguros, agente imobiliário, gráfico, motorista, vendedor de produtos alimentares, gestor de contas, administrador e director de empresas, assessor e secretário da vereação. Era actualmente profissional de informática na Câmara de Vila Franca de Xira.
“O dia-a-dia cega-nos. Com a pressão do trabalho acabamos por não dar valor ao que temos. Precisamos de viver, fazer acontecer as coisas com que sonhamos. Não deixar que sejam os outros a escrever a nossa história. Não vale a pena perguntar se estou melhor, porque nunca irei melhorar. A pergunta deve ser como é que me sinto hoje? Vamos lá fazer coisas giras”, dizia, com um sorriso.
Osvaldo Pires parte mas a sua memória permanecerá viva em cada sorriso franco, em cada causa comunitária defendida e na coragem daqueles que, inspirados pelo seu exemplo, recusam render-se perante as adversidades da vida.

À margem

Perdeu-se um amigo

Dizem que a vida continua mas a verdade é que, quando parte um amigo, o relógio pára. Há vinte anos, aquando da minha chegada a O MIRANTE, Osvaldo Pires foi uma das primeiras pessoas com quem contactei em Vila Franca de Xira e, desde a primeira hora, construímos uma relação de confiança, respeito mútuo e amizade. Um homem que sempre se disponibilizou para ajudar, fosse a encontrar o número de telefone tão necessário para um trabalho ou a indicar o caminho para chegar às ruas mais estreitas de São João dos Montes. A partida estava anunciada mas lidar com ela nunca é fácil. Guarda-se a saudade no peito e o melhor que Osvaldo Pires nos deixou a todos: entrega à causa cívica, às pessoas, as gargalhadas partilhadas, os almoços, as discussões sobre a vida e a política. Um amigo nunca parte por completo: pelo contrário, deixa sempre um bocadinho de si em nós. E Osvaldo Pires deixou muito de si em todos aqueles que conviveram com ele.
Filipe Matias

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