Sociedade | 12-08-2005 10:24
A mulher que andou por Angola a entregar mensagens aos soldados
Maria Estefânia Anachoreta gravou mensagens com as famílias dos militares do distrito de Santarém e prometeu ir entregá-las a Angola. Foi a meio da década de sessenta. Prometeu e cumpriu. Fez mais de 18 mil quilómetros por picadas e viveu momentos emocionantes como o da alegria do soldado que ouviu pela primeira vez a voz do filho que ainda não conhecia.Vila Nova de Ourém, São Vicente do Paúl, Abrantes. Um dia qualquer da primavera de 1966. Mães, esposas e namoradas de militares que combatiam em Angola juntavam-se no local e hora marcada em redor do gravador Sienna de Maria Estefânia Anachoreta. A delegada do Movimento Nacional Feminino em Santarém, que prometeu levar as mensagens gravadas a todos os militares do distrito de Santarém, põe a bobine a correr.As emoções apanhavam desprevenidas as mães e mulheres dos militares sempre que o botão do gravador se ligava. “Algumas choraram tanto que estragaram as mensagens”, recorda. Era a delegada que muitas vezes tinha que recorrer ao bom humor para que as vozes longínquas da metrópole ecoassem. “Então porque é que não trouxe o bebé para o pai ouvir a voz dele”, interrogava Maria Estefânia. “Está muito pesado, não sou capaz de o trazer. Pesa nove quilos”, precisava a mãe. “Isso não é um bebé é um leão!”, brincava Maria Estefânia. Durante vários meses a delegada percorreu todas as freguesias do concelho de Santarém. Em cada localidade reunia um conjunto familiares que deixavam em registo sonoro o desejo de um regresso rápido. O gravador, que Maria Anachoreta ainda conserva, foi oferta de um comerciante.As mensagens para os militares do resto do distrito, de Abrantes a Salvaterra de Magos, foram gravadas pelas delegadas do Movimento Nacional Feminino em cada um dos concelhos. A montagem ficou a cargo do Capitão Jaime Varela. Durante cerca de três meses o colaborador da Rádio Ribatejo reuniu as mensagens por Serviço Postal Militar. A mesma separação que era feita ao correio entregue aos militares – os aerogramas.“Na [companhia] 1086 estava um homem de S. Vicente do Paúl, um homem de Santarém e um homem de Abrantes. Então o capitão gravava as mensagens para eles todas seguidas. Não sei como é que ele fez aquele trabalho, mas fez aquilo com tanto gosto que resultou perfeitamente”. No Verão de 1966, em plena guerra colonial, Maria Estefânia Anachoreta, deixou o conforto da casa de Santarém, no Largo do Carmo, e partiu para Angola ao encontro dos militares do distrito. Depois de quatro tentativas falhadas de levantar voo, por causa de aparentes problemas no motor, a delegada de Santarém do Movimento rumou em direcção ao Ultramar. Na bagagem levava o gravador e dezenas de bobines com 1200 mensagens das famílias. A angústia que sentia sempre que contactava com as famílias dos combatentes levou-a a aventurar-se numa viagem única. “Elas pensavam que se lutava nas trincheiras, como nos filmes. Via-as tão aflitas que lhes disse: vou lá fazer os mesmos caminhos de picada para que vocês saibam que onde eles estão também eu posso ir”, relata à distância de 40 anos.Assim que Maria Anachoreta chegava a um aquartelamento punha a bobine a correr. O silêncio era total. As vozes calavam-se para escutar as palavras sentidas da Metrópole que vinham do fundo do coração. “Querido filho, desejo que passes um feliz Natal. A tua avó de 83 anos ainda espera poder abraçar-te”, desabafa uma mãe com a voz embargada pela dor.Os militares admiravam a senhora que chegou onde mais ninguém se arriscou ir. Maria Anachoreta foi sempre respeitada e estimada. Talvez pela postura que adoptou. Chegou a Angola de lenço e tamancos nos pés. “Fui para África na condição de uma mãe de soldados”.Os militares tiravam fotografias para mandar às famílias. “Elas já sabia que onde eles estavam eu também estava e isso dava-lhes uma certa confiança em como poderiam voltar. Infelizmente não voltaram todos”.Maria Anachoreta regressou em 67, sete meses depois do início da aventura, por causa da doença de seu pai, que acabaria por falecer dez dias depois. E por muitos anos não voltou a falar da viagem. “Calei-me bem calada porque em 67 já tinham ido e vindo muitos militares e se eu dissesse o que tinha feito ninguém acreditava”, confessa.A viagem a Angola foi o grande feito da sua vida. Diz com a certeza que se tem aos 86 anos. Maria Anachoreta nunca esquecerá o pôr do sol de África e as flores brancas do cafezeiro. Assim como nunca arrancará da sua memória as vozes trocadas entre Portugal e África naquele ano quente de 66.
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