Sociedade | 24-09-2006 09:21
Antiga estalagem onde "nasceu" hino nacional ao abandono
A antiga Estalagem dos Vales, em Ferreira do Zêzere, onde o rei D. Carlos pernoitou e Alfredo Keil compôs a orquestração do hino nacional, é hoje um "esqueleto" de paredes que um movimento cívico pretende transformar em museu.O edifício, uma casa agrícola da segunda metade do século XIX, encontrava-se em estado de degradação há largos anos quando, em meados de Julho, os seus proprietários, que queriam construir uma moradia, limparam o terreno e removeram parte do telhado em ruínas, deixando apenas as fachadas.Os donos, um casal de emigrantes na Suiça, até estão dispostos a ceder a propriedade em regime de permuta ou vendê-la, tendo já afixado um anúncio no local, mas dão um prazo de poucos meses para a concretização do negócio.Os proprietários alegam não compreender as razões por que o imóvel adquiriu importância ao fim de décadas de abandono, apesar de ter sido inscrito em 1995 no Plano Director Municipal de Ferreira do Zêzere como uma das casas de interesse patrimonial a preservar."Se não conseguir vender este ano, não vendo mais, vou fazer a tal moradia, nem que recorra aos tribunais", afirmou à Lusa o proprietário, Carlos Rodrigues.O proprietário acrescentou ter proposto anteriormente a venda do imóvel à autarquia e que esta "recusou" comprá-lo, invocando falta de verbas e que o edifício "não tem interesse histórico".Do presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, o social-democrata Luís Pereira, não foi possível, ao longo de várias semanas, obter esclarecimentos sobre a matéria.Temendo a perda irreversível de um património histórico, vários cidadãos, entre os quais artistas, uniram-se no movimento "CulturZêzere" para angariar dinheiro com vista à compra e recuperação do imóvel e posterior instalação de um museu que recorde o passado da estalagem.O museu seria gerido pela Junta de Freguesia de Águas Belas, que se queixa da escassez de recursos financeiros para recuperar a casa, um piso térreo de linhas arquitectónicas simples situado à beira de uma estrada e rodeado por outras habitações.Francisco Keil do Amaral, arquitecto e bisneto de Alfredo Keil, já se manifestou receptivo em ceder algum do espólio do compositor, pintor e poeta, que tem à sua guarda, mas entende que deve ser instalada, em alternativa, uma pequena unidade hoteleira com uma área reservada para uma exposição permanente sobre a antiga estalagem.Destacando o simbolismo histórico do local, Paulo Alcobia Neves, porta-voz do movimento cívico "CulturZêzere", relatou à Lusa, citando documentação e imprensa da época, que o rei D. Carlos ali pernoitou em 1901 quando ia caçar javalis.O investigador referiu que o seu bisavô, um carpinteiro republicano, fez, na ocasião, um penico forrado a veludo para o monarca.Na rústica hospedaria, onde passou largas temporadas, Alfredo Keil escreveu a primeira ópera em língua portuguesa, "A Serrana", e adaptou para orquestra a música de "A Portuguesa", adoptada como hino nacional em 1911, um ano depois da implantação da República.Também conhecida por Estalagem da Aninhas, devido ao nome da sua proprietária, a modesta casa, com bons quartos e cozinha, segundo Paulo Alcobia Neves, foi ainda frequentada por outras figuras ilustres das artes, como os pintores José Malhoa, Ferreira Chaves, José Campas e Simões de Almeida e o actor Taborda.No primeiro quartel do século XX tornou-se numa casa de lavoura de uma família abastada.O actual dono, Carlos Rodrigues, contou que, quando comprou há 11 anos a propriedade, o edifício da antiga estalagem estava em ruínas.Pensou em recuperá-lo mas desistiu da ideia, já depois de "aprovado o projecto pela Câmara"."Ia gastar muito dinheiro para recuperar aquilo, estava muito caído, degradado", sustentou à Lusa, acrescentando ter optado pela construção de uma vivenda de raiz.O emigrante garante que em Julho apenas removeu parte do telhado que ruíra e limpou o terreno, cheio de silvas, depois de os vizinhos se terem queixado de lixo e bichos nas redondezas."Tivemos autorização da CâmaraÓ conheço aquela terra há cerca de 20 anos e sempre vi aquela casa abandonada. Vêem aquilo ser limpo e agora é que se lembram que tem valor inestimável?", questionou Leonor Rodrigues, mulher do proprietário.O presidente da Junta de Freguesia de Águas Belas, o socialista José Marques, lamenta que "não tenha sido feita uma intervenção antes" no imóvel, embora afirme ter tomado conhecimento do seu "valor histórico" há pelo menos seis anos."Mas os recursos da Junta são poucos, são muitas as necessidades, é preciso arranjar apoios", justifica-se o homem que gere os destinos de uma freguesia rural com 1.039 eleitores."Queremos ajudar a Junta a recuperar o imóvel e a transformá-lo num museu que evocasse a história da estalagem. Estamos a pensar organizar espectáculos para angariar fundos e recorrer ao mecenato de empresas", adianta Paulo Alcobia Neves, porta-voz do movimento "CulturZêzere", que já reúne os apoios da pianista Carla Seixas, dos actores Morais e Castro, Linda Silva e Leonor Seixas e do arquitecto Francisco Keil do Amaral.O bisneto de Keil do Amaral está disposto a ceder uma parte do acervo do bisavô, cujo centenário da morte se completa no próximo ano, e que inclui desenhos, pinturas e anotações que testemunham a sua passagem pela Estalagem dos Vales, que ele próprio pintou em 1897.Mas o arquitecto discorda que o imóvel seja recuperado para fins museológicos, por falta de espaço, defendendo um uso semelhante ao de antigamente: um restaurante com "uns quartos", que poderia ser decorado "de maneira interessante" com motivos da época e ter uma sala para uma exposição permanente sobre as pessoas que fizeram a história da estalagem.
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