Sociedade | 12-03-2010 07:15

Solar de Benavente foi coração do fado no Ribatejo na década de sessenta

Na década de sessenta o coração do fado no Ribatejo pulsava no Solar de Benavente. Hermínia Silva era um das vozes da canção portuguesa que agitava o ambiente de província. O edifício do solar, símbolo cultural da vila, está de portas fechadas. O presidente da Câmara Municipal de Benavente, António José Ganhão, revela que não deu entrada nos serviços da câmara qualquer projecto para reabilitar o espaço, mas a família dos proprietários não coloca de lado a hipótese de dar vida ao espaço mantendo o carácter típico de um espaço com história no concelho e no Ribatejo. Ao domingo Hermínia Silva cantava o fado a Benavente e trazia o elenco. Foi um sucesso enquanto restaurante típico. Ao espectáculo de fado juntava-se depois o folclore e a animação com um conjunto de baile. “O solar marcou gerações de homens e mulheres”, diz António José Ganhão que tem boas recordações do local que frequentava aos 18 anos. Ao solar chegava gente de Lisboa. Foi um ponto de animação turística importante para a vila. Lustres a pender do tecto, cortinados, loiças finas. Pinturas de paisagens e retratos. O vinho não era servido pelo cliente, pormenoriza João Costa, 74 anos. Nos anos áureos do solar não visitou o espaço, ocupado que estava no fulgor de trabalho de soldador, mas chegou a observar a entrada triunfal de Hermínia Silva. Em terra de trabalhadores do campo muitos eram os que não se atreviam a entrar no solar por considerarem que o espaço estava acima das suas possibilidades. Nos anos de 1966/ 1967 Silvério Rodrigues, hoje com 68 anos, era um dos que engrossava as filas para entrar no solar. Ouvia a canção portuguesa, que mais tarde haveria de abraçar como amador, e provava a acorda de sável e o ensopado de enguia. Em noite de sessão de fados chegava a gastar vinte escudos.Silêncio que se vai cantar o fado: Hermínia Silva, Tony de Matos, Anita Guerreiro, Madalena Iglesias, Tonicha, António Calvário e até o Max da “Mula da Cooperativa”. Maria da Piedade Mendonça de Carvalho, conhecida entre os amigos de Benavente por “Maruga”, 62 anos, neta de Amália Madueño Diaz, proprietária do espaço, era jovem na década de ouro do solar de Benavente, mas conversa vivas as memórias de um espaço que marcou a vida cultural de uma vila a quem os familiares quiseram transformar no “coração do fado do Ribatejo”. José Carlos Carrilho, engenheiro de som reformado, 68 anos, pinta de cores mais esbatidas o cenário de então. “O fado era vendido entre caldeirada e açorda de sável. Era a cultura do talher entre meia dúzia de canções”, opina.Pedro Vermelho, 81 anos, nunca entrou no solar, excepção para algumas festas de passagem de ano, mas recorda-se de ver o motorista, o senhor Angélico, pegar no carro para ir buscar Hermínia Silva a Lisboa. “Era uma casa cheia”, remata Gerardo Andrade, 75 anos, do outro lado do balcão de uma loja típica da rua onde o solar se ergue ainda. O fado persistiu até meados da década de oitenta, segundo os actuais proprietários. Continua o mesmo edifício imponente, a fazer a curva da estrada principal da vila, mas há muito que o fado se calou e as portas estão, por agora, fechadas.

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