Sociedade | 12-05-2019 10:00

Ser artista na província não é fácil mas dá muito gozo

Ser artista na província não é fácil mas dá muito gozo
ARTE

Artistas do concelho de Alcanena têm as suas obras em exposição na Alc’Arte.

Um dia, um cliente residente em Fátima pediu a António Aguiar, residente em Minde, concelho de Alcanena, para fazer cinco santos em barro. A tarefa até parecia fácil, mas algo impensável aconteceu. Quando o escultor estava a agarrar na peça já pronta da Nossa Senhora do Equilíbrio para a colocar no forno, sentiu um pequeno desequilíbrio que o fez deixar cair a peça no chão. Ficou tão impressionado com a situação que só teve uma atitude: contactou o cliente e disse que não lhe fazia mais nenhuma peça. Afinal, em mais de 40 anos de ofício, era primeira vez que um trabalho seu acabava em cacos.

António Aguiar, 85 anos, é um dos 34 artistas que tem alguns dos seus trabalhos expostos na Alc’Arte, quarta mostra anual dos artistas plásticos do concelho de Alcanena que está a decorrer até 7 de Junho. Nasceu em Angola, mas foi em Minde que se estabeleceu, aos 43 anos, tendo trabalhado toda a sua vida como escriturário na Junta de Freguesia de Minde. E foi nessa altura que a escultura surgiu na sua vida. “Uma vez, fui a uma exposição de esculturas de barro e, não sei porquê, algo me chamou a atenção. Foi aí que decidi ir pedir um bocado de barro a um oleiro e comecei a fazer qualquer coisa”, conta.

O artesão, que conta no seu espólio com mais de cinco centenas de esculturas, não tem dúvidas que os artistas da província são mais desvalorizados que os das grandes cidades porque são menos conhecidos. Mas isso não preocupa muito quem faz os seus trabalhos mais por prazer do que por negócio.

Também o pintor e fotógrafo Rui Gonçalves, 61 anos, partilha da mesma opinião. O empresário têxtil, residente em Minde, com um trabalho em exposição na Alc’Arte, confessa que não é fácil ser artista e ainda muito mais sendo da província. Mas, admite, “a verdade é que muitos de nós fazemos os trabalhos por carolice e isso é algo que não nos incomoda”.

Rui Gonçalves conta que começou a pintar os seus primeiros quadros com 15 anos, altura em que iniciou um curso no atelier do mestre Martins Correia, na Golegã. Desde aí nunca mais parou, tendo-se dedicado mais tarde à fotografia. Hoje, já com vários trabalhos no seu acervo, Rui Gonçalves conta que o que lhe dá mais prazer é pintar o nu feminino e fotografar rostos. “A verdade é que não pretendo transmitir nada ao público. Tudo o que faço é apenas por gozo”, confessa o artista.

Já Ramiro Almeida ganhou o bichinho da pintura bem mais tarde, aos 70 anos. O artista de Minde, de 89 anos e com duas obras expostas na Alc’Arte, sempre apreciou arte, mas só quando se reformou é que teve possibilidade de se iniciar na pintura. Conta que teve sempre um gosto especial por pintar retratos a óleo sobre tela e não esquece o dia em que fez o retrato do seu irmão. “A minha cunhada pediu-me para reproduzir o meu irmão, que faleceu com 53 anos, num quadro e aceitei. Agarrei numa fotografia dele e comecei logo a trabalhar. Entretanto, não sei o que aconteceu, mas em duas horas tinha o quadro concluído e perfeito”, recordou.

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